10 de junho de 2026

Indulto a Daniel Silveira: não é sobre liberdade, é sobre armas, por Hugo Souza

É um erro menosprezar o golpismo bolsofascista e o nível de apoio que este golpismo em franca fermentação pode vir a alcançar.
Jair Bolsonaro em foto de perfil
Foto: Marcos Corrêa/PR

do Come Ananás

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Indulto a Daniel Silveira: não é sobre liberdade, é sobre armas

por Hugo Souza

A mídia corporativa ora se empenha em infinitas considerações, explicações, especulações jurídicas sobre o “indulto da graça” dado por Jair Bolsonaro a Daniel Silveira.

Porém, importa menos saber se o troglodita vai ou não vai amargar uma temporada no xadrez e mais medir o ânimo e a confiança de Bolsonaro para o enfrentamento total, e o indulto dá a medida deles de uma vez por todas. Por mais que há tempos destrua e afronte à vontade, é ilusão supor que Bolsonaro se arrisque anulando atos de outro Poder apenas para manter coeso seu eleitorado cativo, para fazê-lo delirar na expectativa de colher algum dividendo eleitoral.

Nesta linha, convém inverter o bordão dos grupos bolsonaristas-armamentistas: não é sobre liberdade (no caso, a de Silveira), é sobre armas.

Em primeiro lugar, a última ordem do dia “alusiva ao 31 de março” de 1964 confirma uma vez mais que entre generais de exército, almirantes de esquadra e brigadeiros do ar ainda grassa, isto sim, a pretensa justeza de que “os anseios e as aspirações da população” resultem em golpe de Estado, a depender da interpretação que se faz deles pelo Estado-maior verde-oliva, branco-naval e azul-força-aérea.

Assinar a ordem do dia foi o último ato do general Braga Netto como ministro da Defesa. Não porque ele foi demitido depois dela, mas porque o general deixou o cargo para ser candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro.

A propósito disso, Come Ananás publicou no último 31 de março o artigo “O Daniel Silveira candidato a vice e os Silveirinhas das Forças Armadas”.

Em segundo lugar, convém lembrar, ainda que esteja fresquinho, que há poucos dias a Agência Pública mostrou o secretário da Lei Rouanet, de microfone em punho e levando no peito o logotipo do Movimento Pró-Armas, escancarando o que realmente move a proliferação de clubes de tiro país afora: o combate à “criminalidade de Estado”.

Leia-se: o combate armado a qualquer possibilidade de freio à fulminante ascensão armamentista no Brasil, ao mais pálido vislumbre de restauração democrática no país.

Mais este golpista, André Porciúncula, disse o que disse na convenção nacional do Pró-Armas. Mas é o MST que convive com cercos do Ministério Público e da Justiça para enquadrá-lo como “organização criminosa”. O Pró-Armas segue bem à vontade.

No Brasil, já são mais de meio milhão de colecionadores de pistolas e armas de grosso calibre, atiradores esportivos e caçadores de javali e sabe-se lá mais de quê, ou de quem. O grosso dos CACs é de devotos (esta é a palavra) de Jair Bolsonaro, de fanáticos pelo Capitão Caverna, santo padroeiro do ferro, do berro e do pipoco.

A internet está cheia de listas das coisas mais cavernosas que devotos fazem por seus ídolos, ainda mais em transe coletivo, digamos que “sob violenta emoção”. A história também.

É um erro menosprezar o golpismo bolsofascista e o nível de apoio que este golpismo em franca fermentação pode vir a alcançar. Por extensão, é leviandade desconsiderar que as eleições marcadas para outubro estão sob forte ameaça.

Que o “indulto da graça” dado a Daniel Silveira é inconstitucional, até os cartuchos de munição sabem muito bem. Mas o jogo não é mais, e não é de hoje, sobre o livro constitucional, relegado a calço da mesa de tabuleiro.

É sobre o pau na mesa.

The stick is on the table, senhoras e senhores. Quem tem olhos para ver, que veja.

Hugo Souza é jornalista.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. José de Almeida Bispo

    22 de abril de 2022 5:00 pm

    “Tudo o que nos aconteceu, quando vivíamos na Alemanha, foi gradual. Era talvez parte do modo como Hitler geria estes assuntos.Chegou-nos gota a gota, como um anestésico, poder-se-ia dizer. E só quando algo específico que ele fizesse nos atingisse pessoalmente é que nos apercebíamos, de verdade, do que se passava” (Christabel Bielenberg, em depoimento para a BBC, em O Mundo em Guerra, 1º episódio, 41′. Londres, 1975, trigésimo aniversário do fim da Guerra).

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