5 de junho de 2026

“Dinheiro nos bancos não é dinheiro dos bancos”, lembra Ladislau Dowbor

Em entrevista exclusiva, economista critica abismo dos juros para o crédito no Brasil e destaca que recursos devem favorecer a comunidade
Ladislau Dowbor, economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP. Foto: dowbor.org

As diferenças entre o sistema econômico liberal ocidental vigente no Brasil e o sistema econômico chinês, com forte presença do Estado, ficam ainda mais evidentes quando se analisa o acesso da população e das empresas a mecanismos de crédito.

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Em entrevista exclusiva à TV GGN 20 horas, o economista e professor Ladislau Dowbor explica que a China, além de possuir um sistema descentralizado de bancos municipais, conta com bancos públicos para atender exclusivamente a agricultura, a infraestrutura e o comércio e a indústria, sendo responsáveis por financiar as grandes estruturas e a melhorar a produtividade.

“Na China, hoje, o crédito para empresas é de 4,6% ao ano para uma inflação de 2% – ou seja, um custo real do dinheiro de 2,6%. No Brasil, os dados da Anefac para empresas, a média é de 54,29% no crédito livre – para as famílias, é de 114%”.

Segundo Dowbor, o elemento-chave desse processo é utilizar o dinheiro para atender às necessidades da comunidade. Outro exemplo ocorre na Alemanha onde, segundo o economista, “o cidadão não coloca seu dinheiro em banco, coloca em caixas de poupança municipais – ou seja, o dinheiro vai servir às necessidades da comunidade”.

“Quando pego a China, que limita as taxas de juros e assegura que as comunidades sejam financiadas, tudo isso significa você tornar o dinheiro produtivo”, diz Dowbor.

“Só lembrando que o dinheiro nos bancos não é dinheiro dos bancos, é dinheiro nosso. Eles (os bancos) receberam uma carta-patente autorizando eles a trabalharem com dinheiro de terceiros. Como é que eles pagam uma merreca quando pela poupança, e quando a gente precisa do dinheiro vão cobrar esses juros?”, questiona o professor da PUC-SP.

Juros a favor do sistema financeiro

O atual governo federal fez com que o Brasil se tornasse muito atraente para as grandes corporações financeiras internacionais, o que não é algo exatamente positivo na visão do economista.

“O banco Santander adora o Brasil – no Santander da Espanha você tem cheque especial com juro baixo, na verdade você pode entrar no cheque especial por seis meses com juro zero até 5 mil euros”, explica o economista em entrevista aos jornalistas Luis Nassif e Marcelo Auler.

“No Brasil, eles (Santander) generosamente me oferecem 12 dias e depois vão me cobrar no rotativo do cartão mais de 300%. Quer dizer: o Brasil, com esse governo, se tornou muito interessante para os grupos internacionais”.

Dowbor ressalta ainda a financeirização do sistema econômico, que extrai grandes quantidades de recursos para grupos financeiros – gerando bilionários mais interessados em aparecer em revistas como Fortune e Forbes do que em fazer algo de fato.

“É um sistema que através de dividendos para acionistas, através dos juros bancários, através dos juros das financeiras, você tem um processo de extração de dinheiro”, diz Dowbor.

Veja mais a respeito do tema na entrevista com o professor Ladislau Dowbor, disponível na íntegra do TV GGN 20 horas. Clique abaixo e confira!

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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4 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    19 de abril de 2022 12:01 pm

    “O banco Santander adora o Brasil – no Santander da Espanha você tem cheque especial com juro baixo, na verdade você pode entrar no cheque especial por seis meses com juro zero até 5 mil euros” (…) “No Brasil, eles (Santander) generosamente me oferecem 12 dias e depois vão me cobrar no rotativo do cartão mais de 300%. Quer dizer: o Brasil, com esse governo, se tornou muito interessante para os grupos internacionais”.

    Mas não é precisamente porque aqui, um paraíso bancário como são, provavelmente, outros países pobres pelo mundo, eles podem ganhar o que quiserem, sob os auspícios de governos nativos tão generosos – aliás, generosidade que sai baratinho para eles – que eles são, por sua vez, tão generosos com seus conterrâneos?

    Atribuía-se uma frase, que não sei se é verdadeira, mas sintetiza bem essa realidade, a um desses megaespeculadores internacionais (Buffett, Soros, não lembro), ao ser indagado qual a melhor coisa do mundo; esperavam que respondesse algo como, “ter uma Ferrari”, “morar em mansões”, “poder viajar o tempo todo”, “possuir iates”, ou coisa do gênero”, e o sujeito respondia candidamente: a melhor coisa do mundo é ser banqueiro no Brasil.

    Dinheiro é coisa de pobre. É o pobre que fica esperando o mês inteiro pelo salário, para vê-lo desaparecer quase que totalmente em poucas horas. Daí, para sobreviver (90% do tempo), e para poder viver alguma coisa da vida (10% do tempo, geralmente via consumo) lá vai o pobre se dependurar em cartões de crédito, empréstimos bancários, o diabo.
    E aí, tome de juros.

    Os juros são a moeda dos ricos. O dinheiro com que eles compram suas ferraris, mansões, viagens, aviões e iates, é o o dinheiro do pobre; seu salário, sua poupança.

    O pobre coloca seu dinheiro na poupança, milhares e milhares de pobres fazem isso, diariamente; o banco aplica esse dinheiro a juros – geralmente em títulos de dívida pública, cujo emitente não quebra nem foge, simplesmente emite mais dinheiro – ganha fortunas, e deposita uma merreca na conta do poupador, e este fica eternamente sem saber que a origem desse depósito é o seu próprio salário, a parte deste que vai para pagamento de impostos e é usado pelo emitente do título público para saldar seus compromissos – com, entre outros, o banco em que sua poupança está depositada! Ou seja, o poupador recebe 0,01 de juros, tendo desembolsado 10, 20, 30 vezes mais, sabe-se lá quanto, para pagar impostos que foram utilizados – uma milésima parte deles – pra lhe remunerar!

    E enquanto o pobre usa seu suado dinheirinho para adquirir seus bens e desfrutar de alguma coisa boa na vida (e que não chegam aos pés dos bens e coisas boas de que os ricos desfrutam), nem imagina que é esse mesmo ‘suado dinheirinho’ que paga os luxos e prazeres dos ricos!

    Há muitos anos, quando o Banco Econômico quebrou, ouvi uma conversa de dois homens, em um ônibus coletivo, comentando o fato de que haviam sido encontrados apenas uma quantia ínfima (não lembro se já estávamos no Real, quando isso aconteceu, mas deveria ser algo como quatro, ou cinco mil reais) nas contas do banqueiro Ângelo Calmon de Sá – uma historinha que circulou, na época, dizia que ele lá havia deixado aquele valor para as ‘despesas miúdas do fim-de-semana’. E os dois cidadãos, indignados, diziam: “Quatro mil! O cara devia ter milhões na conta! Devem ter roubado tudo!”

    E pensei em mim mesmo, vendo filmes policiais americanos, com os ladrões saindo de bancos carregando sacos e sacos de dinheiro! Quanta ingenuidade (nossa)! Quanta esperteza (deles)!

    Dinheiro é coisa de pobre. Dizia o Henry Ford que no dia em que o homem comum descobrisse como funcionam os bancos (o sistema financeiro, propriamente dito), começaria uma revolução no dia seguinte. Não creio. Vão é começar a sentir mais frustração e melancolia, por não terem nascido filhos de banqueiros ou especuladores.

  2. José de Almeida Bispo

    19 de abril de 2022 2:39 pm

    Dinheiro nunca foi de ninguém em particular; mas os banqueiros conseguiram convencer os estadistas de que eles, agiotas, são os donos. Sequestraram o governo pela sua mais clássica forma de exercício suave do poder. Dinheiro continua a ser um mero papel de troca.

  3. José de Almeida Bispo

    19 de abril de 2022 2:51 pm

    Ao ANTÔNIO UCHOA NETO; as mais antigas referências de agiotagem que tenho acerca da História do Brasil é a dos “devotos da prosperidade” calvinistas da Holanda no Nordeste, entre 1630 e 1654. A coisa chegou a tal ponto que o próprio Hendrik Haexcs, último governador, se penitencia por ter cobrado até 42% de juros ao ano. As segundas são dos jesuítas executando judicialmente viúvas e mesmos proprietários varões por dividas. Por juros escorchantes. Como o Opus Dei, por trás de todo florescimento financeiro espanhol atual, a Companhia de Jesus era o braço religioso do Império Espanhol. Nada de novo.

  4. Antonio Uchoa Neto

    19 de abril de 2022 4:19 pm

    Pois é, José de Almeida Bispo, dinheiro continua sendo mero papel de troca, e sendo, como é, dívida, seu emitente nada mais é que um agiota, ou seja, um banqueiro, hoje agrupados sob a alcunha de ‘banco central’, espécie de autoridade benfazeja e indiscutível; não há nada de novo sob o sol. O que me deprime é que os meios de operar essa dívida e auferir seus ganhos – juros, câmbio, preços, títulos, inflação – seguem sendo totalmente desconhecidos pelo homem médio, que deles só conhece os nomes, e, graças a maciça desinformação a que estão submetidos pela mídia hegemônica, pensam ser entidades ou sistemas abstratos, mecânicos e perfeitos, e operados por mãos invisíveis ou magnânimas – cujas idas e vindas são justas, em outras palavras, por serem, exatamente, abstratas, inabordáveis pela razão. Só o invisível é perfeito; e essa máquina de espoliar, o Mercado, é invisível, em parte porque não queremos ver, em parte porque ela só nos mostra sua face agradável, que nos diz que, um dia, também dela desfrutaremos, desde que dela não nos desgarremos.
    Não há fraude no sistema financeiro; o sistema financeiro é, em si, uma fraude.
    E o dinheiro é o seu meio e sua mensagem. E o fetiche da massa.

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