Bandeira “woke exploitation” da TV Globo não passa da página dois
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Ao vivo, com imagens aéreas, o telejornal local da TV Globo acompanhou a reintegração de posse no Centro de São Paulo: sob a truculência de escudos e armas antimotim da PM, 250 famílias foram despejadas às vésperas do dia mais frio do ano. Em sua maioria, mulheres e crianças negras, pobres. A cobertura foi anódina, sem repercussão nacional, apesar do termômetro do jornalismo da emissora, o dominical Fantástico, ter se convertido em um show de “woke exploitation” e as questões identitárias terem tomado a pauta. A bandeira woke da emissora não passa da página dois: negros, trans, mulheres etc. podem se organizar, protestar e levantar suas bandeiras. Tudo, menos fazer a mesma coisa no campo político da luta de classes por direitos civis e econômicos. No fundo, é uma estratégia de comunicação casada com a de Bolsonaro: empurrar as eleições para a guerra cultural. Mas também, outras pautas da grande mídia não têm passado da página dois: a terceira via e a urgência climática da União Europeia.
Às vésperas da previsão de frio intenso que se aproximava da grande São Paulo, a Polícia Militar “acompanhou” (esse foi o eufemismo utilizado pelo jornalismo corporativo) uma reintegração de posse na Rua Augusta, Centro de São Paulo.
Autorizado pelo STF, cerca de 100 pessoas, 250 famílias, foram desalojadas pelo pedido de reintegração feitos pelos donos do Baixo Augusta Hotel e a Justiça de SP determinou o cumprimento nesta terça-feira. O imóvel estava ocupado pela Frente de Luta por Moradia (FLM) desde o início de abril. Os proprietários alegaram que o local não estava abandonado, mas em reforma e que “funciona um escritório comercial do empreendimento”.
Apesar de tudo estar organizado pelos moradores para saírem pacificamente com seus móveis e pertence pessoais, o “acompanhamento” da PM consistiu em invadir o imóvel com escudos e truculência, empurrando crianças e derrubando idosos – aliás, como mostrado ao vivo em imagens de helicópteros do telejornal da Globo, o “Globocop”.
A maioria dos ocupantes eram mulheres e criança negras e pobres, jogada no dilema de aceitar o acolhimento em albergues da prefeitura, abandonando seus pertences. E ainda sob o risco de integrantes da família serem separados.
O evento, que reflete a tragédia social generalizada do País, mereceu apenas uma cobertura local da emissora. Sem repercussão no telejornalismo da rede. Ao contrário de outros acontecimentos em SP como o drama dos sem-teto enfrentando o frio na cidade e a prisão do Paulo Cupertino, suspeito de matar o ator Rafael Miguel.
A cobertura local seguiu um padrão semiótico que é o modus operandi para eventos como esse: imagens aéreas, bem distante do calor dos acontecimentos; entrevistas com sem-tetos dentro da linguagem dos “personagens exemplares” (jornalismo de personagens), como o caso da gravida socorrida ou da mãe há meses despregada. Em nenhum momento foi ouvida ou mostrada a liderança da FLM, suas reivindicações e histórico dos fatos que antecederam a reintegração de posse. Apenas são ouvidas as autoridades.
Eventos como esse são didáticos, pois revelam até onde vai a suposta consciência social, de gênero, raça etc. que subitamente a TV Globo começou a exibir. Mais precisamente, desde a vitória de Bolsonaro em 2018, como se as Organizações Globo quisessem se descolar de um governo de extrema-direita que tanto deram espaço e relevância – principalmente a sua militância extremista, para engrossar o caldo das manifestações anti-Dilma que culminou com o golpe de 2016.

Se não, vejamos. O programa dominical Fantástico (supostamente o momento culminante e de maior audiência do telejornalismo da emissora) praticamente assumiu uma pauta “woke exploitation” (“woke”, termo político afro-americano para se referir a questões relativas à justiça social, de raça, gênero etc. + “exploitation”: transformar em show voyeurístico as mazelas sociais do “demasiado humano”): injúrias raciais, casos de feminicídios, pautas sobre movimentos negros lutando contra crimes de racismo, grupos feministas protestando contra assédios sexuais em transportes coletivos, discussões sobre os limites entre flerte e assédio etc.
Na verdade, o BBB21 iniciou a fase “militante” da Globo no reality show, na qual a fase anterior, com Pedro Bial (diante de qualquer situação politicamente incorreta o apresentador entrava para diluir o “climão”), foi substituída pela woke exploitation: a busca proposital por “biodiversidade” na “casa mais vigiada do país” para transformar episódios de racismo, intolerância e ódio em entretenimento mórbido e sensacionalista – sobre isso clique aqui.
Desde que o Fantástico encontrou a química perfeita para sua nova fase, por assim dizer, “exploitation”, reunindo uma apresentadora negra (Maju Coutinho) e uma caucasiana (Poliana Abritta), criando o physique du rôle perfeito, a Globo praticamente assumiu uma suposta militância, com textos lidos no teleprompeter repletos do jargão woke: “apropriação cultural”, “potente”, “lugar de fala”, “ordem patriarcal”, “cancelamento”, “vulnerável”, “desigualdade”, “negritude” etc.

Ok! O despertar social e identitário de uma emissora que historicamente foi condenada de racismo em suas telenovelas que exibiam um país branco e platinado – de acordo com a identidade visual da Globo criada pela computação gráfica do designer austríaco Hans Donner. “Nunca é tarde para a emissora se desalienar!”, poderíamos pensar.
Porém, essa súbita tomada de consciência funciona até a página dois. E a cobertura anódina de retomada de posse no Centro de São Paulo foi um flagrante exemplo.
Apesar das imagens (distantes) mostrarem mulheres e crianças negras e pobres desesperadas, tentando negociar com a força policial protegida por uma parede de escudos e armas antimotim, não foram o suficiente para serem ouvidas as mesmas palavras contra racismo estrutural ouvida nas woke exploitation dos domingos no programa Fantástico.
“Retrato da tragédia social brasileira!” Chegou-se a ser ouvido de alguém na reportagem. Mas, então, por que essa tragédia é tão racialmente seletiva entre as suas vítimas? Por que não foi dada a oportunidade da palavra para líderes negros da FLM, enquanto nos domingos acompanhamos os protestos das mais diversas lideranças de ONGs e entidades sociais de causas identitárias?
Quatro teses sobre oportunismo e pragmatismo globais
Por que o violento cerceamento da “potência” negra pela truculência policial não inspirou o libelo woke dos jornalistas da emissora, aparentemente tão conscientes desse problema social nos últimos tempos?
Este humilde blogueiro tem quatro teses que apontam para uma mistura entre pragmatismo político e oportunismo de um grupo hegemônico da grande mídia que de repente começou a adotar palavras de ordem da militância identitária:
(a) A indignação woke global termina na página dois porque para o jornalismo corporativo como um todo não existe crise econômica: o que acompanhamos são flagelados de catástrofes naturais ou políticas externas das quais, infelizmente, o Brasil é vítima: mudanças climáticas, pandemia, guerra na Ucrânia e assim por diante. Portanto, aqueles pobres e, agora, sem-tetos não podem ser objetos de qualquer crítica de natureza econômica ou identitária. São simplesmente vítimas aleatórias de fatalidades bioclimáticas. Vítimas de eventos criados por Deus em seus infinitos desígnios misteriosos para além da compreensão humana.
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