
Por Fábio de Oliveira Ribeiro
Não é fácil a tarefa de entender o que ocorre no Brasil. A presidente da república foi atolada em denúncias de corrupção pela mídia revanchista, sofre ameaças de Impedimento e é sistematicamente impedida de governar por um Legislativo rebelde. A oposição também está atolada na corrupção, desfruta total proteção jornalística e se vê arrastada para a guerra política por um deputado corrupto que preside a Câmara dos Deputados. Eduardo Cunha diz que vai explodir o governo e pertence ao mesmo partido que o vice-presidente da república. A imprensa evoca a imagem do “mar de lama”, mas ela mesma está atolada até o pescoço num escabroso caso de envio criminoso de centenas de milhões de reais, bilhões de reais talvez, para o HSBC da Suíça. O ex-paraíso financeiro dos tiranos, traficantes de drogas, mafiosos e criminosos do colarinho branco foi implodido por um delator que, ao contrário dos delatores da Lava Jato, não goza de muito prestígio entre os donos dos veículos de comunicação brasileiros.
Um punhado de descontentes foi às ruas clamar pela deposição da presidenta, exigindo um golpe de estado e o retorno da Ditadura. Os militares da ativa, que não fazem questão de mantar muita proximidade dos anarquistas fardados aposentados que cometeram crimes durante a redentora, descartaram uma intervenção militar.
O processo de desconstrução da CF/88 é evidente. A mídia exige que os principais líderes petistas sejam condenados por presunção e sem provas, a suspeita transfere para o réu o dever de provar sua inocência. Os caciques da oposição não são nem processados (caso do Trensalão Tucano), nem condenados (como disse um deputado do PSDB). A justiça para eles é lenta e a garantia de prescrição é quase sempre segura (como está ocorrendo no caso do Mensalão do PSDB). Sérgio Moro está destruindo a economia brasileira com ajuda de uma PF que se recusa a aceitar o comando do Ministro da Justiça. O clima de guerra extra-constitucional de todos contra todos é evidente. A normalidade constitucional está sendo diariamente corroída. O processo de destruição da CF/88 é lento e doloroso. A edifício estatal está podre, mas ninguém chutará a porta para que as paredes desmoronem trazendo o segundo andar e o telhado ao chão.
A cocaína apreendida no helicóptero de um deputado é crime, mas não acarreta nem denúncia nem castigo. A execução de um traficante de drogas brasileiro na Indonésia despertou imensa compaixão na mesma imprensa que apoia a redução da maioridade penal e a pena de morte no Brasil.
Entre uma notícia ruim e outra, fiquei sabendo tardiamente que uma amiga minha canadense morreu há sete anos. A vida de Cheryl Lynn Franko (06/10/1953 ‐ 04/12/2008) no Brasil não foi fácil. Ela comprou um imóvel no Rio Pequeno próximo ao Córrego Pirajuçara. A primeira enchente destruiu tudo na casa dela. No ano seguinte, nova inundação seguida de destruição e ela pegou leptospirose. A conheci pouco depois da terceira enchente devastadora na casa dela. Ela fazia traduções e dava aulas de inglês.
O nome do traficante fuzilado na Indonésia (Marco Archer), a lembrança da amiga canadense que adorava conversar sobre literatura inglesa e a imagem do edifício estatal brasileiro ruindo me fizeram lembrar de “A Queda da Casa de Usher”. Li este conto de Edgar Allan Poe pela primeira vez há 34 anos, quando adquiri o livro “Histórias Extraordinárias”, Abril Cultural, editor Victor Civita, São Paulo, 1981. Reli o conto algumas vezes desde então.
Ao chegar olhar pela primeira vez a mansão decrépita o narrador afirma que “…uma sensação de insuportável tristeza me invadiu o espírito.” Esta é a sensação que sinto quando olho a queda do edifício constitucional brasileiro. À medida que a imprensa amplifica a tensão e a crise coloca frente a frentes os três poderes, dois dos quais dominados por forças que não se deixam dominar pela população em geral, aumenta a minha angústia. O que será do nosso Estado, o que será de mim quando ele ruir. Estou perdido. Não ouso esquecer as virtudes da CF/88 que muitos mais poderosos que eu se esforçam por rasgar. Como o proprietário da casa Usher fico me sentindo “…acorrentado por certas impressões supersticiosas relativas à mansão em que vivia, de onde, durante muitos anos, não ousara sair…”.
O parágrafo final deste conto de Edgar Allan Poe é de uma beleza literária incontestável. Assustado com o retorno do cadáver de Lady Madeline de Usher, o narrador foge e vê à distancia “…A irradiação provinda da lua cheia, de um vermelho cor de sangue, já baixa no horizonte, brilhava agora através daquela fenda antes mal perceptível, a que já me referi, e que se estendia em ziguezague, desde o telhado do edifício até sua base. Enquanto olhava, a fenda alargou-se rapidamente – soprou violenta rajada de vento, em redemoinho – e o disco inteiro do satélite irrompeu de repente à minha vista. Meu cérebro se transformou quando vi as pesadas paredes se desmoronarem, partidas ao meio; ouviu-se longo e tumultuoso estrondo, como o reboar de mil cataratas – e o lago fétido e profundo, a meus pés, se fechou, tétrica e silenciosamente, sobre os restos da Casa de Usher.”
Este conto foi publicado em 1839. A guerra civil norte-americana começou em 1861 e terminou em 1865. O conflito entre o norte e o sul, contudo, já se arrastava há algum tempo quando a guerra começou e pode ter servido de inspiração ao escritor. Mesmo que isto não tenha ocorrido, “A Queda da Casa de Usher” pode ser interpretado como uma transfiguração literária e onírica de um conflito que resulta em guerra civil, pois na obra de Poe, como bem disse Gaston Bachelard, “Las imágenes del sueño y las imágenes de la vida se funden las unas con las otras.” não se podendo “…desconocer el valor de una doble lectura que busca bajo el sentido manifiesto un sentido onírico profundo.” (El derecho de soñar, por Gaston Bachelard, Fondo de Cultura Económica, México, 1985, p. 142 e 140).
A imagem de um edifício rachado de alto abaixo e que desmorona à medida que a rachadura se expande pode descrever, de certa maneira, o que está ocorrendo no Brasil. Nosso edifício estatal ainda não desmoronou, mas as rachaduras na estrutura constitucional são evidentes e há vermes trabalhando nas fendas para expandi-las até a completa destruição do Estado tal como ele foi concebido. É isto o que desejamos?
Minha falecida amiga Cheryl Lynn Franko, a quem dedico este texto, tinha grande dificuldade para entender nossa cultura. “Vocês brasileiros são incapazes de decidir o que quer que seja. Estão sempre dizendo ‘quem sabe’, ‘talvez’, ‘se o tempo ajudar’, ‘amanhã veremos’ ou algo parecido.” Ela tinha acessos de raiva e começava a praguejar em inglês ou em francês quando alguém se recusava a dizer simplesmente “sim” ou “não” a uma pergunta objetiva feita por ela. O momento de nos decidirmos o que queremos chegou.
As consequencias trágicas de um “Estado falido” (há vários exemplos deles na África e no Oriente Médio) serão as mesmas das de um “Estado autoritário”como o que existiu no Brasil de 1964 a 1988, com um diferença. Se nossa mansão desabar como a Casa de Usher todos nós, ricos e pobres, petistas e tucanos, sofreremos igualmente. Quem tiver mais não perderá menos como ocorreu durante a Ditadura. Portanto, é melhor todos nós tratarmos de salvar nosso “Estado democrático” enquanto isto pode ser feito.
Odonir Oliveira
26 de julho de 2015 12:24 pmOs índices, os signos….
a ante- véspera da tragédia …
Tudo antecipava a queda da casa.
Quem não viu?
Quem não “leu”.
Meire
26 de julho de 2015 12:56 pmAos tucanos e todos os outros CORRUPTOS, que se opõem ao Brasil.
Apesar de Você
(Chico Buarque)
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Link: http://www.vagalume.com.br/chico-buarque/apesar-de-voce.html#ixzz3h09YqXke
Alberto Santos Neto
26 de julho de 2015 2:01 pm“O que será do nosso Estado, o que será de mim quando ele ruir.”
A loucura, a mesquinhez, o ódio racial e de classe impera e, como se não bastasse, o Brasil, é o país onde se mata mais gente no mundo, mesmo considerando os paises que vivem em guerras e, ainda assim, a sociedade brasileira está cada vez mais dividida e desinteressada nos destinos do país. Só pensamos no nosso próprio umbigo!
EmersonRj
26 de julho de 2015 2:32 pmA presidente Dilma poderá
A presidente Dilma poderá dispor de uma excelente oportunidade em breve, de sepultar a mídia golpista com um único golpe: só aguardar este movimento de impeachment ir por água abaixo, cortar toda verba de publicidade que a mídia recebe (só dizer que é em nome do sacrifício que ela tem de fazer frente a crise econômica; aqui já não importará se a Globo e outros vão cair de pau), também cobrar a dívida da mídia com a União (podem espernear à vontade) e aproveitar e trazer a concorrência (Rupert Murdoch) com o compromisso de divulgar obras do Governo Federal. É igual jogar água na fogueira.
naldo
26 de julho de 2015 3:25 pmSe o governo cobrasse o que
Se o governo cobrasse o que devem para a União teria muita jornalista de nariz empinado e que gosta de apontar o dedo fazendo suas entrevistas no meio da rua.
Rosani Madeira
26 de julho de 2015 3:55 pmA idéia é boa, mas tem que
A idéia é boa, mas tem que ser para todos os veículos de comunicação – como CartaCapital e afins. Tenha certeza de que a Carta, contando com gente da qualidade de um Beluzzo, conseguiria substituir o dinheiro vindo de propaganda governamental.
Ivanisa Teitelroit Martins
26 de julho de 2015 3:16 pmTexto extremamente sensível
Uma leitura onírico-literária da situação de “desconforto” que vem sendo construída pela narrativa de um desmonte institucional que inunda o imaginário de cada um de nós. Deixemos passar os fantasmas… logo estes se afastam, são espectros de restos recalcados que constituem o sujeito do inconsciente. Melhor fazer uma leitura onírico-literária da qualidade da que foi proposta para suportar a incidência da indecidibilidade que se instalou nas estruturas de poder e que nos afeta. ( desculpem a linguagem psicanalítica).
Alexandre Weber - Santos -SP
26 de julho de 2015 3:51 pmÉ preciso cuidado com o que se deseja
Muito do que acontece é porque pedimos, está no Tao, ter demasiados desejos trás mais problemas do que ser invejoso.
O texto do Poe é sensacional e a metáfora da casa caindo perfeita. O fogo do Reichstag foi até mais rápido.
Eduardo Ramos
26 de julho de 2015 4:02 pmBelo artigo!!!!
Belo artigo!!!!
Carlos Dias
26 de julho de 2015 8:19 pmSou fã de Poe e este é um dos contos que mais me impressiona
Só que eu penso que há poucas similaridades com o “edificio” do estado…
O que mais me parece análogo é a queda da Mídia, essa é a Madeleine Usher, quase morta, adoentada, atormentada ferida, apegada ao passado, arrasta para o túmulo seu irmão Rodrick (Rocha) numa agonia final. Assim é nossa mídia, quer arrastar para o túmulo o país inteiro.. desabando sobre uma lamacento lago escuro, uma vez que sua morte é eminente , dolorosa e inevitável. A casa de Cívita e a Veja, são quem realmente agoniza.
Fábio de Oliveira Ribeiro
26 de julho de 2015 9:58 pmSua abordagem também é
Sua abordagem também é válida. E em nada invalida a minha. De fato as duas interpretações podem ser consideradas complementares.