
Enviado por Antonio Ateu
https://www.youtube.com/watch?v=UQwdrR-rkV8 height:394
Da Vice
Por que os policiais federais brasileiros estão se suicidando?
Por Débora Lopes
Em junho do ano passado, um barulho de tiro no terceiro andar do prédio da Superintendência da Polícia Federal do Mato Grosso do Sul preocupou quem ainda estava trabalhando no local. Não era um confronto. O delegado Eduardo Jaworski Lima, de 39 anos, foi encontrado morto em pleno ambiente de trabalho. Diagnosticado com depressão, ele passava por tratamento, mas não estava afastado do cargo. Longe da mulher, também delegada federal, e da filha de dois anos, tirou a própria vida.
Entre março de 2012 e março de 2013, o número de policiais federais que se suicidaram assustou a corporação brasileira: 11 no total. Praticamente um por mês. Nos últimos anos, estudos, pesquisas e levantamentos demonstram que as questões ligadas à saúde psicológica dentro da Polícia Federal são preocupantes. Os sindicatos de diversos Estados do país denunciam o sucateamento da categoria.
Atualmente, estresse, alcoolismo, ansiedade, depressão e síndrome do pânico afetam muitos servidores. Dentre 11 mil policiais (número total da corporação brasileira) entrevistados recentemente, dois mil afirmam tomar algum tipo de medicamento para tratamento psicológico e psiquiátrico, de acordo com a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). O órgão denuncia a precariedade no setor: oficialmente, existem apenas um psiquiatra e cinco psicólogos para atender toda a PF.

Foto: Reprodução/Facebook da Polícia Federal
Agente federal há 18 anos, M.P.* conta que, nos últimos dias, ligou para um amigo também policial federal que estava retornando à função depois de 15 dias de férias. O colega de profissão desabafou que o descanso não foi suficiente: “Estou me entupindo de Rivotril pra ir trabalhar”.
O assunto dos suicídios intrigou a delegada federal Tatiane da Costa Almeida, que levou a questão para fora do país ao defender a tese de mestrado Quero Morrer do Meu Próprio Veneno no Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal. Para dar consistência ao trabalho acadêmico, ela entrevistou policiais federais e desenvolveu um questionário, que, posteriormente, foi aplicado à dois mil alunos da Academia de Polícia.
A ilusão com a rotina da profissão é um dos pontos que provavelmente deprime o policial recém-ingresso na corporação. “Quando estamos na academia, vivemos um mundo cheio de coisas novas. Aprendemos a lutar, a atirar, nos acostumamos com a agitação. Quando você começa a trabalhar, não existe todo esse dinamismo”, frisa. Muitas vezes, o trabalho da PF é burocrático. Para a delegada, o inquérito policial é o maior exemplo de procedimento desprovido de “aventura”.
O curso feito na Academia de Polícia dura cerca de cinco meses e só pode ser realizado em Brasília (Distrito Federal). O desempenho nas aulas implica na aprovação ou não do candidato. O que, segundo a delegada, já é estressante. É nessa primeira etapa que se inicia um dos grandes agravantes da profissão: o isolamento. “Ficamos internados. Só podemos sair aos fins de semana. Todos ficam longe da família e dos amigos.” O próprio site da Academia confirma a informação: “Para que os objetivos pedagógicos sejam alcançados, os alunos estão sujeitos a uma intensa rotina, sob regime de semi-internato, das 7h40 às 19h30, de segunda a sábado”.

Foto: Andre Gustavo Stumpf/ Reprodução/ Facebook da Polícia Federal
A aprovação na PF não facilita a questão da distância, já que as primeiras ações acontecem em lugares inóspitos, como a Região Norte do país e as fronteiras. “Na falta de coisas agitadas pra fazer, o policial acaba ficando deprimido”, diz Tatiane. Para o diretor-adjunto da Fenapef, Flávio Werneck, o isolamento faz parte da profissão e não pode ser visto como motivo principal. A precarização do trabalho parece ser mais grave. “Quando você é mandado pra cidades de fronteira do Brasil, você não recebe apoio nenhum do departamento”, destaca. “Você vai às suas custas, tendo de pagar, inclusive, sua passagem pra ir lá. Você chega à cidade sem suporte pra moradia, hospedagem. Não te explicam o dia a dia do lugar, quais os riscos operacionais que você vai correr enquanto policial federal. E não tem um acompanhamento psicológico e psiquiátrico regular.”
Tornar-se um policial federal pode ser sinônimo de prestígio e estabilidade profissional. Dados da Fenapef informam que o piso salarial de agente, escrivão e papiloscopista (policial especializado em identificação humana) é de R$ 8.702,20. Já o de delegado e perito criminal é de R$ 16.830,85. No ano passado, 600 vagas foram abertas.
Nem sempre os casos de suicídio são divulgados na imprensa. Em nota, a Fenapef diz acreditar que um acontecimento desencadeie o outro, “como se os policiais tomassem coragem para tirar a vida também”. O tema é complexo. A própria assessoria de imprensa da PF se recusou a fornecer o número de policiais que tiraram a própria vida.

Foto: Reprodução/ Facebook da Polícia Federal
De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) em 2012, 53% dos policiais entrevistados responderam que gostariam de se desligar da Polícia Federal. Quando perguntados sobre a existência de programas voltados para o bem-estar ou atenção à saúde do servidor dentro da PF, 88% afirmaram não haver qualquer programa do tipo.
“O número de psicólogos tem diminuído, porque agora a polícia está num sistema integrado de saúde junto com todos os órgãos do Executivo”, explica a delegada Tatiane. “Então, talvez, devemos repensar e colocar mais psicólogos trabalhando diretamente com os policiais.” A terceirização também pode ser um agravante na relação médico-paciente. “O policial é muito isolado, muito desconfiado. Talvez ele tenha dificuldade pra falar com psicólogos que não sejam do quadro da polícia. Seria interessante termos um médico que conheça melhor o dinamismo do nosso órgão.”
Para o agente M.P., a ajuda efetiva dos profissionais de saúde mental deve também ser contestada. “Num ambiente de trabalho muito desgastante, muito corroído, não sei até que ponto o psicólogo pode ajudar.” Para ele, o clima dentro da PF hoje é “beligerante”.
A Fenapef também aborda o assunto, afirmando que “o grande problema é que os agentes federais se submetem a um regime de trabalho militarizado, sem que tenham treinamento militar para isso”. De acordo com a federação, a PF não cumpre com uma portaria da Secretaria de Direitos Humanos, que obriga o órgão a “desenvolver programas de prevenção ao suicídio, disponibilizando atendimento psiquiátrico, núcleos terapêuticos de apoio e divulgação de informações sobre o assunto”.
Quando diagnosticado com transtornos psicológicos ou depressão, um policial federal pode ter sua arma e distintivo tomados pelo departamento. Para Jorge Caldas, presidente do Sindicato Estadual dos Policiais Federais do Mato Grosso do Sul, isso é um desserviço. “Tirar a carteira funcional do servidor e seu armamento pessoal faz com que ele se sinta marginalizado dentro da própria instituição. Ele precisa de tratamento psicológico. É preciso recuperá-lo e trazê-lo de volta para a atividade policial”, afirma.
De acordo com o sindicalista, não é bem o que acontece. “O que o departamento faz é não dar o devido tratamento. Esse servidor fica marginalizado, encostado em sua residência. Cai num nível de depressão e estresse tamanho que acaba recorrendo ao suicídio.”
* Por questões de segurança, o nome do entrevistado foi preservado.
Se você tem algum familiar ou passa por uma situação delicada não fique em silêncio. Peça ajuda, fale com alguém, procure um profissional. Aqui temos algumas possibilidades:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
A instituição é uma das mais sérias do país. Começou em 1962 na cidade de São Paulo e hoje tem 70 postos de atendimento em todo país. Os voluntários se colocam à disposição para ouvir sem julgar ou dar sermão.
Acesse o site: cvv.org.br ou disque 141.
Algumas universidades mantém institutos de pesquisa sobre o tema:
Laboratório de Estudos Sobre a Morte (LEM)
O grupo de pesquisa é relacionado ao Instituto de Psicologia da USP e, além de estudos sobre o tema, presta assistência à comunidade.
Acesse o site: www.ip.usp.br/laboratorios/lem/lem.htm ou ligue (11) 3818-4185, ramais 31 e 33.
Instituto Sedes Sapientiae
Criado em 1978, a entidade tem um trabalho sério de formação de profissionais ligados à saúde mental. Entre os cursos e palestras há também atendimento à pacientes.
Acesse o site:sedes.org.br ou ligue para (11) 3866-2730.
Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic
O instituto ligado a PUC de Sâo Paulo faz atendimentos, avaliações e orientações.
Pedro Penido dos Anjos
6 de maio de 2015 3:41 pmCadê o zé cardozo?
Cadê o zé cardozo?
maria rodrigues
6 de maio de 2015 3:59 pmTenho um PF na família,
Tenho um PF na família, casado com minha sobrinha, que já entrou em depressão, tendo que se afastar das funções pra se tratar. Mas, segundo soube, tratava-se de um problema dele com o superior hierárquico. Penso que fatos assim são frequentes em todas as corporações militares. No caso da PF não se pode dizer ser problema financeiro. É muito mais relacionado a relacionamentos entre colegas e chefes.
Ricardo Jatobá
6 de maio de 2015 6:49 pmTambém tenho um PF na
Também tenho um PF na familia. Os relatos que escuto mencionam o clima “militar” existente, além de despreparo de alguns delegados, riscos desnecessários nas operações, desvio de função (papiloscopistas fazendo trabalho de agente regularmente), perseguições internas, falta de perspectiva profissional, etc.
A categoria luta há muito tempo por melhorias, não só salariais, mas também de condições de trabalho. É preciso que obtenham o apoio da população, pois o trabalho que fazem é essencial.
[email protected]
6 de maio de 2015 4:06 pmA PF era abandona,
Melhorou um pouco no governo Lula, mas foi novamente destruída no governo da Dilma. A nossa corporação de renome não ter dinheiro para gasolina, diárias? É uma p… vergonha, muito mal administrada.
Está longe do sonhado FBI. É cada um por si, como todo órgão federal, cheio de picaretas na administração. Falta profissionalismo, planejamento, visão de presente e futuro. Sequer os policiais, quando lotados em locais de perigo (fronteiras) recebem algum briefing sobre o local, informações, atividade principal, simplesmente porque não existe, e não existe porque ninguém faz, não há inteligência articulada, está tudo somente na cabeça de algumas peças.
Precisamos urgentemente de uma mega reforma da administração, com o fim dos picaretas de segundo escalão, que o PT e partidos aliados estão distribuindo.
JB Costa
6 de maio de 2015 5:00 pmSinceramente, fiquei deveras
Sinceramente, fiquei deveras chocado com essa matéria. Jamais imaginei que uma categoria tão bem avaliada, e até invejada por alguns, enfrentasse problemas de tanta gravidade.
Para nós cidadãos aqui de “fora”, a profissão de agente federal é percebida como de muito glamour e prestígio.Mesmo porque o filtro para seguir nessa carreira é muito restritivo.
Criticamos, eu, inclusive, muitas vezes as ações da Polícia Federal mas sempre na dimensão do macro, ou seja, política. Mas jamais com desmerecimento a seus valorosos quadros, em especial o pessoal da base, os agentes que por esse Brasil afora se expõem a riscos de morte para defender o Brasil, ou seja, todos nós.
Espero que o Ministério da Justiça tome pé da situação e busque maneiras para dar melhores condições de trabalho aos que labutam numa instituição vital para o país.
Alan Souza
6 de maio de 2015 7:10 pmCosta, a PF é um lugar meio insalubre pra se trabalhar
Dentro da PF existem seríssimos embates políticos. Nas carreiras de Delegado e Perito existem 3 grupos: os que são contra o governo, os que são a favor do governo e os neutros. Sinceramente não sei dizer quem é o maior grupo ou quem tem mais força dentro da corporação. Só sei que os 3 trabalham incessantemente uns contra os outros. Conseguir uma boa lotação ou mesmo ser indicado para um cargo de chefia envolve inúmeras variáveis, que sempre tem a ver com o grupo a que o pleiteante se filia e com as amizades que ele tem nos demais grupos.
Os mesmos 3 grupos estão presentes nas carreiras de Agente, Escrivão e Papiloscopista.
Ah, e um dado final a ser considerado: os Agentes e Delegados vivem numa briga eterna, relacionada ao fato do cargo de Delagado ser privativo de bacharel em Direito. Agentes semnpre falam que Delegado é “chefe por concurso” e que isso despreza a experiência dos mais antigos na carreira. Sempre rola estresse quando um Delegado recém-nomeado dos seus 20 e poucos anos é designado pra chefiar uma Unidade que conta com Agentes com 20, 30 anos de serviço…
Ivan Arruda
6 de maio de 2015 5:27 pmCuriosidades
1ª Qual a
Curiosidades
1ª Qual a formação acadêmica predominante nesse um terço de depressivos e potenciais suicidas?
2ª Se há relação de causa e efeito na longa e espinhosa caminhada – para alguns – na subida dos 33 degraus da carreira onde devem não enxergar o que fazem os seus outros companheiros?
3ª A origem desses agentes, se mais da capital ou região de SP ou de outros estados, se provenientes das grandes cidades ou não, se podem ser considerados piás de prédio ou algo assemelhado?
4ª Se atinge mais o sexo masculino ou feminino?
5ª Possuem vícios? Como a branca pura por ex, que não os habilitariam a operações ligadas à cachaça?
Se alguém souber, favor informar.
Alan Souza
6 de maio de 2015 7:01 pmSó uma info
A estrutura de carreira dos agentes e delegados tem apenas 4 níveis, e não 33. Passar de um para outro nível requer além de um certo tempo de serviço um curso, que é bastante pesado, com provas tanto téoricas quanto práticas, além de aptidão física.
Uma amiga minha que é delegada inclusive relatou que num desses cursos em uma das provas práticas teve que desmontar e remontar uma submetralhadora HK MP5K, com tempo cronometrado…
danipc
6 de maio de 2015 7:10 pmQuanta bobagem esteriotipada
Quanta bobagem esteriotipada e preconceituosa em um único comentário.
Athos
6 de maio de 2015 5:38 pmA PF acabou quando Lula a
A PF acabou quando Lula a desmontou para salvar Daniel Dantas em um acordo Republicano.
Ali, nesta data, os suicídios aumentaram.
Não tem problema emt er trabalho chato e sem ação. O problema do trabalho chato e sem ação começa quando vc faz esse trabalho, sem chefe, sem cobrança e principalmente sem objetivos claros e definidos.
Como a PF não tem chefe, todos fazem o que querem. E daí vem um sentimento de inutilidade total que é compartilhado por todos, TODOS!
O Governo deveria dizer para a PF que quem manda nessa PORRA é o executivo. E que não vai fazer o recomendado por peritos, delegados ou papilocaray. Vai fazer o que eu quero e na hora que eu quero porque esta é a polícia que quero.
Onde todos mandam, a verdade é que ninguém manda. Escolher vencedor…foi outro erro do PT. Mais uma negociação republicana do PT…. mais um fiasco!
Até agora a única bola dentro foi Odebrecht!
MarFig
6 de maio de 2015 5:46 pmQual foi o acordo pra salvar
Qual foi o acordo pra salvar o Dantas? Tô boiando.
DanielQuireza
6 de maio de 2015 7:36 pmUai, tirou o Lacerda, foram
Uai, tirou o Lacerda, foram para cima do Protógenes e fizeram a fusão das teles.
Ricardo Gonçalves
6 de maio de 2015 8:05 pmSatiagraha
Satiagraha
MV
6 de maio de 2015 5:43 pmDe fato é uma assunto muito
De fato é uma assunto muito sério e a pesquisa da UnB foi em 2012. Seria interessante ter mais dados desta pesquisa. Há questionários de aferição de qualidade de vida, já validados para várias doenças, não sei neste caso.
Porém, mesmo em hospitais universitários, os programas de apoio psicológico a médicos residentes (que vivem sob muto estresse também) é muito precário, imagine em outras profissões…
DanielQuireza
6 de maio de 2015 7:32 pmE as policias civis e
E as policias civis e militares dos estados, que ganham muito menos e em condições muito piores, como é que fica ?
Cesar Ferreira
7 de maio de 2015 12:16 amPoliciais x Professores
Qual categoria profissional não tem stress com hierarquia, chefes, clientes, etc?
Para encurtar… Assuma o absurdo de existir uma lei condicionando à profissão de professor a obrigatoriedade de possuir uma arma; o que acham que aconteceria com as estatísticas de suicídio nessa classe profissional?
Ou seja, pra quê falar sobre o óbvio se é mais interessante fazer uma pesquisa?!
FF2008
7 de maio de 2015 1:31 amMelhoria salarial e distância do local de origem
Com a melhoria salarial pessoas sem afinidade profissional com a polícia, mas preparado para passar no concurso quer fazer a prova pa PF. Acham que irão fazer prova para a fronteira Norte ficar 15 dias e voltar para o Leblon contar suas experiências. Descobre que será difícil voltar em menos de 5 anos, tem que encarar bandido de frente (não esta no FBI), tem que preencher processo e não poderá assistir a todos os jogos no Maracanã. Entra em depressão mesmo. Óbvio que não é problema exclusivo da PF, pois acontece em todos os cargos que remuneram melhor como Receita Federal, TCU, Fiscal do Trabalho, CGU, até PFN e MPF. No mais há a falta de reconhecimento do valor da remuneração que recebem, acham que ganham pouco pelo que produzem. Isto é acontece porque não há uma cláusula de barreira que seria de extrema importância: todos com interesse em servidores deveriam trabalhar na iniciativa privada antes para conhecer e ter contato com a vida fora do mundinho do serviço público. Isto deveria valer para juízes, MP e MPF.