4 de junho de 2026

Viajantes, Detetives e Estrangeiros vagam por Hollywood em “Mapas Para as Estrelas”

 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Hollywood tem uma tradição de filmes que mostra a cidade dos sonhos como um inferno de ganância, narcisismo e perversões. A crítica especializada tem considerado “Mapas para as Estrelas” de David Cronenberg como mais um filme com esse viés moralista sobre a indústria do cinema. Porém, ao lado do roteirista Bruce Wagner, Cronenberg foi muito além disso: conseguiu criar uma pequena galeria de personagens que consegue sintetizar os principais arquétipos que dão vida aos nossos sonhos: Viajantes, Detetives e Estrangeiros. E também a fragilidade emocional por trás de profissionais bem pagos para produzir o nosso entretenimento: a busca desesperada por amor, adoração e aceitação incondicional. 

Cronenberg sempre foi fascinado pelas metáforas da invasão do corpo e a fragilidade da carne diante da tecnologia em filmes como Videodrome, ScannersCrash ou eXistenZ. Seus filmes até podem sugerir cenas de horror, mas na verdade o diretor transita entre a comédia, o humor negro e o drama. Cronenberg está menos interessado em sangue, e muito mais na natureza monstruosa das nossas obsessões e desejos, na dificuldade de escaparmos de nós mesmos e como a sociedade cruelmente explora esse ponto fraco humano.

Guerra psíquica (Scanners), o domínio mental da TV (Videodrome) e games digitais mortais (eXistenZ) são algumas amostras dessa temática recorrente de como a sociedade é capaz de criar sistemas que envolvem tanto a carne como a alma. Mapas para as Estrelas é mais um filme desse veio crítico de Cronenberg. E dessa vez é o alvo é Hollywood, tal como descrito pelo roteiro de Bruce Wagner: um inferno de ganância, narcisismo e perversidade sexual.

Mas como Cronemberg vem afirmando nas entrevistas, o diretor não pretendeu fazer mais um filme sobre os podres de Hollywood, já muito bem representado em uma série de filmes – O Jogador (1992), Sunset Boulevard (1950), Barton Fink (1991), A Star is Born (1954), Mulholland Drive (2001) entre muitos. “Não é sobre Hollywood, é um comentário sobre a condição humana que podemos encontrar em qualquer outro lugar”, diz Cronenberg para aqueles que acreditam que o filme é apenas  mais uma crítica a indústria do cinema.

 

De fato, a crítica impiedosa à fauna que habita os bastidores de Hollywood é o ponto de partida de Mapas para as Estrelas. Mas Cronenberg conseguiu algo mais: fez um conto atemporal sobre os arquétipos da condição humana atual a partir de três tipos de personagens que a indústria do entretenimento irradia para todo o mundo – Viajantes, Detetives e Estrangeiros – sobre esses personagens arquetípicos clique aqui.

A atmosfera noir e, ao mesmo tempo, com uma luz do sol radiante e sinistra faz lembrar o diretor xará David Lynch, mas também cria esse cenário atemporal onde só assim foi possível para o diretor desenvolver esses três personagens arquetípicos que são um pedaço de cada um de nós. 

Gurus espirituais, atrizes decadentes, duplas personalidades, fantasmas do passado, projeções vingativas formam uma galeria de personagens que, no fundo, são animados por esses três arquétipos da condição humana que são diariamente irradiados para todo o planeta por Hollywood. E o filme de Cronenberg é mais um exemplo disso. Como veremos, dessa maneira Mapas para as Estrelas é também um filme metalinguístico sobre a própria indústria do cinema.

O Filme

Hollywood é uma cidade governada pela fantasia e superstição – e como mostra o filme, as pessoas parecem não perceber a diferença. É um lugar estranhamente obcecado com sua própria história. Grande parte do setor imobiliário é assombrado por memórias de estrelas e escândalos do passado.

O filme abre com Agatha (Mia Wasikowska) chegando a Hollywood como fosse mais uma turista fazendo um tour pela cidade na limusine de Jerome (Robert Pattinson), um dublê de motorista e guia que conta as histórias sobre as casas das celebridades locais. Mas aos poucos percebemos que ela é outra coisa: é o primeiro fantasma do passado – a irmã que foi banida de uma família que retorna em busca de algum tipo de perdão.

Agatha é o arquétipo do Viajante: aquele que vem do nada e parte para lugar nenhum. Traz um mistério do passado (seus rosto e partes do corpo tem marcas de queimaduras) que pode definitivamente mudar a vida de todos. Busca a liberdade final, um estado de suspensão (a morte?) que possa ser a fuga de todos os males.

Julianne Moore é Havana Segrand, uma atriz assombrada pelo medo da decadência e pelo fantasma da sua mãe, atriz mais famosa que morreu jovem em um incêndio. Perpetuamente em busca reconhecimento  e do amor de todos ao redor e sempre à beira de um colapso emocional. Moore cai de cabeça em um personagem insano e sem limites – a atriz até se permite interpretar uma cena defecando no banheiro enquanto discute com sua assistente Agatha.

Havana é o arquétipo do Estrangeiro: tudo parece familiar para ela – os amigos, os empresários, os agentes, a profissão. Mas sente-se como uma estrangeira dentro da sua própria cidade, em um permanente estado de alienação. Faz terapia com um guru de autoajuda (Stafford Weiss – John Cusack), um escritor best-seller que vive da mistura californiana massagem-budismo-freudismo.

Mas Weiss também tem seus fantasmas: é Agatha, sua filha “Viajante” que vem do passado ameaçando estragar o lançamento de seu novo livro com um escândalo. 

Seu outro filho, Beije (Evan Bird), é uma estrela infantil arrogante e detestável. Enquanto faz mais um filme, preocupa-se que outros atores não roubem suas cenas. Sua família é uma perfeita estufa de sociopatia e tentam esconder a chegada da sua irmã Agatha na cidade. Bieje também é perseguido por um fantasma: uma fã falecida.

O arquétipo transversal do Detetive

Paradoxalmente os fantasmas perseguem pessoas que não creem no sobrenatural: são materialistas e apegados demais a suas carreiras para se preocuparem com questões metafísicas. Por isso, os fantasmas criam loucura e paranoia – para todos há um passado que envolveu incesto, abuso sexual ou assassinato. Por isso, o arquétipo do Detetive é transversal na narrativa.

Assim como nos clássicos do cinema noir onde os detetives procuravam resolver mistérios que, inadvertidamente, relacionavam-se com segredos bem guardados do seu próprio passado, também em Mapas para as Estrelas os personagens lidam com problemas que sem saberem vai remeter a passados obscuros.

Cronenberg e o roteirista Bruce Wagner conseguiram resumir no filme os três personagens arquetípicos que representam a constituição da subjetividade contemporânea. Viajantes, Detetives e Estrangeiros estão presentes em cada filme, vídeo clip ou minissérie produzida pela indústria do entretenimento. 

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. ANTONIO ATEU

    4 de abril de 2015 6:12 pm

    Cine Ateu: Mapa Para As Estrelas

    [video:https://vimeo.com/123783422%5D

  2. Marco St.

    4 de abril de 2015 7:20 pm

    Falei desse filme semana

    Falei desse filme semana passada aqui. https://jornalggn.com.br/noticia/a-hollywood-feia-de-david-cronenberg

    Creio que esse filme é um dos melhores exemplos sobre as “pequenas monstruosidades” da nossa sociedade hoje em dia.

    Um filme cheio de significados e que vai direto ao fígado. Assista com moderação.

    Nada poderia ser muito diferente quando o roteirista Bruce Wagner, (que foi amigo do escritor Carlos Castaneda), e autor entre outras, da série “Wild Palms”, de Oliver Stone e do romance “The Chrysantemum Palace”, sobre a vida de três atores, filhos de astros de Hollywood, se reúne com um dos melhores diretores em atividade, David Cronemberg. A sequencia dos últimos filmes feitos por Cronemberg é impressionante: “Mapas”, “Cosmópolis”, “Um Método Perigoso”, “Senhores do Crime” e “Marcas da Violência”.

    Na minha opinião “Senhores do Crime” já é um clássico. Ao retratar a máfia russa em Londres, Cronemberg não fica devendo nada a Copolla e a sua trilogia do “Poderoso Chefão”.  A cena de abertura, (o assassinato na barbearia), e a luta na casa de banho são antológicas. Por incrível que possa parecer, Cronemberg não conseguiu financiamento para produzir a sequencia dessa maravilha. Hollywood realmente virou (ou sempre foi)  uma porcaria.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=dWC-ECjNqxo%5D

  3. Artaud

    4 de abril de 2015 7:49 pm

    Psicos.
    Cronemberg é “um velhinho doce, educado e tímido”, como li uma vez na descrição da mulher de um produtor de Róliude. Hitchcock também era, dizem. Dois psicopatas profissionais gabaritados. Se tem coisa que admiro, são os profissionais gabaritados. Em qualquer área. 

  4. Jair Fonseca

    4 de abril de 2015 8:04 pm

    Comentei sobre isso no post

    Comentei sobre isso no post do Marco: David Cronenberg sempre se salientou por revelar o mal-estar que se entranha num mundo aprentemente “normal”. Em seus primeiros filmes, dos anos 1970, mostra o lado sombrio e monstruoso do tranquilo, limpo e civilizado Canadá, seu país natal. E faz isso friamente, rigorosamente. Veja-se o início de Shivers, seu primeiro longa, que mimetiza a propaganda de imóveis, e o final terrível de Rabid. Pra quem não conhece, seguem, sendo o segundo legendado em espanhol.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=MTBWFZLqnIo%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=nGiCdwwrobM%5D

     

    1. Marco St.

      4 de abril de 2015 8:28 pm

      Exato Jair, classifico o

      Exato Jair, classifico o Cronemberg como um “cineasta sensorial”. Ele não quer explicar, quer provocar sensações em quem assiste seus filmes. A filmografia dele é exuberante e ele continua melhorando.

  5. Tina Silva

    6 de abril de 2015 8:14 pm

    Grande revisão e descrição do

    Grande revisão e descrição do filme. Não é um dos meus favoritos.

Recomendados para você

Recomendados