O estranho caso do filme Ascensão
Por Léa Maria Aarão Reis
Em meio ao emaranhado de notícias falsas, interpretações capciosas, desonestas ou fortemente agressivas, e da propositada desinformação criada pela mídia ocidental e pelos meios culturais, o caso do filme de produção americana Ascension (Ascensão), que acaba de receber o Oscar de Melhor Documentário deste ano, é um espécime no mínimo insólito.
O filme é de uma jovem diretora e produtora sino- americana, Jessica Kingdon, nascida nos Estados Unidos. Ex-estudante de cinema na Universidade de Colúmbia e de mídia na New School de Nova Iorque a moça já recebeu alguns prêmios pelos curtas-metragens realizados. O Ascension de agora é seu primeiro longa.
Filha de pai americano de origem judia e de mãe chinesa, ambos profissionais, altos funcionários de empresas de fundos de hedge, ela é conhecida. Ana Anla, senior em uma tal Sino-Century, uma China Private Equity Fund.
Durante a hora e 40 minutos do seu filme minimalista e monocórdio, Kingdon promove a propaganda de uma China desenhada e dividida em partes e vivendo às raias da distopia. Quando do lançamento, o doc obteve bastante sucesso nos Estados Unidos, nas plataformas de streaming, e agora já arrefeceu.
A diretora diz ter dividido em três momentos a ascensão econômica do país asiático pretendendo passar pelos ”níveis da estrutura capitalista”: trabalhadores (à frente das fábricas), a classe média (treinando para vender produtos para consumidores) e as elites se divertindo.
Não há qualquer sinal ou menção plástica ao resultado positivo alcançado pelo regime político vigente no gigante asiático que há dez anos iniciou um processo de desenvolver uma economia chinesa rigidamente planificada com a expansão crescente reforçando a criação de uma classe média monumental, espinha dorsal do país, e a diminuição das populações nas duas pontas extremas do cenário; a dos pobres e dos milionários a serem absorvidos pelas classes médias. (A primeira, sim. Com sucesso. Já a segunda…).
Ascension não tem diálogos. A proposta vem com o rigor simbólico das artes plásticas e é enfeitada com luxuosas imagens geométricas obtidas na profusão de sequências em zoom, em super plongés e filmagens aéreas realizadas com drones.
Elas sempre pontuam e insinuam a pequenez do indivíduo diante do gigantismo do estado e se aproveitam de gigantescas aglomerações de indivíduos da população chinesa de cerca de um bilhão e meio de pessoas em vários momentos do cotidiano da potência econômica e tecnológica, e lacrada pelo imperialismo norteamericano como ”o grande inimigo atual a ser combatido”.
“Nos EUA, o crescimento da China foi reconhecido como a representação do Terror Supremo ou seja a prosperidade através do socialismo”, lembra o economista Michael Hudson, autor do recente livro For Junk Economics e de Killing the Host.
De sua parte, candidamente, a jovem diretora Kingdon observa em entrevista concedida à agência Reuters que sua intenção é a de ”criar um espaço para que a audiência experimente as imagens e sons sem fazer julgamentos, mas experimentando e se acomodando ali, ao invés de tentar explicar e categorizar”.
Contra-propaganda lapidar e luxuosamente produzida, não surpreende que o doc procure reforçar a saga de um sonho chinês engolido pelo pesadelo americano do ultracapitalismo embora continue sendo considerado ”uma fantasia para a maioria”, como diz ela.
E neste sentido ele pode ser assistido pelo avesso. Um filme sobre os males e a desumanidade do sistema consumista criado pelo berço do capitalismo e que não deve ser absorvido.
Algumas pequenas sequências caricaturais mostram esse desacerto. Por exemplo: o treinamento de funcionários para se candidatarem ao trabalho em casas de famílias de oligárquicas e o aprendizado da atividade de influenciadores on line.
“Quantos dentes devemos mostrar ao sorrir, na tela, para os clientes”? pergunta o monitor à classe de jovens candidatos a influenciers, a nova casta que joga a partida do ”ou você me influencia eu influencio você”.
A divulgação de Ascensão também avisa, em seus releases, que ele ”abre a cortina do consumismo e aborda a desigualdade econômica na China moderna”. Uma excelente contrapropaganda que, com sucesso, incorporou um Oscar de grande efeito político à sua carreira justo nesse particular momento do descenço da economia americana e do começo histórico de uma nova ordem multipolar capitaneada pela Eurásia.
Kingdon pinçou para o título do seu filme tão contraditório a poesia que o avô escreveu durante o que os historiadores consideram o século da humilhação, antes da ascensão ao poder de Mao Tsé Tung.
“Minha espada em mãos, eu ascendo até a torre”, diz o poema, prenunciando o sonho chinês que é, ”acima de tudo, o sonho do povo”, nas palavras de Xi Jinping.
Ascensão está em exibição no Paramount+ e no NOW.
AMBAR
15 de abril de 2022 7:51 pmPara criticar a China, só sendo chinês. A diretora, judia-americana e chinesa, num pacote só, vê a China da perspectiva americana, com intenções sionistas e idoneidade “chinesa” apenas na genética.
Há inocente mais útil?
Se é que é inocente.
A sétima arte, junto com a hegemonia das comunicações é a mais temível arma do ocidente.
A China é a próxima vítima.