21 de maio de 2026

Como a Ecovias montou sua jogada com Doria e delatou Alckmin, por Luis Nassif

Doria deu o que as concessionárias queriam. As concessionárias incluíram nas contrapartidas o pescoço de Alckmin, que resistiu às jogadas

No dia 21 de março passado, no artigo “O que está por trás da delação da Ecovias sobre as concessões paulistas”, cantei a jogada. A suposta delação do executivo da Ecovias, em relação às acusações de propina a políticos, escondia uma esperteza.

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Era uma delação original. Nela, o delator Marcelino Rafart Seras admite propinas, mas não revela a contrapartida.

Conduzidas pelo procurador estadual José Carlos Blat, o único governador visado foi Geraldo Alckmin. Na ocasião, apresentei a seguinte hipótese:

A lógica da delação

A principal jogada das concessionárias consistia em negociar obras com parlamentares. Os deputados entravam com pedidos para sua região, a concessionária realizava a obra, em geral com pouco controle de custo. Depois, conseguia aditivos para prorrogar os contratos de concessão.

A jogada, portanto, eram os aditivos prorrogando a concessão.

Quando ocorreram as primeiras denúncias sobre seus esquemas de propinas, havia duas preocupações imediatas das concessionárias.

A primeira, a revelação da jogada dos aditivos, que poderia atrapalhar novas tentativas de prorrogação. Alckmin tentou brecar os aditivos e o caso foi parar na Justiça, com algumas sentenças a favor e outras contra as concessionárias.

A segunda, a possibilidade de, condenadas, serem inabilitadas para novas concorrências O caminho planejado, então, foi uma delação premiada que não revelasse o motivo das propinas, permitisse pagar uma indenização, mas colocar-se a salvo dos processos, permitindo preservar o jogo dos aditivos e impedindo a ameaça de inabilitação para novas concorrências.

Inicialmente, a CCR tentou uma delação com o Ministério Público Federal. Ofereceu algo similar à Odebrecht: uma delação coletiva de seus executivos. O MPF recusou, por identificar nela uma delação comprada: cada executivo teria direito a cinco anos de remuneração.

A bola passou então para a Ecovias. O escolhido foi o executivo Marcelino Rafart Seras, do Paraná, com algum conhecimento sobre os métodos da Lava Jato

A Ecovias voltou-se, então, para o MPE-SP, através do procurador Blat, que tentou ressuscitar o caso alegando ter provas novas.

Ainda não está clara a motivação do empresário, se incluiu o nome de Alckmin por vingança, por indução do procurador, ou se houve acertos na última gestão dele. Mas está clara a intenção de ressuscitar uma delação arquivada que, em vez de ser contra, é a favor do delator.

Os resultados

A jogada óbvia se concretizou rapidamente, para permitir a João Dória Jr fechar o acordo.

Pouco antes de sair, o governo Doria prorrogou os contratos de concessão por 11 anos.

Segundo a Veja,

O prazo foi calculado com base nas contas da Artesp que tem promovido reajustes por desequilíbrio econômico nas rodovias de 9.500%, mas sem explicar as premissas das contas. A prorrogação fez parte de de um acordo firmado com a empresa e o governo em meados do ano passado˜. 

Tudo isso foi possível porque conforme antecipamos, a aceitação da delação limpou o caminho.. Dória deu o que as concessionárias queriam. E as concessionárias incluíram nas contrapartidas o pescoço de Geraldo Alckmin, o governador que resistiu à jogada..

Trata-se de mais uma página polêmica na história do MInistério Público Estadual Paulista. Uma coisa é o papel de um promotor. Outra é do próprio Conselho do MPE, que avalizou a operação.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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4 Comentários
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  1. AMBAR

    5 de abril de 2022 6:33 pm

    Esse promotor blat, está sempre envolvido em tudo o que não presta.
    Tem ódio ao PT e a tudo que seja decente. Deve ganhar algum conceito dentro de seu habitat além de medalhas e honrarias duvidosas para cometer indignidades.

  2. ze sergio/sorocabanoburaco

    5 de abril de 2022 6:48 pm

    As Delações das Privatarias das Estradas Paulistas atingiram desde Mario Covas, passando por Geraldo Alckmin, José Serra, Goldman, Aloisio Nunes Ferreira, João Dória. Ver a Imprensa tentando diminuir a responsabilidade de Picolé de Chuchu, o tal Santo, é impagável. Mostra o esgoto de onde saiu a Cleptocracia Brasileira defecando ABI e OAB. Subprodutos do Lixo construído nesta farsante e corrupta Redemocracia. A culpa deve ser de Paulo Preto que não assumiu sozinho todos Crimes. Quanta verdade revelada apenas numa Matéria Jornalistica !!! Que momento memorável ver GGN tentando livrar o Criminoso com cara de sonso !!!! Conheceis a Verdade. E a Verdade Vos Libertará.

  3. +almeida

    7 de abril de 2022 2:47 pm

    Se fizerem um estudo sério, imparcial e transparente sobre todas as obras de médio e grande porte realizadas em São Paulo, pelos governos tucanos, nos últimos 24 anos, será possível saber quantas obras receberam os famosos e planejados aditivos, que são usados para prorrogar contratos ou onerar os valores do contrato licitado ou que concederam alguma vantagem para empresas construtoras e, ao contrário, que causaram aumento da despesa pública que por ter sido licitada com os valores já avaliados e reservados, jamais poderiam ser alterados, para mais, principalmente e em razão da questão dos princípios da moral, da ética e da honra. Ações e atos que provocam a traição e exigiam a suspeição de todo o processo que além de prejudicar quase que propositadamente as empresas concorrentes que participaram dos processos licitatórios e aos quais confiaram que seria sério e que seguiriam á risca, todas as normas e regras que ali estavam nominadas e documentadas.
    Casos sérios, graves e que merecerão investigação rígida, pública, transparente e isenta, se ficar prova a má fé.

  4. Cleber

    10 de abril de 2022 1:44 am

    Este promotor, o Blat, junto com o Conserino e Fernando Henrique, são os mesmos da denúncia contra o Lula. Aquela denúncia que virou motivo de chacota contra os promotores. Deram entrevista coletiva, fizeram de tudo para aparecer. Sabe o que é mais triste? Saber que esses caras são membro de um ente institucional e agem por convicções políticas pessoais. Tive aulas com um destes promotores, que tinha um ódio mortal do PT e do Lula. Ele não escondia isto na sala de aula. Esses caras envergonham a instituição, que, diga se de passagem, é cúmplice.

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