5 de junho de 2026

A lógica inacreditável do Estadão e de seus templários anti-Lula, por Luis Nassif

Quanto mais fraco o Executivo, mais concessões serão feitas ao Congresso. Pelo critério dos ilustres pesquisadores, o presidente que mais se aproximou das preferências do Congresso foi Bolsonaro, que terceirizou o orçamento, deu tudo o que o Congresso exigiu.

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Que o Estadão tem ideia fixa em relação a Lula, não se discute. É uma convicção tão arraigada quanto seu respeito pela Revolução Constitucionalista.

Prova dessa fixação é a chamada da pesquisa eleitoral da Confederação Nacional dos Transportes. A pesquisa permitiria inúmeras chamadas, tipo:

1. Lula mantém a liderança no 1o e 2o turno.

2. Bolsonaro se recupera levemente.

3. Ciro Gomes passa Sérgio Moro.

4. 65% dos eleitores não votariam em Doria em nenhuma hipótese.

Qual a chamada escolhida?:

“Bolsonaro tem 40% contra 30% de Lula entre os evangélicos”

Daí, nenhuma surpresa o editorial principal de hoje:

“O mito do grande articulador”, com o intertítulo “Lula se apresenta como exímio negociador, mas evidências mostram que a governabilidade lulopetista foi altamente custosa e pouco efetiva”.

O editorial se baseia em artigo de ontem, de Carlos Pereira, tendo por base estudos dele, de  Marcus Mello e Frederico Bertholini, militantes midiáticos do antilulismo.

O tema é interessantíssimo. Desde que Fernando Henrique Cardoso desenvolveu o chamado “presidencialismo de coalisão”, faltam estudos isentos analisando seu custo.

Está certo que um artigo de jornal não tem a abrangência da tese completa. Mas espera-se que sintetize os pontos centrais da tese, ainda mais se são do mesmo autor.

No primeiro parágrafo, percebe-se a métrica utilizada: 

“Trata-se de uma falácia, por dois motivos: primeiro porque Lula não tem agora, como não teve no passado, grandes reformas a propor – ao contrário, ele já avisou que não as promoverá. Depois, porque os dados desmentem o mito do grande articulador”.

Ou seja, bom administrador é o que cede ao mito das “reformas”.

No governo Lula surgiram o Prouni, a expansão os institutos federais, as políticas de financiamento dos pequenos produtores, regras para preferências às Pequenas e Micro Empresas nas compras públicas, as obras de água para o Nordeste, o programa Luz para Todos, uma soma de políticas que, pela primeira vez, reduziu as desigualdades e tirou o Brasil do Mapa da Fome. Além de dar passos relevantes para tratar a previdência dos funcionários públicos.

Mas os autores sentenciaram que Lula não tinha grandes reformas a propor – e não se fala mais nisso, para não comprometer o argumento central ao artigo. É o velho estratagema do “suponhamos”. “Suponhamos que” qualquer coisa e, em cima disso, formulamos teses que só cabem na formulação que criamos.

A segunda métrica define que a efetividade das gestões presidenciais depende de :

  • congruência ideológica;
  • grau de poder;
  • recursos compartilhados com aliados.

Em cima desses critérios, o trabalho chega a resultados fantásticos.

Compara gastos orçamentários e execução de emendas parlamentares entre FHC e Lula, sem considerar o estado da economia nos dois períodos: com FHC, uma média de crescimento do PIB claramente inferior ao período Lula. Há uma regrinha simples: em circunstâncias normais mais dinheiro no orçamento permite mais emendas, e vice-versa.

Outra métrica é o cálculo dos destinatários dos recursos. Segundo o trabalho, FHC destinou 70% dos recursos aos aliados e Lula apenas 30%. Se a destinação dos recursos é custo de governabilidade e FHC gastou, em termos percentuais, mais que o dobro de Lula, como tratar a coalizão de Lula como mais custosa? 

Outra conclusão fantástica foi a de que a coalizão de Lula foi “mais distante das preferências do Congresso” do que, por exemplo, as de Michel Temer. Ora, há um conflito permanente entre as preferências do Congresso e do Executivo. Quanto mais fraco o Executivo, mais concessões serão feitas ao Congresso. Pelo critério dos ilustres pesquisadores, o presidente que mais se aproximou das preferências do Congresso foi Bolsonaro, que terceirizou o orçamento, deu tudo o que o Congresso exigiu.

Ora, pode-se criticar Lula por não se aproximar das preferências do Congresso. Mas, raios!, a medida de eficiência das coalizões é a capacidade do governo de preservar as decisões sobre os gastos orçamentários – e não o contrário. FHC ceder às preferências do Congresso, Temer ser  o próprio Congresso no poder, Bolsonaro terceirizar a execução do orçamento, são sinais de fraqueza da coalizão. No entanto, os prezados pesquisadores apresentam como sinal de sucesso.

Libertar-se do paroquialismo das demandas do Congresso, para impor seu próprio programa; gastar apenas 30% das emendas com aliados é, pela métrica inacreditável dos cientistas, sinal de ineficiência política.

É importante a crítica ao presidencialismo de coalizão, a crítica correta a Lula, Dilma, assim como a FHC e Temer.

Mas espera-se um mínimo de racionalidade e de honestidade intelectual.

Nota – o professor Frederico Bertholini esclarece que o editorial do Estadão interpretou de forma incorreta seu trabalho acadêmico., Sua resposta está no link: “Para atacar Lula, Estadão manipula conclusões de trabalho acadêmico

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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14 Comentários
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  1. Marco Contivo

    22 de fevereiro de 2022 8:26 am

    Interessante a citação do programa Luz para Todos. Quando ainda era chamado de Luz no Campo, no governo FHC, já era o maior programa de eletrificação rural em atividade no planeta.

  2. Antonio Uchoa Neto

    22 de fevereiro de 2022 9:01 am

    Eu também estou esperando racionalidade e honestidade intelectual do Estadão.
    A bem da verdade, estou esperando a mesma coisa da Folha, da Globo.
    E também estou esperando Papai Noel.

  3. Eduardo

    22 de fevereiro de 2022 9:02 am

    “espera-se um mínimo de racionalidade e de honestidade intelectual”. Do estadão e de seus escribas ? Talvez deitado porque nem sentado dá pra esperar.

  4. Jose Rinaldo Albino

    22 de fevereiro de 2022 9:32 am

    Ser ANTI-LULA na atual conjuntura é ser PRÓ-BOLSONARO, como aconteceu em 2018, quando elegeram Bolsonaro. Creio que a Mídia Conservadora quer sim a REELEIÇÃO de Bolsonaro – ESTADÃO, GLOBO ETC.

  5. Vladimir

    22 de fevereiro de 2022 11:11 am

    Essa gente está no mesmo caminho do ex-presidente da FIESP que representava as indústrias sem ter um mísero torno.
    O baronato da mídia golpista ficará assim,somente com seu brasão e sem leitores,exceto alguns que,por dever de ofício, precisam ter seu estômago revirado com o retrato pobre daquilo que poderia ser um pilar importante da democracia.

  6. Paulo José Macedo

    22 de fevereiro de 2022 11:20 am

    Uau… Ao menos aqui temos sempre texos bem escritos e lúcidos.

  7. marcio vila

    22 de fevereiro de 2022 11:22 am

    lamentavelmente o jornal deixou de ser um jornal conservador para ser um jornal ante alguma coisa, principalmente os candidatos da centro-esquerda ou esquerda como lula. eu somente comprava o estadão por causa da parte cultura. nem lia a parte de politica que me dava nojo. apos ter se transformado num tabloide deixei de comprá-lo. nessa linha, os mesquitas irão ver seu jornal no mesmo caminha do jornal do brasil, que era relevante e deixou de existit.

  8. ULISSES SIMON DA SILVEIRA

    22 de fevereiro de 2022 12:21 pm

    Segundo Marcos Contivo, foi FHC que criou o programa Luz no Campo! Bom, mas quanto foi realmente investido neste programa por FHC. Assim como o Bolsa Família, Vale Gás e outros programas. Seguindo a métrica do comentarista, quem fez a transposição do São Francisco então foi D. Pedro II que já tinha projeto desde o século XIX.

  9. Geraldo Antunes Bresciane

    22 de fevereiro de 2022 12:43 pm

    O Estadãozinho, hoje com o tamanho mais adequado para forrar as gaiolas, sofre a cada pesquisa que aponta Lula na frente. É uma dor profunda e atávica, que lateja até nos ossos!

    Vai ter muito mais, e, com certeza, vários na linha “Uma escolha muito difícil”.

    Na hora”H”, dirão que o Bozo é um mal menor. E seguirão, tristes, seu périplo rumo à insignificância.

    Simples assim…

  10. ed.

    22 de fevereiro de 2022 3:26 pm

    Esta mídia, bem como boa parte de nossos políticos, justiça e empresários (inclusos os rurais e religiosos), é capaz de preferir um bozo do que um Lula, já que este pode refrear a sanha da exploração e predação da gigantesca riqueza comum deste braZil. Nem mesmo um Ciro interessa ou pode ser considerado como uma 3a. via! Preferem até um inacreditável Moro (como bozo).
    Por mais que Lula seja conciliador (o vendem como polarizador!), qualquer movimento que divida tal historicamente fácil butim com a maioria da população, é visto como perigoso para o insaciável nível de ganância deles, em associação submissa com naturais interesses estrangeiros.
    Arraigado culturalmente por mais de 5 séculos nesta terra, com nome de outrora abundante commodity extraída até quase sua extinção (como de resto hoje), tal seleto “grupo”, ainda com características de senhores hereditários, não desejaria uma anomalia como o capetão, preferindo a “elegância principesca” de um FHC ou as mesóclises abandidadas de um Temer.
    Mas acima de tudo está “sua economia”, dos seculares privilégios, sempre apoiado e conduzido pelos imperialismos de ocasião, como o português colonial, o britânico comercial e o americano econômico-financeiro, com pitadas de negras nuvens militares, conforme o clima.
    O braZil só se tornará nação soberana quando mudarmos ou nos livrarmos desta submedíocre elite (?), cuja maior capacidade é baseada em cartéis e cartórios que lhes assegurem uma vida excepcional e preguiçosa, baseada numa “comissão” de corretagem ou no pagamento de “capatagem” de interesses outros que não os de nossa gente como um todo, cujos movimentos são limitados ao trabalho servil ou à penúria indiferente.
    Os golpes de 1964 e 2016, as tentativas de 1955 e do contragolpe oligárquico de 32 mostram que estão sempre dispostos e a postos para manter esta cultura do “nós é nós, o resto é bosta”.
    Difícil saber se Lula, apesar de sua capacidade de respeitar e manter o diálogo político, conseguirá mudar esta submedíocre e nefasta cultura.
    Eles não querem debater, mas simplesmente impôr seus interesses, pegue bem ou pegue mal…

  11. AMBAR

    22 de fevereiro de 2022 3:54 pm

    O homem que diz o que faz não faz o que diz, porque nem tudo pode ser dito ou feito. Que Lula faça mais do que diz e melhor, como sempre, e que seus detratores tontos e inconformados se percam em ilações bonificadas.
    Os governos Lula e Dilma hão de ser analisados pelos seus bons resultados e nisso, não têm comparação.
    Os arautos do desmonte que se pronunciem enquanto puderem

  12. Antônio

    22 de fevereiro de 2022 5:20 pm

    Muito bem argumentado. O Estadinho vai desaparecer por falta de credibilidade. Já vai tarde!

  13. +almeida

    23 de fevereiro de 2022 10:16 am

    Pela agonia ruidosa dos moribundos, eu penso que o fim de suas existências profissionais está a beira do abismo da insignificância que ansiosamente os aguarda.

  14. Caetano.

    24 de fevereiro de 2022 10:16 am

    Meu comentário foi removido. Democraticamente.

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