13 de junho de 2026

Exportar produtos primários é tão ruim assim? Por Rui Daher

Navio de soja em Paranaguá

Da CartaCapital

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Gostamos nós, os brasileiros, de martírios por malfeitos ou não feitos. Nelson Rodrigues pulou na frente e espalhou que sofremos do complexo de vira-latas. Virou chavão e injustiça com os simpáticos e virtuosos amigos. Se esta é mais uma sacada de sua genialidade, mérito maior foi a coragem de dizê-lo.

Aos feitos bons caçoamos como se ufanismos fossem, e reduzimo-nos a bosta em pasto seco. Aos inquestionáveis, sobretudo reconhecidos “lá fora”, damos um tempinho até amarrarmos uma corda no pescoço da estátua antes erigida e a deitamos ao chão. Vivemos de replicar Saddam e Lênin.

Martírio recorrente, autoflagelo de muitos analistas, é o Brasil ser primordialmente exportador de bens primários. Agrícolas especialmente, que “não agregam valor”, embora saibamos que agregam.

Estudiosos da formação econômica brasileira, desde a origem colonial até a primeira metade do século 20, deixam claros os motivos desse percurso: “foi assim/a lâmpada apagou/a vista escureceu”, como na composição de Haroldo Barbosa e Luiz Reis Meu nome é ninguém, gravada por Miltinho, em 1962.

Só não me peçam confirmar o verso seguinte da canção: “um beijo então se deu”. Pelo jeitão, o final está mais para briga de foice no escuro.

Desde implicações colonialistas e o minueto monocultor do baronato rural até fraturas no modelo nacional-desenvolvimentista de substituição de importações, proteção desmedida dada a um empresariado paroquial, e a distração quando a globalização já mostrava a quem serviria, caminhamos para, hoje em dia, darmo-nos por satisfeitos em, ao menos, sermos craques em exportar bens primários.

País com processo de industrialização assim requentado, baixo acesso à inovação tecnológica, em ciclo capitalista de transição e reordenação de hegemonias, e comércio exterior extremamente concorrencial, que graça deveria receber do governo?

Duas décadas de massacre cambial, é claro. Não que faltassem alertas, certo professor Bresser-Pereira e minha gente séria, ligada em desenvolvimento estrutural e não em imediatismo patrimonial montado sobre juros e bônus estratosféricos?

Queríamos, então, o quê? Por acaso, o mais recente período de crescimento veio por algo diferente que a demanda e os preços no mercado externo de commodities, em especial as agropecuárias, onde somos bons de bola?

Ao setor industrial restou manter pé leve na área produtiva e outro pesado nas aplicações de tesouraria, brincadeira interrompida, por breve período, quando a presidente baixou os juros por decreto e passou a ser odiada pela elite rentista.

Aos que comentam, de forma errônea, boba e rasa, que “petralho”, vou logo avisando: com o ciclo de baixa nos preços das commodities agrícolas (17% nos últimos 12 meses, pelo índice da FAO), se bobearem a deixar o real se apreciar, achando que ajuste fiscal sem crescimento serve para alguma coisa e que Eduardo cunha curas legislativas, nem mesmo a infelicidade de ser exportador de bens primários segurará a balança comercial.  

Companheiros e companheiras (cutuco meus detratores no “Facebook Caboclo”), entre 2004 e 2013, as exportações totais mundiais foram de US$ 7,0 para US$ 15,4 trilhões. Aumento de 120%, em 10 anos. Nada mal. Os produtos agropecuários foram algo melhor. De US$ 486 bilhões para US$ 1,15 trilhão, ou 137% a mais.

Na média do período, a participação verdejante – sertanejos, campesinos, caboclos e, vá lá, ruralistas – sobre o total mundial de exportações permaneceu sempre ao redor de 7%.

Não somos, pois, lá grande coisa no comércio internacional. A evolução nos números mostra a disposição dos países em desenvolvimento de darem maior segurança alimentar a suas populações carentes.

Não se apequenem, porém. Entre os motivos da pouca representatividade está o fato de que alimentos, cada povo, quer garantir para si antes de mandar para os outros. Com chuteiras de futebol e capinhas de iPhone a coisa é diferente.

Na Federação de Corporações o jogo é parecido, mas diferente. Nossa participação sobre as exportações agrícolas mundiais oscila perto dos 7%, no entanto, sobre o total do comércio exterior, há dez anos, ralentamos em torno de 1,5%.

Onde, portanto, a virtù, se assim podemos considerá-la?

Verdejamos e distribuímos cada vez mais proteínas mundo afora. Nossa participação sobre o total de exportações agrícolas saiu de 5,8% para 7,6%, um aumento de 30%.

Com um agravante para quem ainda não entendeu que isso é força. Em 2004, as exportações agropecuárias brasileiras representavam 29% do total. Dez anos depois, representaram 36%.

Sei, sei. O nosso plumado industrialista dirá: “Não disse? Cada vez mais dependentes do setor primário”.

O colunista responderá: “Pois é, meu caro, é o que temos para hoje. Tratem de trabalhar para mudar isso e, por enquanto, deem graças aos céus”.

E por que não? A valorização do dólar já mostra sinais animadores aos exportadores. Há embriões formados que foram abortados.

Segundo o mais recente “Intercâmbio Comercial do Agronegócio”, editado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, alguns tupiniquins já conseguiam fazer cócegas no comércio exterior, digamos, mais adicionado.

Em 2013, exportamos US$ 4,3 milhões de aparelhos telefônicos para o Vietnã; US$ 66 milhões de tratores para a Venezuela; US$ 30 milhões de bombas de ar ou de vácuo e motores de pistão para o Egito; US$ 112 milhões de veículos aéreos para o Japão; e para Bangladesh, sei lá o motivo, US$ 1,2 milhão em armas de fogo.

Procurei no mercado sementes para plantar esses produtos. Não as encontrei. 

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

15 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Athos

    15 de agosto de 2015 1:54 pm

    Não é ruim…mas é coisa de
    Não é ruim…mas é coisa de POBRE!
    E não queremos ser POBRES para sempre!

    Queremos uma parcela maior da divisão internacional do trabalho.
    Sabe a parcela que não é de serviços braçais? É essa!

    1. bfcosta

      15 de agosto de 2015 2:00 pm

      É ruim sim ! Pior seria se

      É ruim sim ! Pior seria se nada exportássemos mas aí também…

      Os textos desse Rui Daher louvando o “agronegócio” são uma piada. Releia esse texto depois de ler estes dois outros textos aqui no GGN mesmo e veja a diferença no nível da argumentação.

       

      https://jornalggn.com.br/blog/ricardo-cavalcanti-schiel/crise-discursiva-do-pt-entre-tabus-e-autoproclamacao

      https://jornalggn.com.br/blog/ricardo-cavalcanti-schiel/desindustrializacao-e-%E2%80%98doenca-brasileira%E2%80%99-por-antonio-carlos-diegues

      1. Rui Daher

        15 de agosto de 2015 9:55 pm

        Mais um senhor

        que apenas lê o título. O texto analisa motivos e etapas da industrialização tardia e insuficiente do Brasil; reconhece que mais vale exportar tecnologias diferenciadas, e conclui, citando pequenas ações pontuais de exportações não agrícolas, que, ainda bem, são os primários que nos salvam. ONDE A PIADA? Paciência. Existe quem ri do que não entende.

        1. Athos

          17 de agosto de 2015 4:02 pm

          Apenas um contraponto, uma
          Apenas um contraponto, uma reflexão simples da idéia passada pelo título.

          Mas cuidado para não usar a lógica de ambientalistas.
          A lógica é: se questiona , é contra.

  2. Andre Araujo

    15 de agosto de 2015 1:55 pm

    Não é ruim mas um Pais não

    Não é ruim mas um Pais não deve viver só desse tipo de exportação. Os EUA são grandes exportadores de produtos primarios, mas não vivem só disso, exportam manufaturados, serviços, entretenimento.

    O Brasil no passado foi grande exportador de manufaturados de um tipo especial, produtos de tecnoligia media ideal para paises como os da Africa e America Latina, tornos simples, maquinas para ceramica, camaras frigorificas para carne,

    carretas de caminhão, maquinas arozeiras, debulhadoras de milho, etc. Esse grande setor foi dizimado, hoje nem sei se existe, floresceu no governo militar pelo imenso apoio da CACEX, extinta no Governo Collor.

     

  3. Pedro luiz todero

    15 de agosto de 2015 2:36 pm

    Uma economia estruturada deve

    Uma economia estruturada deve ter o pensamento contextual.No nosso país há espaço para todos conviver no campo, do agronegócio a agricultura familiar.. Aliás essas reflexo~es feitas por dirigente do MST em pálestra recentemente aqui em Chapecó Sc.Então ,acredito que políticas públicas devem olhar para todos os setores da economia do país.Falermos de economia real, de rprodução, de geração de emprego, de bons empregos para nossos tarabalhadores.Quem tem renda, gasta nos três setores da economia de um país.MANTER O EMPREGO, esse é o desafio de qualquer governo que governo para seu povo. O resto é…… 

  4. Fernando G Trindade

    15 de agosto de 2015 6:32 pm

    Lendo esste artigo do Rui

    Lendo esste artigo do Rui Daher me lembrei de um texto  (later, anos 80 ou 90) do Ignácio Rangel que infelizmente não localizei agora e que afirmava a vocação brasileira para o agronegócio, desde sempre, antecipando de certo modo a reafirmação da agricultura e da pecuária de exportação para o nosso País, a  que hoje assistimos.

    Para o que não sabem Rangel foi um dos principais assessores econômicos de Getúlio (pai do nosso industrialismo) e um dos formadores do pensamento econômico de esquerda no Brasil.

  5. sergio martins pinto

    15 de agosto de 2015 7:14 pm

    Rui, todo mundo mete o pau no

    Rui, todo mundo mete o pau no governo desde 1950, pelo menos. Mas o que fazem nossos industriais? Lá pela década de 80/90, conheci um monte de empresas cuja receita não operacional era muito maior do que a receita operacional. E todo mundo feliz.

    1. Rui Daher

      15 de agosto de 2015 10:03 pm

      Foi aí, Sérgio

      Que a lâmpada apagou, a vista escureceu. Protegidos até a década de 70, nos 80/90 partiram para a financeirização de suas empresas e, sem mais proteção estatal, tiveram que concorrer sem investir em inovação e qualificação da mão de obra. A Petrobras fez as duas coisas, virou o que virou e, agora, estão “desvirando” patrimônio tão importante.

      1. MarcosAS

        15 de agosto de 2015 10:25 pm

        Não tem indústrialização sem

        Não tem indústrialização sem proteção estatal em lugar nehum do mundo. A financeirização dos anos 90 não tem nada que ver com a proteção anterior. Tem a ver com a própria política sucida dos anos 90.

        1. Rui Daher

          16 de agosto de 2015 12:10 pm

          Claro que não tem,

          pelo contrário, são antípodas. Se não fui claro, desculpe-me.

        2. rdmaestri

          2 de janeiro de 2016 1:20 am

          Marcos, entro “meio atrasado” nesta discussão, mas …

          Marcos, entro “meio atrasado” nesta discussão, mas o que havia no Brasil nunca foi uma política clara de proteção estatal a uma indústria nacional, o grande exemplo era a indústria automobilística, que chegava a importar linhas de montagens completas de automóveis obsoletos nos países desenvolvidos (veja o vergonhoso caso do Aero Willis) que possuíam autopeças também com tecnologia ultrapassada.

          Ou seja, o que existia era somente a criação de uma mera reserva de mercado para atividades de baixo aporte tecnológico. 

  6. Marcos Oliveira

    15 de agosto de 2015 10:24 pm

    Se nossa população fosse muito, muito menor …

    O Chile desmontou completamente seu parque industrial com as políticas dos “Chicago Boys” de Pinochet, e mesmo assim é dos países com melhor qualidade de vida da América do Sul (provavelmente o melhor agora que a Argentina está mal das pernas). No entanto, é um país grande com uma população pequena. O Brasil, pelo contrário, possui 10 vezes a população do Chile. Não é realista imaginar que todas essas pessoas conseguirão empregos no agronegócio e no setor de serviços.

    Além disso, é evidente que o Brasil só conseguirá ter um estado de bem estar social do jeito que ele quer ter com o aumento da renda per capita, que passa por empregos de melhor qualidade, do tipo que a indústria (e, mais recentemente, o setor de serviços de alta tecnologia) geram.

    É comum observar um certo  “mimimi” – principalmente oriundo da esquerda – alegando que a culpa da situação capenga da indústria brasileira é dos próprios empresários do setor. Isso ignora o fato que o ambiente de negócios para a indústria no Brasil é o pior possível – altíssima taxa de juros (para que investir no setor produtivo se eu posso deixar o dinheiro no banco?) e taxa de câmbio por muitos e muitos anos valorizada. Isso sem falar na burocracia, nas leis trabalhistas arcaicas, na leniência da justiça do trabalho, na infraestrutura capenga, no cipoal tributário … chega a ser supreendente que tenhamos casos de sucesso como a Embraer, em um ambiente tão desfavorável como o nosso. No entanto, basta comparar uma cidade como São José dos Campos com cidades voltadas ao agronegócio ou à mineração para se perceber o efeito civilizatório que uma indústria pujante e moderna tem ao seu redor, até mesmo do ponto de vista social e de infraestrutura urbana.

    1. Rui Daher

      16 de agosto de 2015 12:07 pm

      Caro Marcos,

      concordo com você em todos seus argumentos e o texto é explícito sobre isso. Até o momento em que você compara a qualidade de vida de cidades industrializadas com aquelas de polos ligados ao agronegócio. De minérios, não conheço. Mas tenho certeza de que se impressionará vendo como as cidades ligadas ao agronegócio se desenvolvem de forma estruturada e, principalmente, com conforto social, paz, segurança e tranquilidade. Isso conta, sabia? Procure conhecer este novo Brasil agrário.

  7. rdmaestri

    2 de janeiro de 2016 1:10 am

    A lógica seria na indústria vinculada aos produtos primários.

    Numa das avalições de fim de ano, pensei no problema da industrialização no Brasil, e como me lembrava deste texto que na época não me chamou muito a atenção, estou no momento comentando-o mesmo que não seja mais lido por ninguém, mais um exercício de reflexão do que uma coisa a ser lida por muitos.

    Não adianta tentar competir em produtos industrializados em que o mercado interno não é forte, por exemplo, concorrer na indústria automobilística em que toda a tecnologia é externa e os mercados mais evoluídos estão no mínimo cinco anos a frente da indústria nacional. Da mesma forma eletro-eletrônicos os países mais desenvolvidos estão também na nossa frente.

    Porém se fosse criado uma política de incentivo a indústria que trabalha com nossos produtos primários, tanto os minerais como os agrícolas e pastoris, se geraria uma tecnologia não tão economizadora de mão de obra como os projetos destes produtos feitos nos países desenvolvidos.

    Esta necessidade de produtos com uma tecnologia adaptada a realidade da nossa produção, geraria produtos que, ao meu ponto de vista, é de forma equivocada são chamados por André Araújo de  “produtos de tecnologia media complexidade. Não gosto da denominação dada por André pois ela esconde uma espécie de obsolescência e na verdade o que se deve procurar são produtos de alta tecnologia em que não são agregados componentes para a diminuição ao extremo da poupança de mão de obra.

    Exemplifico melhor. Máquinas agrícolas para o mercado dos países desenvolvidos estão sendo projetadas para um uso de mão de obra quase que zerada. A pouco vi uma máquina de ordenha que era tão automatizada que o proprietário da exploração leiteira a monitorava via celular em qualquer parte do mundo. Um equipamento nesta direção aumenta o custo em dez ou mais vezes de um equipamento com toda a sofisticação para a ordenha mas que necessite uma pessoa simplesmente olhando o seu funcionamento.

    Se partíssemos para a produção de tecnologia de ponta, com o uso mínimo de mão de obra, mas sem tender ao zero, criaríamos equipamentos para a agro-indústria e outros setores primários, que teriam fácil colocação em países tecnologicamente mais atrasados e mesmo países desenvolvidos em que as necessidades da utilização dos produtos não fosse tão sofisticadas.

    Colheitadeiras, com GPS, sistemas de computadores embarcados que permitem o levantamento da produtividade local, são quase um “gadget” nas mãos de um agricultor de qualquer parte do mundo, porém a indústria internacional deste tipo de equipamento investe bilhões nesta direção criando equipamentos sofisticados e com validade duvidosa.

    Para este tipo de incentivo, seria necessário procurar as pequenas empresas ainda sobre o domínio de capital nacional (conforme a definição do passado) e incentivá-las nesta direção.

     

Recomendados para você

Recomendados