4 de junho de 2026

Minhas histórias com João Sayad, um homem do bem

Falecido ontem, João Sayad foi um homem público do bem, um homem sem ódio e sem radicalização, que transitava com naturalidade pela centro-esquerda paulistana

Falecido ontem, João Sayad foi um homem público do bem, um homem sem ódio e sem radicalização, que transitava com naturalidade pela centro-esquerda paulistana.

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Conheci Sayad no início dos anos 80, assim que entrei no Jornal da Tarde como pauteiro e chefe de reportagem de Economia. Após alguns meses, Alberto Morelli, assessor de Abílio Diniz, me telefonou convidando para um almoço com ele.

Almoçamos no Cá D´oro, hotel da rua Augusta que tinha um belo restaurante. No almoço, Abílio me falou de sua vontade de patrocinar um Seminário Internacional de Economia. A ditadura começava a fazer água e havia uma discussão sobre os novos tempos. Disse-lhe que era apenas chefe de reportagem de Economia, que o convite deveria ser feito para os donos do jornal.

Abílio disse que gostava de meus artigos, não conhecia os Mesquita e me autorizou a levar a proposta para o JT, com a garantia de patrocínio da parte do Pão de Açúcar.

Por trás disso, a intenção de Abílio de assumir um protagonismo maior na economia. Com a assessoria de Luiz Carlos Bresser Pereira, montara uma bela equipe de economistas no Pão de Açúcar, todos oriundas da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas.

Voltei para o jornal, conversei com Ruyzito Mesquita, o representante da família na redação. Nos dias seguintes preparei um projeto de seminário. A intenção seria, pela primeira vez, frente a frente, os economistas do governo e os economistas de oposição, juntando Mário Henrique Simonsen e Celso Furtado.

Propunha, também, seis meses de preparativos. Nesse período, em todo sábado haveria a última página do caderno de Variedades do Jornal discutindo grandes temas nacionais. Ruyzito apresentou o projeto para a direção. Minha única condição era um reforço no meu salário durante os 6 meses. Aceitou.

Por conta disso, quando recebi um convite do Departamento de Estados dos Estados Unidos, para uma visita de um mês ao país, tirei a última semana para levar minha esposa.

Antes de viajar, fiquei sabendo por Ruyzito que a coordenação do projeto havia sido passada para José Eduardo Faria, advogado e editorialista do JT. Na volta da viagem, na primeira reunião de pauta cobrei de Ruyzito o pagamento do adicional de salário, já que a viagem havia consumido minhas reservas. Ouvi dele que o projeto havia sido cancelado, pela avaliação da impossibilidade de ser tocado. Pedi-lhe, então, autorização para tentar ressuscitar o projeto.

Fui até o Instituto de Economia Roberto Simonsen, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, e propus a parceria para o diretor. Aceitou. Conversei com Abílio, que reiterou a proposta de patrocínio. Voltei ao jornal, entreguei o novo projeto ao Ruyzito. No dia seguinte, ele me informou que a casa havia decidido transferir a coordenação ao economista Sayad.

Era uma boa escolha. Sayad era professor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP e se notabilizara como presidente da ANPEC (Associação Nacional dos Pesquisadores  de Economia).

Já tinha tido algum contato com Sayad no evento da ANPEC em Recife. Não chegamos a manter outros contatos. Mas quando Tancredo foi eleito, indicou-o para Ministro do Planejamento.. E ele me convidou para ir com ele a Brasília, como assessor de imprensa. Recusei e o convidado foi Carlos Alberto Sardenberg.

Sayad participou do Cruzado, mas lateralmente. Todo o protagonismo era do Ministro da Fazenda, Dílson Funaro, e sua posição messiânica. Quando o Plano começou a fazer água, Funaro relutou em tomar medidas amargas, com receio de macular sua imagem,

Escrevi, então, um artigo em minha coluna de domingo na Folha, o Dinheiro Vivo, dizendo que havia a necessidade de um Cruzado 2, mas tocado por um Funaro 2, mas corajoso e desprendido. E mencionava o nome de Sayad.

No domingo de manhã sou acordado por minha filha, Mariana, dizendo que havia alguém no telefone querendo falar comigo. Não lhe disse que estava dormindo? Disse, explicou ela, mas ele está muito bravo.

Atendi o telefone e era Funaro:

  • Nassif, como você diz que não tenho coragem? E a maneira que estou enfrentando a minha doença?

Respondi-lhe com dureza que me referia à coragem de tomar medidas impopulares. E aproveitei para lhe puxar a orelha:

  • Quem é você para me ligar com cobranças, depois de ter entregue a Saulo Ramos uma carta para o processo que ele me move?

De fato, algum tempo antes Funaro aceitara escrever o prefácio para meu livro sobre o Cruzado. No meio do caminho, denunciei manobras de Saulo Ramos, o influente Consultor Geral da República de Sarney. Saulo resolveu me processar e conseguiu uma carta de aval de Funaro e dos economistas do Cruzado – até dos que tinham sido minhas fontes no episódio. Exceção dada a Sayad e Luiz Gonzaga Belluzzo, que foram de uma lealdade irrepreensível.

Funaro mostrou-se surpreso:

  • Achei que Saulo tinha desistido do processo. Amanhã mesmo resolvo isso com ele.

Fiz pouco caso:

  • Duvido.

De fato, sabia da enorme influência de Saulo sobre Sarney e de sua gana em me pegar.

O processo continuou, Funaro se queimou com a opinião pública devido ao fracasso do Cruzado, a doença piorou. Mas, àquela altura, o sonho do Cruzado tinha se desfeito e os Ministros saíram.

Sayad dedicou-se, então, a montar seus próprios negócios. Associou-se com Felipe Reichstull e Francisco Luna em operações de compra de dívida vencidas de estatais. As operações foram facilitadas pelo fato das estatais serem subordinadas ao Ministério do Planejamento. Portanto, há havia relações de conhecimento.

Mais tarde, o então Ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega levou adiante talvez o mais escandaloso processo de enriquecimento rápido da história, ao autorizar a conversão de dívida externa em cruzados. Na época o país já estava em moratória e os passivos externos eram negociados com enormes deságios no mercado internacional.

Houve uma corrida de bancos credores à porta aberta por Maílson. Poderiam se habilitar pessoas autorizadas pelo BC. E foram autorizadas os amigos da casa. Foi por essa porta que Fernão Bracher se associou ao austríaco Credinstalt e fundou o BBA. E a SRF se associou ao Morgan.

Ao contrário de Bracher, Sayad não tinha experiência bancária e acabou se enrolando na gestão do banco.

Depois, voltou à vida pública como Secretário das Finanças de Martha, na Prefeitura de São Paulo, tendo como principal assessor o jovem Fernando Haddad. Mais tarde, foi Secretário da Cultura no governo José Serra. Longe de representar oportunismo político, essas idas e vindas de Sayad demonstravam sua principal virtude: seriedade, lealdade e espírito conciliatório, transitando com naturalidade pelo que era, na época, a centro-esquerda paulista. E bastante auxiliado, nessa tarefa conciliadora, pela parceria com sua nova esposa, Cosette Alves, herdeira do Mappin e, assim como ele, figura conciliadora.

Continuamos mantendo contato. Assim que assumiu a Secretaria da Cultura de Serra, marcou um almoço. Nele, pediu algumas dicas para a presidência da Fundação Anchieta e conselhos na minha área de especialidade – o choro. Tinha uma proposta da Escola Portátil de Música, do Rio de Janeiro, e queria saber mais sobre seu trabalho. Afiancei-lhe sobre a seriedade do projeto. Na época, acabou se decidindo pelo jornalista Paulo Markun para a presidência da Fundação.

Mais tarde, quando Serra iniciou seu profundo processo de radicalização, critiquei gastos da Sabesp com publicidade no Nordeste e Markun ordenou o rompimento de meu contrato.

Sayad me ligou chateado. Não fora consultado e a decisão de Markun visava apenas satisfazer a Serra. Como Serra sairia do governo para se candidatar a presidente, aspirava uma recondução ao cargo de presidente da Fundação, antes da sua saída. Como Sayad era um candidato natural, Markun decidiu se antecipar e mostrar serviço a Serra. Sayad tentou reverter a decisão mas, àquela altura, a mão pesada de Serra avalizou a decisão de Markun.

Depois disso, cruzamos poucas vezes. Algum tempo depois, Sayadfoi acometido pelo câncer, refugiou-se no interior e sumiu da vida pública.

Deixa um legado de admiradores, especialmente por seu espirito democrático, conciliador, uma pessoa do bem.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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