5 de junho de 2026

Os ganhos da Folha com o manifesto dos jornalistas, por Luis Nassif

As reportagens da Folha expondo o racismo na Ucrânia são relevantes e não melhoraram em um vintém a imagem de Putin, nem forneceram álibi nenhum à violência russa

Primeiro, um manifesto histórico, assinado por 180 jornalistas da Folha, condenando o espaço aberto pelo jornal para um artigo nazista. Comentou-se que foi fruto da diversidade que passou a campear na redação, quando a questão racial tornou-se um tema editorialmente atraente.

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É só comparar com anos atrás, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a lei das cotas. A condenação das cotas coube ao então senador Demóstenes Torres, tendo como ghost writer o geógrafo Demétrio Magnolli. A cobertura da Folha foi crítica a Demóstenes. O jornal concedeu espaço nobre a Demétrio para que desancasse impiedosamente os dois repórteres que escreveram a matéria, com uma virulência inédita para o tema, a começar do titulo: ”O jornalismo delinquente

AS PESSOAS, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (“DEM corresponsabiliza negros pela escravidão”, Cotidiano, 4/3).

Era 2010, apogeu do jornalismo de ódio, a semeadura dos futuros bolsonarismo e neonazismo que passaram a impregnar a opinião publica brasileira.

Agora, quando foi divulgado o manifesto dos 180, a primeira reação da direção foi o bate-boca, com ameaças implícitas aos signatários. Seguiu-se uma reação negativa, com vários ex-Folha lembrando a maneira como Otávio Frias, pai, reagiu à descompressão política (nas redações) dos anos 80, institucionalizando formas de ouvir a redação, que permitiram antecipar o sentimento da opinião pública, com as diretas.

A direção de redação mudou, então, a política e organizou seminários para ouvir a redação.

Na edição de hoje, brindou seus leitores com informação sonegada por todos os demais veículos de imprensa: a de que a solidariedade dos países vizinhos da Ucrânia, abrigando refugiados de guerra, não contemplava negros, nem agora nem nos grandes êxodos de países africanos. A CNN atribuiu à meritocracia: os ucranianos foram abrigados porque estavam lutando pela independência do seu país. Os demais veículos simplesmente ignoraram. A Folha deu mais de uma reportagem sobre o tema.

As reportagens são relevantes para se entender a pior face do racismo atual – a que atinge populações negras. E não melhoraram em um vintém a imagem de Putin, nem forneceram álibi nenhum à violência russa. Apenas amenizaram esse Fla x Flu horroroso que acomete a mídia nesse tipo de episódio.

Mas comprovaram que, se a mídia pretende renovar a linha editorial e alinhar-se aos novos tempos, o primeiro passo para captar a voz dos leitores é começar a ouvir as vozes da redação.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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  1. CARLOS

    1 de março de 2022 3:20 pm

    A guerra nao se justifica, tampouco a opressão dos mais fortes. Mas atribuir selo de divindade a OTAN e menos ainda a outro grande opressor, os EUA, é hipocrisia demais. Os senhores da guerra são os mesmos. Ou será que barril de petróleo acima de 100 USD, “ajuda” de meio bi de euros para armas para a Ucrânia, inflação, recessão, ações em baixa já sendo adquiridas pelos donos do dinheiro, será que estes eventos não apontam para o mesmo senhor?
    Em jogo de futebol ocorrido na 2a divisão da Turquia um jogador se recusou a usar camisa contra a guerra na Ucrânia lembrando que massacres diários ocorrem no Oriente médio sem esta “corrente de solidariedade”.
    Não sejamos hipócritas, todos com um mínimo de informação ou bom senso, pensam assim.

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