16 de julho de 2026

Valêncio Xavier me telefona do Inferno para conversar fiado, por Sebastião Nunes

Nestes tempos sombrios, em que o governo federal no Brasil se tornou motivo de gozação, recebo a visita de um de nossos maiores humoristas. 

Valêncio Xavier me telefona do Inferno para conversar fiado

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por Sebastião Nunes

Estava eu posto em sossego, quando o telefone tocou. Não um celular, não um trambolho com bina (aquele espião inventado por Jaime Prado Gouvêa e que, na pré-história, identificava os intrometidos), mas um velho, bom e simpático telefone pré-Google e pré-famigerada telefonia celular. Com a preguiça e a irritação que sempre mediou minha relação com o lado de lá, fosse lá aonde fosse esse LÁ, atendi:

– Hello? Salut! Hallo? Alô? – disse eu em algumas das línguas que desconheço, mas faço de conta quê.

– Sebastião?

– Ele.

– Aqui é o Valêncio de Curitiba.

Como se existisse outro Valêncio. Até pode existir, mas fora da minha restrita área de relações humanas.

– Oi, Valêncio! – disse eu com a familiaridade que o cupincha curitibano exigia em nossa primeira conversa entre mundos. – Como tá tu?

– Tô aqui no Inferno, passando uma temporada maravilhosa.

Era a primeira vez que ele me ligava depois que passou para o lado de lá. Não muito tempo depois, claro. Devia ser janeiro de 2009, pois fazia um calorão de rachar.

– Quente aí?

– Nem por isso, guri. Te importa eu te chamar de guri?

– Nem por isso. Me faz sentir um guri. – Encontrou por aí o Rambô? Maciste? Ou o Dante?

– Não. Só o Capetão de plantão. Tá mandando um abraço e diz que te espera.

– Tá. Diz pra ele sentar num toco até criar raiz.

CONVERSA VAI, CONVERSA VEM

Para quem não lembra, e isso inclui 99,9% dos brasileiros letrados, que somam 9,99% da população acima dos 6,99 anos, Valêncio foi o mais brilhante, sagaz e certeiro profeta brasileiro do século XX. Tanto que em 1981 deu à luz O Mez da Grippe, engraçadíssimo (para sobreviventes e pósteros) recorte sobre a Gripe Espanhola, certeira antecipação da Covid, que nos apanharia de calça na mão quase a comemorar uma centúria daquele atroz evento. Atroz para os pobres e remediados, lógico; lucrativa para os ricos, óbvio, como nossos tempos não me deixam mentir.

Como se não bastasse, foi ainda o mais inventivo humorista brasiliano do século XX, noves fora Millôr Fernandes.

– Me deixou curioso, cara. Dá pra descrever o Inferno?

– Fácil. Conhece o lado ruim de Paraisópolis, em São Paulo?

– Não.

– E as quebradas podres do Morro do Alemão, no Rio?

– Não.

– Mas que diabo anda fazendo tu que nem conhece teu próprio país?

– Tenho amor à pele.

– Mais do que à literatura?

– Muuuuuuiiitoooo mais!!!

VOLTANDO AO PRATO PRINCIPAL

– Sabia que reeditaram O Mez da Grippe em 2020? – disse eu, na vã tentativa de surpreendê-lo.

– Sei.

– E o que achou?

– Nada. Só uma tentativa de atualizar minhas profecias. Mas ninguém atualiza profecia. Parece mais um pastiche d’O Mez da Grippe original.

– De fato. Quando li da primeira vez, não sei quando, levei um choque terrível. Caí dos cavalos do apocalipse. Subi aos céus e desci ao… ah, desculpe.

– Seja claro, cara. Que que tem falar a palavra Inferno?

– O Capetão pode não gostar. Pensar que tô falando mal dele.

– Qual o quê. Capeta que é capeta não dá bola pra falatórios. Ainda mais vindo de intelectuais fajutos. Perdão.

– De fato. Não passamos de intelectuais fajutos.

– Como todos.

– É. Como quase todos.

– Claro que nem todo intelectual é fajuto. 9,999 ficam fora da fajutice. O diabo (cruzes!!!) dos intelectuais é fazer revolução no papel. Nem guerrilha nem revolução. Fica tudo eternamente titicando, para não dizer obrando, ou seja, cagando réguas.

– Réguas?

– Perdão: cagando regras.

– Certo: obrando regras.

– Titicar é preciso – disse Valêncio. Te espero aqui, quando quiseres.

– Adeus, Valêncio. Boa temporada no Inferno.

**********

“Já fui guia de cego, secretário de aleijado, varredor no mercado. Já cuidei de cachorro, fui enchedor de linguiça, tou cheinho de preguiça… Já fui biscateiro, olheiro de bicheiro, ajudante de lixeiro, fiscal de banheiro, aprendiz de feiticeiro, catador de papel e fritador de pastel.” (Valêncio Xavier)

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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