4 de junho de 2026

Vera Magalhães e a lógica do escorpião, por Guilherme Scalzilli

Dois anos após sua estreia no Roda Viva, "espantalho político" de jornalista é novamente o ponto favorito na corrida sucessória
Foto: Federico Faccipieri on Unsplash

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por Guilherme Scalzilli*

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Questionada no Twitter a respeito da ausência de Lula no programa Roda Viva (TV Cultura), a âncora Vera Magalhães respondeu, em dois de abril de 2020:

Olha só: ele foi convidado no ano passado, antes da minha gestão. Quis aprovar a bancada. Diante do não, se recolheu. Não vai usar o programa para retomar uma polarização nefasta ao país e que é tudo que o bolsonarismo quer.

Lula não é player da crise de covid-19. É um condenado em prisão domiciliar. Por isso e por ter mais de 60 tem de ficar em isolamento. Emular esse espantalho político é tudo que Bolsonaro quer para cortina de fumaça dos seus erros.

Se afoitos e ingênuos querem ser o sapo da travessia do escorpião, o Roda Viva não será essa jangada. Vamos seguir fazendo jornalismo de serviço e relevância, ouvindo quem tem o que dizer nesse momento grave do país.

Tiremos logo o bode pandêmico da sala. Poucos dos entrevistados pelo Roda Viva naquele ano tinham ligação profissional com áreas relacionadas à Covid. Menos da metade ocupava cargo público de qualquer natureza. A lista incluiu Ciro Gomes, Simone Tebet e João Santana (!), prestando serviço mais ao sonho da “terceira via” eleitoral do que ao contribuinte.

A estreia de Magalhães no programa ocorrera três meses antes das mensagens acima, tendo Sérgio Moro como convidado. Os anfitriões formaram uma bancada amistosa para recebê-lo. Esnobaram Glenn Greenwald, cujas reportagens haviam originado o então recente escândalo da “Vaza Jato”, que já anunciava uma reviravolta no cenário político nacional.

Alguém com a índole autocrática e vaidosa de Moro não participaria do Roda Viva, naquele contexto, sem vetar nomes. A direção jornalística da emissora (já a cargo de Leão Serva) antecipou-se e tornou o veto desnecessário. Livrou de constrangimentos o artífice do golpe judicial que permitira a ascensão do fascismo ao poder. Um ministro do governo Bolsonaro.

O episódio ajuda a entender o viés ideológico dos textos de Magalhães. A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e a adjetivação negativa do ex-presidente com base na sentença de Moro fazem parte do discurso típico do lavajatismo. A sugestão de manter o petista fora do jogo político (“isolado”) repete o objetivo confesso do ex-juiz e de seus cúmplices.

Como se não bastasse, Magalhães ironizou a idade de Lula, distorceu sua situação jurídica e usou-a para torná-lo indigno do debate público. Eximiu Bolsonaro de culpa, reduzindo seus crimes a “erros” e naturalizando a ideia de que ele apenas reage ao polo contrário. Em suma, usou a retórica fascista habitual para desqualificar uma liderança do campo democrático.

Dois anos depois, o “espantalho político” de Magalhães é novamente o favorito disparado na corrida sucessória. A “polarização nefasta”, que Lula jamais deixou de encabeçar, sintetiza um anseio majoritário pelo fim da tragédia parida no sucesso midiático da Lava Jato. A vitrine do Roda Viva não se mostrou capaz de alavancar seus “players” de estimação.

Eis que a metáfora com a fábula do sapo e do escorpião ganha aspecto premonitório. No final das contas, os afoitos e ingênuos estrebuchando no rio são Magalhães e Serva, ferroados pelos bichos paridos do arbítrio que ambos legitimaram. Num requinte de humilhação, recebem a (merecida) solidariedade que negaram aos desafetos injustiçados.

Mas a narrativa edificante serve também para os progressistas que se lançam no resgate dos colegas em apuros. Quando o fascismo incendeia a floresta, os anfíbios democratas ajudam os aracnídeos de ideologia peçonhenta a alcançarem a margem segura da civilização. Basta começar o governo Lula e a natureza recolocará esse pacto ilusório nos devidos termos.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2022/09/vera-magalhaes-e-logica-do-escorpiao.html

Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Website: www.guilhermescalzilli.blogspot.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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2 Comentários
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  1. ed.

    25 de setembro de 2022 2:09 pm

    Depois de passar a vida por uma democracia social, econômica e culturalmente intensa e livre, uma ditadura que abafou tais liberdades por pelo menos uma geração inteira e depois por um período neodemocrático cujo principal destaque político nacional e internacional foi e é Luiz Inácio, com resultados incontestáveis em torno de 90% de quaisquer temas que quisermos avaliar, cada vez mais sou conduzido a acreditar que o infame e desprezível PRECONCEITO é a única explicação que posso encontrar para entender a rejeição e até ojeriza que classes socioeconômicas de melhor situação (beneficiadas por ele) podem ter sobre o sucesso e qualidade do operário vindo de Garanhuns. Dos ricos “meritocratas” hereditários aos executivos e sócios de grandes empresas nacionais e multinacionais e assemelhados que conheço e conheci, a percepção de INACEITAÇÂO de tal pessoa perante suas respetivas situações, “preparo” e sucesso pessoal após seus mestrados, doutorados e rede de relações, sentindo-se (percebe-se em suas expressões faciais ao falar “dele”) perplexos sobre como podem e puderam ser presididos e internacionalmente representados por uma pessoa tão “INHA”?! Um “cachaceiro” que pelo menos podia gostar da cachaça das highlands escocesas, pois não?
    Vera Magalhães é apenas uma jornalista que pertence e representa tal segmento.

  2. Eduardo

    25 de setembro de 2022 6:27 pm

    Sem a pretensão nem a necessidade de complementar o brilhante comentário do ed, que me fez lembrar: Alguém que trabalhava, ao fim do segundo mandato de Lula, na empresa onde ele perdera o dedo, me disse que lá havia um gerente que falava abertamente mal do presidente, afirmando inclusive o dolo de um acidente provocado pelo próprio para conseguir vantagens. Dizia que conhecera Lula, que era um vagabundo, analfabeto, além de outras “qualidades”. Por detrás desses ataques fica explícito o “como é possível esse cachaceiro ser eleito presidente 2 vezes, e eu, e eu, curso superior completo, pós, pós do pós, com todos os dedos, só consegui essa gerência, e olhe lá, não tá fácil mantê-la”. Há situações em que um mal feito já traz junto a punição, como nesse caso, um sofrimento sem fim, pelo sucesso do outro e pela frustração própria.

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