10 de junho de 2026

A violência contra Vera Magalhães precisa ser repudiada, por Carolina Maria Ruy

Assédio sofrido por jornalista é uma oportunidade de se debater os males que a violência gera, e não para que mais violência seja fomentada

Por Carolina Maria Ruy*

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Constrangimento foi o que senti ao ler a enxurrada de comentários e postagens procedentes do campo da esquerda, relativizando ou até legitimando a violência que a jornalista Vera Magalhães sofreu do deputado Douglas Garcia nos bastidores do debate entre candidatos ao governo de São Paulo no dia 13/09/2022.

No meu entender, a justiça não deve valer só para quem pensa como eu penso. Se nos sentimos incomodados por um tipo de jornalismo tendencioso e parcial, isso é outro problema. Um problema que deve ser tratado de forma política e social e não através de selvageria.

Reproduzo aqui, da forma como foram escritas, uma pequena amostragem de frases que li nas redes sociais (escritas por homens e mulheres) sobre o que se passou com Vera Magalhães:

“Só quem tem pena dessa fdp é a esquerda zona sul. Quem cria e alimenta fascistas também é fascista”.

“A Vera só está recebendo de volta o que ela plantou! Simples assim! Aqui se faz, aqui se paga!”.

“Ser atacado por bolsonaristas é uma honra e a vera magalhães não merece isso”.

“Essa daí apanha e não aprende. Não tenho a menor dúvida que ela vai atacar Lula”.

“Que ela se foda e deixe de mimimi. Isso é do jogo político”.

“No fundo esta vaca fascista recebe o que merece ,alimentou o ódio e hoje é vítima do mesmo. Alguma retratação ,pedido de desculpas da vaca ?? não ”.

“Por mim ESSA VAGABUNDA FASCISTA mereceu tudo que aconteceu”.

Por aí vai… Muitos evocam a ideia da “lei do retorno” projetando no caso uma concepção religiosa de pecado e punição.

É tipo uma santa inquisição dos tempos modernos. Um apedrejamento em praça pública. Um prazer pelo ódio. Se isso tudo não é gatilho para a violência, como as que já ocorrem nesta campanha eleitoral, me digam então o que é.

O que está em questão no episódio envolvendo a jornalista é o assédio do deputado Douglas Garcia, incentivado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, que a ofendeu publicamente sem nenhum respeito pelas mulheres, pela liberdade de imprensa, pelo povo e pelo cargo que ocupa.

Esta é uma oportunidade de falarmos sobre os males que violência gera e não para fomentar ainda mais violência. De mostrar solidariedade e não “sororidade” seletiva.

Diz o blog de Dad Squarisi que “Na Grécia antiga, a justiça era representada por Thémis. Antes, a deusa tinha os olhos bem abertos – sinal de pleno domínio da verdade. Nada lhe escapava. Segurava uma espada e uma balança. Com o tempo, ela começou a aparecer com os olhos vendados. Não para significar que justiça é cega, mas para frisar que trata a todos com igualdade”.

Isto mostra que não cabe na palavra “justiça” os ataques que a jornalista Vera Magalhães sofre tanto por parte dos bolsonaristas quanto por parte de quadros e militantes de esquerda.

Não é justo, frente ao episódio em questão, relativizar a violência com base em nosso ressentimento. Assim estamos dando a deixa para que impulsos horríveis e vexaminosos, como as frases que expus acima, venham à tona. Assim estamos dando as mãos ao que há de pior na política: aos aporofóbicos, misóginos, homofóbicos, racistas assediadores bolsonaristas.

Nós que há pouco mais de um mês, no manifesto pela democracia, com grandeza e desprendimento, demos as mãos a representantes de diversos setores da sociedade, inclusive àqueles que apoiaram processos que prejudicaram a esquerda, como o impeachment e a reforma trabalhista, não estamos sendo capazes enxergar e considerar a violência contra jornalista?

Isso só mostra que, para alguns, ser humanista e valorizar a democracia é mera abstração. É apenas um slogan bonito que, todavia, não se realiza na prática.

A esquerda precisa dar exemplo, ter hombridade. Precisamos manifestar veemente repúdio contra a violência bolsonarista sem deixar dúvida sobre de que lado estamos. E fazer um bom uso das ideias de democracia, justiça e solidariedade.

O senso de justiça restrito apenas àqueles com quem há concordância política e ideológica é, na verdade, uma grande hipocrisia.

*Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Leia Também

Quando Vera Magalhães estava no lado escuro da força, por Luis Nassif

Vera Magalhães usou velório de Marisa para criticar Lula e silenciou quando mulheres de esquerda foram atacadas

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rita de Cássia Vianna Gava

    18 de setembro de 2022 12:33 pm

    Ela provoca não no bom sentido é uma provocação sádica e oportunista,Se é para ser justo independente do que i outro pensa…as vezes bolsonaro até acerta.

  2. Marco Paulo

    18 de setembro de 2022 1:43 pm

    Não posso deixar de concordar que a violência sofrida pela jornalista deve ser repudiada, e repudiar também certos comentários no sentido de violência verbal, seja na forma de xingamentos ou qualquer outra. Violência por violência já temos o suficiente no Brasil. Mas a concordância deve parar por aí. Não podemos deixar de marcar e verbalizar a que grupo a jornalista pertence, quais seus credos e de que lado ela sempre esteve. Não a acompanho com afinco, mas o pouco que pude ver, e também ouvir, deixa claro que ela é do mesmo campo que agora a ataca, e é atacada simplesmente porque não faz parte da seita dominante de seu grupo. Seus posicionamentos acríticos acerca da lava jato e seu ídolo Moro, o ódio ao PT de forma pura e simples pelo que ele representa, um jornalismo mais ideológico que profissional, seu apoio ao golpe, seus comentários jocosos sobre a Dilma, a forma com que tratou Manoela, e por aí vai. Isso a põe imediatamente em xeque sobre em que campo ela está: da democracia ou barbárie. A resposta parece óbvia para a maioria. Mas nem por isso devamos apoiar ou incentivar a violência, seja física ou não, afinal ainda não estamos em guerra, apesar de que o grupo da jornalista em questão, ao qual ela pertence, tenha declarado guerra contra o dito comunismo (ou seja lá o que for que quer dizer), incluindo nesse rol vários partidos e personalidades da esquerda e qualquer coisa que não esteja dentro de suas crenças. Sim porque é disso que se trata, de crenças ideológicas e de guerra ao inimigo. Ao incentivar essa guerra, a jornalista sabia onde poderia terminar, sabia das consequências, não se engane. O que ela não sabia é que teria uma seita que a colocaria para fora do centro de poder e a consideraria também um inimigo.

  3. Givaldo Santos

    18 de setembro de 2022 2:05 pm

    Não preciso ofender a Vera Magalhães, mas certamente ela ñ é digna d qqer apreço dos verdadeiros democratas.
    Muitos dos q a defendem hj, se calaram qdo ela ofendeu a memória d Da Marisa e da ex presenta Dilma.

    Essa turma da sororidade seletiva adora transformar algozes em vítima.

  4. evandro condé

    19 de setembro de 2022 8:49 pm

    Simples, a questão não é defender a Vera, mas acusar, denunciar, repudiar o broxominion.

Recomendados para você

Recomendados