Complexo Econômico-Industrial da Saúde, uma aposta para o Nordeste
Ao articular a política de desenvolvimento do CEIS às demandas do SUS, o Nordeste afirma a saúde como eixo estratégico para o desenvolvimento do Brasil.
O Nordeste ocupa um lugar decisivo no desenvolvimento brasileiro. Com 57,1 milhões de habitantes, o equivalente a 27,2% da população nacional, e 13,8% do PIB do país, a região expressa, ao mesmo tempo, a persistência das desigualdades regionais e um enorme potencial de transformação. No campo da saúde, esse potencial ganha contornos ainda mais estratégicos. O Nordeste reúne capacidades científicas, produtivas e institucionais que podem sustentar uma nova etapa da reindustrialização brasileira, articulando inovação, produção e acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS).
É nesse ponto que o Complexo Econômico-Industrial da Saúde se afirma como uma estratégia de desenvolvimento que conecta ciência, tecnologia, indústria, serviços e cuidado. Ao orientar parcerias público-privadas, transferência de tecnologia e inovação para as necessidades do SUS, ele fortalece a produção nacional de bens estratégicos e amplia a capacidade do Estado de garantir o direito à saúde.
O Nordeste reúne 33% dos laboratórios públicos nacionais. Entre eles, destacam-se a Hemobrás e o Lafepe, instituições que mostram, na prática, como a produção pública em saúde pode gerar bem-estar, emprego qualificado, dinamismo econômico e soberania sanitária. Ambos atuam em parceria com empresas privadas para produzir medicamentos essenciais, distribuídos gratuitamente pelo SUS, levando qualidade de vida a milhões de brasileiras e brasileiros.
A Hemobrás, localizada na Zona da Mata pernambucana, em Goiana, ocupa uma área que antes era marcada pela monocultura da cana-de-açúcar. Hoje, consolidou-se como a maior planta de hemoderivados da América Latina. A empresa mantém parcerias estratégicas com instituições e empresas internacionais, como o Laboratório Francês de Biotecnologia e a Takeda, voltadas à transferência de tecnologia para a produção de medicamentos hemoderivados e biotecnológicos.
Esse é um exemplo concreto de articulação entre base produtiva nacional e Sistema Único de Saúde. O plasma obtido por meio de doações em 80 hemocentros distribuídos pelo país (número constantemente atualizado a partir da qualificação de novos serviços) é utilizado como insumo na produção de hemoderivados destinados ao tratamento de condições genéticas como a hemofilia, doenças autoimunes, tratamento em UTI e infecções associadas ao HIV. Esses produtos são fornecidos ao SUS e ajudam a elevar a qualidade e a segurança das transfusões e dos tratamentos no sistema público de saúde.
Um dos grandes marcos dessa trajetória é o Projeto Betinho, homenagem ao sociólogo Herbert de Souza. Hemofílico, Betinho foi infectado por HIV e hepatite após transfusões necessárias ao seu tratamento. Sua atuação foi decisiva para a criação de regras mais rígidas de controle, triagem e testagem dos bancos de sangue no Brasil. O projeto – voltado à implantação da fábrica de hemoderivados – mostra, portanto, como uma tragédia sanitária pode se converter em política pública, produção e proteção da vida.
A partir de 2023, a Hemobrás passa a fazer parte do grupo com capacidade de produção em engenharia genética no Nordeste Brasileiro, com a produção do Hemo-8r, medicamento utilizado no tratamento da hemofilia. Essa iniciativa, impulsionada pela Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), é fundamental para alavancar o desenvolvimento regional e aumentar o quadro de pessoal com empregos de maior qualificação e capacidade de irradiar desenvolvimento para a região.
Até abril de 2026, a Hemobrás ofertou ao SUS 2,9 milhões de frascos de medicamentos hemoderivados, produzidos a partir do plasma das doações de sangue humano. Também forneceu 8,5 bilhões de unidades de fator VIII recombinante, medicamento biotecnológico essencial para o tratamento da hemofilia A e que faz do Brasil o único país do mundo a possuir um programa nacional que permite o tratamento profilático às pessoas que possuem essa condição genética. São números que traduzem produção em cuidado, tecnologia em acesso e investimento público em vida.
O Lafepe, por sua vez, é o segundo maior laboratório público do país. Sua trajetória evidencia a força histórica e contemporânea dos laboratórios públicos na sustentação do SUS. Com capacidade para fornecimento de 250 milhões de unidades por ano, atua especialmente em medicamentos para doenças negligenciadas. É o único fabricante de benznidazol, utilizado no tratamento da doença de Chagas, e mantém uma longa experiência em transferência de tecnologia para enfrentar problemas sanitários que atingem populações historicamente invisibilizadas. Além disso, o laboratório fornece ao SUS medicamentos com indicação para doença de Parkinson, diabetes, Esclerose Múltipla e Influenza A e B, além de alguns dos medicamentos utilizados no combate à Aids, reforçando o elo entre a produção nacional e o cuidado com a população brasileira.
A atuação do Lafepe também revela a importância da diversificação produtiva. Em parceria com o iCEIS, que é o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do país, desenvolve soluções voltadas ao público pediátrico, no campo da hanseníase, caracterizando uma inovação de alto impacto sanitário. O laboratório demonstrou elevada capacidade de resposta durante a Covid-19, ao produzir, em curto prazo, cerca de 400 toneladas de álcool em gel, mesmo diante da escassez de insumos. Em outra frente, o projeto DIOTI produz óculos para distribuição gratuita a crianças da rede pública de ensino, mostrando que inovação em saúde também é inclusão.
Já o iCEIS, criado em 2022, opera em colaboração com governo, empresas públicas e privadas, agências de fomento, movimentos sociais e instituições acadêmicas. Sua existência reforça uma mensagem estratégica: o futuro da saúde passa pela integração entre redes científicas, políticas públicas, base produtiva e demandas sociais.
Essas iniciativas indicam um caminho. O Nordeste não deve ser visto apenas como um lugar de carências, mas como um território de soluções. Ali se combinam laboratórios públicos, instituições científicas, serviços de saúde, movimentos sociais e capacidades industriais que podem sustentar uma política de desenvolvimento orientada à vida. Essa é uma mudança de chave decisiva: a saúde deixar de ser tratada como despesa e passar a ser reconhecida como motor de transformação produtiva, tecnológica e social.
Há avanços e desafios: é preciso aprofundar as políticas públicas nacionais, fortalecer a coordenação sistêmica e sustentar uma visão estratégica de longo prazo. Instrumentos como as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) e o Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL) precisam ser robustecidos. São mecanismos centrais para adensar capacidades produtivas e tecnológicas, reduzir dependências externas e ampliar a autonomia do SUS.
Nesse contexto, o CEIS pode ser um vetor central de políticas públicas orientadas às necessidades sociais e à soberania sanitária. Por concepção, integra desenvolvimento regional, sustentabilidade ambiental, ciência, tecnologia e produção. O SUS, nessa perspectiva, é o elemento estruturante dessa política. É a demanda pública que organiza prioridades, cria escala, orienta investimentos e transforma conhecimento em acesso.
A aposta no Complexo Econômico-Industrial da Saúde no Nordeste é, portanto, uma aposta no Brasil. Significa reconhecer que desenvolvimento regional não se faz apenas com políticas compensatórias, mas com capacidade produtiva, inovação e trabalho qualificado. Significa afirmar que a saúde pode reconciliar crescimento econômico, direitos sociais e soberania nacional. Em um país marcado por desigualdades históricas, produzir para o SUS no Nordeste é um projeto nacional.
Carlos Gadelha, ex-presidente do Conselho de Administração da Hemobrás, coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Desenvolvimento Sustentável e CT&I. (CEE/ENSP/Fiocruz).
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