4 de junho de 2026

Os 96 anos de George Shearing

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Por Mara L. Baraúna

George Shearing (Battersea, Londres, 13 de agosto de 1919 – Nova Iorque, 14 de fevereiro de 2011)

O caçula de nove irmãos era cego de nascença e pertencia a uma família da classe trabalhadora. Seu pai era mineiro de carvão e sua mãe limpava trens à noite depois de cuidar das crianças durante  o dia. George começou a tocar piano aos três anos de idade e sua única educação musical formal consistiu de quatro anos de estudo no Linden Lodge School for the Blind, onde estudou Bach, Liszt e teoria musical. Lá, se encantou com o jazz através das gravações de pianistas americanos, como Earl Hines, Art Tatum, Fats Waller e Meade Lux Lewis. Enquanto o seu talento lhe rendeu uma série de bolsas universitárias, ele foi forçado a recusá-las a favor de conseguir dinheiro para ajudar a família tocando piano e acordeon em um pub da vizinhança. 

Trabalhou em bandas de dança para programas de rádio, fez gravações e tocou em hotéis dos anos 30 ao começo dos anos 40. Na década de 30, ele se juntou a Ambrose Dance Band, uma banda profissional só de cegos, e fez a sua primeira gravação em 1937. Naquela época, ele tornou-se amigo do crítico de jazz Leonard Feather e, através desse contato, fez sua primeira aparição na rádio BBC. Shearing tornou-se uma estrela em sua terra natal, apareceu em mais de 100 gravações, foi eleito sete vezes consecutivas na pesquisa realizada pela revista Melody Maker como melhor pianista de jazz, e fez parte do grupo do violinista francês Stéphane Grapelli que já era uma estrela internacional. 

Shearing já era famoso na Inglaterra quando foi para os Estados Unidos em 1947, substituindo Errol Garner no trio de Oscar Pettiford e liderou um quarteto com Buddy De Franco. Seu primeiro álbum, Piano Solo, foi lançado em 1947. 

Em 1949, formou o George Shearing Quintet, um dos quintetos mais populares do mundo do jazz. A ascensão de Shearing é atribuída à formação que ele montou, que incluía, além de seu piano, a seção rítmica baixo-bateria, um vibrafone e uma guitarra, incomum em uma configuração de quinteto. No grupo estava incluída uma mulher tocando vibrafone, Marjorie Hyams. Ela decidiu deixar o grupo em 1951 para começar uma família em Chicago.

O primeiro sucesso do quinteto foi September in The Rain.

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Em 1952, ele compôs Lullaby of Birdland. A canção tem letra de George David Weiss e  o título refere-se a uma homenagem feita a Charlie “Bird” Parker. Ele compôs seu maior sucesso comercial em apenas 10 minutos. Sarah Vaughan a gravou em dezembro de 1954 com o trompetista Clifford Brown para o selo Mercury.

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Birdland foi um famoso clube de jazz em Nova Iorque, anteriormente chamado Clique Club, onde o pianista George Shearing tocou pela primeira vez em 1949 com o clarinetista Buddy De Franco. Mais tarde, o proprietário Morris Levy o renomeou Birdland em honra de Charlie ” Bird” Parker. Em sua autobiografia, Lullaby of Birdland, Shearing diz que não havia nada de especial sobre o pequeno clube onde sentam no máximo 175 pessoas quando lotado, mas tornou-se famoso por causa das transmissões ao vivo que se originaram de lá.

Houve muitas mudanças de componentes do quinteto de Shearing ao longo dos anos, mas, exceto para a inclusão de um percussionista em 1953, a banda continuou a ser chamada de quinteto mesmo depois de ter-se tornado um sexteto – a instrumentação e o som se mantiveram o mesmo por quase três décadas.

Em 1961, lança um de seus mais famosos álbuns, Nat King Cole Sings/George Shearing Plays.

Em 1962, gravou o álbum Shearing Bossa Nova pelo selo Capitol.

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Em 1976, Shearing voltou a se reunir com Grapelli e fizeram o álbum The Reunion

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Em 1978, Shearing dissolveu o quinteto que tinha liderado por 29 anos e se apresentou em formações em trio, duo ou solo. Também trabalhou com os cantores Peggy Lee, Ernestine Anderson, Ernestine Anderson, Carmen McRae, Gerry Mulligan e Mel Tormé. Em 1981, Shearing remontou o quinteto para uma série de concertos com Frank  Sinatra no Carnegie Hall.

Com Mel  Tormé ele gravou cinco aclamados álbuns incluindo An Evening with Mel Torme & George Shearing, de 1982, vencedor do prêmio Grammy. A dupla ganhou um segundo Grammy no ano seguinte.

Em 1999, o seu 80º aniversário foi comemorado na Inglaterra, onde ele tocou para uma casa lotada no Birmingham Symphony Hall. Ele permaneceu ativo nos seus 80 anos, lançando um CD chamado Lullabies of Birdland. No ano seguinte, uma outra comemoração de aniversário, dessa vez com ingressos esgotados no Carnegie Hall.

Em 2004 lançou um livro de memórias, Lullaby of Birdland, e um CD intitulado Lullabies of Birdland. No mesmo ano, ele sofreu uma queda em sua casa e deixou de fazer aparições públicas depois disso. Em sua autobiografia, escrita com Alyn Shipton, Shearing recordou que suas primeiras tentativas de fazer música envolviam jogar garrafas de uma janela do andar de cima: garrafas de leite para um som clássico, cerveja para jazz. 

Apelidado de “Deus” por Jack Kerouac, Shearing é um fetiche particular do autor de On the Road (levado às telas pelo diretor brasileiro Walter Salles em 2012). Os personagens Dean e Sal ouvem um show dele no Birdland de Nova Iorque; 100 páginas depois, voltam a ouvi-lo em Chicago. “Dean anuncia: Sal, Deus acaba de chegar. Olhei. É ele! Deus! Sim! Sim! Sim! E, como sempre, estava com a cabeça apoiada na mão pálida, ouvidos bem abertos como orelhas de elefante, ouvindo os sons americanos e traduzindo-os para seu uso numa noite de verão inglesa. Quando ele foi embora Dean apontou para o banco de piano vazio. “Cadeira vazia de Deus”, disse ele”. Dean vê Deus no músico porque Shearing “sabe o tempo.” Sua capacidade de manter o ritmo na música representa a Dean uma maior compreensão não só de melodias musicais, mas do fluxo e refluxo da vida humana.

Shearing é considerado uma das grandes influências do jazz contemporâneo, uma lenda do jazz. Segundo alguns estudiosos, seu estilo econômico de tocar, seco, direto, objetivo, sem muitos arpejos nem elementos decorativos, teria influenciado diretamente o estilo de Tom Jobim, algo que é perceptível claramente quando se ouvem os discos em que Shearing acompanha cantores.

Em junho de 2007, o pianista foi nomeado pela rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham como Oficial da Ordem do Império Britânico por sua musicalidade e serviço na promoção das relações entre Inglaterra e EUA. Quando a honra foi anunciada, ele disse: “é incrível receber uma honra para algo que eu absolutamente amo fazer.”

Shearing estima que escreveu cerca de 300 músicas, das quais ele gostava de brincar que cerca de 295 eram completamente desconhecidas. O compositor teve vários álbuns na Billboard durante as décadas de 1950, 1960, 1980 e 1990. Tocou para os presidentes dos EUA Gerald Ford, Jimmy Carter e Ronald Reagan.

Shearing foi casado com Trixie Bayes de 1941 a 1973. Dois anos depois de seu divórcio, ele se casou com sua segunda esposa, a cantora Ellie Geffer.

Ele morreu de insuficiência cardíaca em Nova Iorque, em 14 de fevereiro de 2011, com 91 anos de idade.

Fontes:

As Far As Pianists Go, There Will Always Be Only One George Shearing’, por David McGee

George Shearing 

George Shearing 

Lullaby of Birdland (1952) 

 

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