
Logo depois da apuração de 2014, um amigo conservador, em tom de indignação, me disse que o Partido dos Trabalhadores só se mantém no poder graças ao sistema eleitoral vigente.
Diz ele que se adotássemos o modelo dos colégios eleitorais que existe nos EUA, o PT já teria sido varrido há muito tempo. Será?
Se vigorasse o sistema norte-americano de colégios eleitorais no Brasil, isto não alteraria em nada os resultados de 1989 para cá. Aliás, nem seria preciso o segundo turno em cinco das sete eleições que fizemos desde a redemocratização.
No sistema de colégio eleitoral se despreza o princípio do voto proporcional. Ou seja, quem ganha num estado ganha 100 por cento dos delegados do mesmo estado. Esses delegados são escolhidos respeitando a proporcionalidade do número de eleitores de cada estado.
Por exemplo: em São Paulo Dilma fez 36 e Aécio fez 64 por cento dos votos válidos. No sistema atual a proporcionalidade é mantida; no sistema de colégio eleitoral Aécio ficaria com 100 por cento dos delegados do Estado de São Paulo, pois foi o vencedor.
E assim valeria para todos os outros estados, como é nos EUA.
Tendo como base os dados do TSE, copiei o modelo norte-americano atribuindo um peso para cada estado de acordo com o número de eleitores.
O cômputo total de votos seria de 1000 e quem fizesse, portanto, mais de 500 votos entre os delegados sairia vencedor da disputa presidencial.
Primeiro vejamos como seriam os resultados das eleições presidenciais brasileiras com base no colégio eleitoral; depois vejamos o peso de cada estado se aqui vigorasse o sistema dos EUA:
1) Eleição presidencial de 1989:
-Collor: 809 delegados (vitória em 23 estados da federação);
-Brizola: 178 delegados (vitória no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e em Santa Catarina);
-Lula: 13 delegados (vitória no Distrito Federal).
Teríamos, portanto, Collor eleito no primeiro turno.
2) Eleição presidencial de 1994:
-FHC: 928 delegados (vitória em 25 estados da federação);
-Lula: 72 delegados (vitória no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul).
FHC seria eleito no primeiro turno, como foi de fato em 94.
3) Eleição presidencial de 1998:
-FHC: 812 delegados (vitória em 24 estados da federação);
-Lula: 144 delegados (vitória no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul);
-Ciro Gomes: 44 delegados (vitória no Ceará).
FHC seria reeleito no primeiro turno, igual ao que houve em 98.
4) Eleição presidencial de 2002:
-Lula: 857 delegados (vitória em 24 estados da federação);
-Garotinho: 85 delegados (vitória no Rio de Janeiro);
-Ciro Gomes: 44 delegados (vitória no Ceará);
-Serra: 14 delegados (vitória em Alagoas).
Lula estaria eleito já no primeiro turno, diferente do que houve de fato em 2002.
5) Eleição presidencial de 2006:
-Lula: 543 delegados (vitória em 16 estados);
-Alckmin: 457 delegados (vitória em 11 estados).
Como vemos, Lula se reelegeria sem a necessidade de disputar um segundo turno.
6) Eleição de 2010:
-Dilma: 632 delegados (vitória em 18 estados);
-Serra: 355 delegados (vitória em 08 estados);
-Marina: 13 delegados (vitória no Distrito Federal).
Dilma venceria já no primeiro turno, sem a necessidade de disputar o segundo.
7) Eleição de 2014:
-Dilma: 538 delegados (vitória em 15 estados);
-Aécio: 413 delegados (vitória em 10 estados);
-Marina: 49 delegados (vitória no Acre e em Pernambuco).
Dilma estaria reeleita sem a necessidade de disputar um segundo turno.
Nota-se, portanto, que a mudança do sistema proporcional atual para o sistema majoritário dos colégios eleitorais (similar ao dos EUA) em nada alteraria os resultados que se verificaram de 1989 para cá.
A única alteração que teríamos, a bem da verdade, é que em nenhuma das 07 eleições haveria a necessidade da realização de um segundo turno pois os postulantes já alcançariam a maioria (mais de 500 delegados) na primeira rodada dos respectivos pleitos.
Segue agora o peso dos estados de acordo com a proporção de eleitores e de acordo com a última atualização do TSE¹:
1) São Paulo: 224 delegados.
2) Minas Gerais: 107 delegados.
3) Rio de Janeiro: 85 delegados.
4) Bahia: 71 delegados.
5) Rio Grande do Sul: 59 delegados.
6) Paraná: 55 delegados.
7) Pernambuco: 45 delegados.
8) Ceará: 44 delegados.
9) Pará: 37 delegados.
10) Santa Catarina: 34 delegados.
11) Maranhão: 32 delegados.
12) Goiás: 30 delegados.
13) Paraíba: 20 delegados.
14) Espírito Santo: 19 delegados.
15) Piauí: 17 delegados.
16) Rio Grande do Norte: 16 delegados.
Amazonas: 16 delegados.
18) Mato Grosso: 15 delegados.
19) Alagoas: 14 delegados.
20) Distrito Federal: 13 delegados.
Mato Grosso do Sul: 13 delegados.
22) Sergipe: 10 delegados.
23) Rondônia: 08 delegados.
24) Tocantins: 07 delegados.
25) Acre: 04 delegados.
26) Amapá: 03 delegados.
27) Roraima: 02 delegados.
Total: 1000 delegados.
¹ Não foram computados no exemplo do texto os votos advindos de brasileiros no exterior. Estes votos são proporcionalmente irrisórios e em nada alterariam os resultados finais.
Rodrigo C Moreira
29 de outubro de 2014 6:04 pmEsses conservadores…
Como
Esses conservadores…
Como pode alguém adular o sistema americano, no qual um candidato pode vencer no Colégio eleitoral e perder no voto popular, como ocorreu na primeira eleição do Bush?
O sistema brasileiro tem muitos vícios, mais, ainda assim, é melhor que o sistema americano.
Imaginem a confusão se ocorre de um presidente de direita vencer a eleição no colégio e perder no voto popular? Que legitimidade ele teria aqui?
Enfim. Não sou petista e nao gosto do atual sistema (apoio a proposta da OAB), mas esse conservador aí viajou.
Alan Souza
29 de outubro de 2014 7:30 pmE conservador por acaso pensa?
https://jornalggn.com.br/noticia/estudo-aponta-que-pessoas-de-esquerda-sao-mais-inteligentes-que-as-de-direita
http://livrepensamento.com/2013/04/09/pessoas-menos-inteligentes-tendem-a-ser-mais-conservadoras-e-preconceituosas/
Diogo Costa
29 de outubro de 2014 7:35 pm.
Não entendi se a crítica foi dirigida ao autor do texto ou não. Se foi, adianto que o texto em nenhum momento defende o modelo majoritário dos colégios eleitorais. O texto apenas demonstra que se o Brasil seguisse esse modelo as eleições presidenciais, de 1989 para cá, não seriam alteradas em seu resultado final.
Edú Pessoa
29 de outubro de 2014 6:25 pmExcelente texto, Diogo Costa.
Excelente texto, Diogo Costa. E digo mais: pelos dados que você trouxe, a nossa vitória teria sido ainda maior e o despesero da velha mídia também!
Johann
29 de outubro de 2014 6:47 pmInteressante a analise, mas
Interessante a analise, mas discordo do peso utilizado, acho que o correto seria utilizar o número dos deputados federais eleitos, já que a quantidade de deputados federais eleitos aqui no Brasil já é proporcional.
maria olimpia
29 de outubro de 2014 6:53 pmPoucas alterações….
De fato, Diogo, pouquíssimas alterações! Excelente poder ver esta comparação!
janes salete
29 de outubro de 2014 6:57 pmNão tem preço ver a cara dos
Não tem preço ver a cara dos vira-latas com a derrota nas urnas, Eles tinham absoluta certeza que os cofres públicos já eram deles, mas o povo não permitiu. Li numa manchete em jornal no supermercado isso: “- minas falhou com aécio-“. É mole? Mas tem mais: “- Em miami-USA, foi onde o aécio teve maior votação-“. Os vira-latas merecem estar sempre com o rabinho entre as pernas. São vergonhosos, sua subserviência ao USA é o que eles almejavam do povo brasileiro em relação a eles. Impapáveis os latidos, as caras deformadas pelo ódio. E já estão se preparando para o terceiro turno. São uns…sei lá…nem sei mais a definição para tanta imbecilidade!
altamiro souza
29 de outubro de 2014 7:10 pmboa comparação.
boa comparação.
Gão
29 de outubro de 2014 8:40 pmExtra – Sarney Bota broche de Dilma pra votar em Aécio
A cara do PMDB
Com broche de Dilma, Sarney votou em Aécio
[video:http://www.youtube.com/watch?v=WO6YSgYv4_Y%5D
Imagens produzidas pela TV Amapá, retransmissora da Rede Globo no estado, revelam que o senador José Sarney (PMDB-AP), mesmo usando broche da presidente Dilma Rousseff (PT), na hora de digitar o voto optou pelo candidato Aécio Neves (PSDB) no último domingo; assista
29 de Outubro de 2014 às 16:56
Amapá 247 – Imagens produzidas pela TV Amapá, retransmissora da Rede Globo no Estado, revelam que o senador José Sarney, mesmo usando broche da presidente Dilma Rousseff (PT), na hora de digitar o voto optou pelo candidato Aécio Neves (PSDB) no último domingo 26.
Sarney vota no Amapá desde que transferiu o domicílio eleitoral do Maranhão para o Estado, onde se elegeu senador logo após deixar a presidência da República. Recentemente, às vésperas do prazo para o registro de candidatura, o senador anunciou que estava desistindo de disputar novamente o pleito.
Provavelmente pesou na decisão de Sarney a forte oposição do PT do Amapá e a falta de apoio da direção nacional do partido da presidente Dilma. O senador esperava obter apoio da direção nacional para impedir que o PT local lançasse a atual vice-governadora Dora Nascimento (PT) como candidata ao Senado.
O peemedebista foi um dos mais fortes aliados dos petistas durante o governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva e manteve a aliança durante o governo Dilma indicando inclusive ministros, como Edison Lobão, das Minas e Energia. Assista abaixo as imagens, que mostram que, mesmo usando broche da atual presidente, Sarney votou contra ela.
Neste vídeo, você assiste à reportagem da TV Amapá, em que Sarney aparece de longe, com o mesmo terno:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=53KwhitVYxc%5D
http://www.brasil247.com/+kdn0o
Alex Sotto
29 de outubro de 2014 9:15 pmA comparação é impossível, e
A comparação é impossível, e portanto, o texto não tem nenhum valor.
Nas eleições americanas, muitos Estados nem são sequer visitados por este ou aquele candidato. Sequer se gasta um centavo fazendo campanha onde já se tem a certeza da derrota ou da vitória.
As eleições americanas se decidem em alguns Estados que, ora elegem republicanos e ora elegem democratas. Os chamados swing states, como Flórida, New Hampshire e Ohio.
Além disso, toda a mecânica da eleição presidencial, com primárias para escolha dos candidatos, como de resto de todo exercício do votos nos Estados Unidos, coloca a democracia lá exercida anos-luz a frente deste esboço de democracia que praticamos por aqui.
alvaro marins
29 de outubro de 2014 9:19 pmTem gente que ouve de alguém,
Tem gente que ouve de alguém, que viu na globo alguma coisa, que alguém disse, e sai repetindo qualquer coisa. Não pára dez segundos para pensar.
Donadio
30 de outubro de 2014 3:03 pmA falha do texto é que ele
A falha do texto é que ele não leva em conta os efeitos históricos do sistema eleitoral.
Por exemplo, se nós usássemos o sistema americano, Brizola, e não Lula, teria ficado em segundo lugar em 1989. E, portanto, provavelmente o PDT não teria minguado como minguou, nem o PT teria se consolidado como a principal força de oposição. E como um sistema como o norte-americano praticamente força a existência de apenas dois partidos, quase certamente a história teria sido diferente.
Agora, se adotássemos o sistema americano a partir de hoje, em duas ou três eleições só sobreviveriam, como partidos políticos com expressão, o PT e o PSDB.
Bruno GH
30 de outubro de 2014 6:32 pmDemocracia?
Tendo ou não diferença na prática, melhor como é aqui.
Nos EUA permite a distorção de se eleger sem a maioria da população. Aqui não.
Ou melhor, não permite eleger sem a maioria dos votos válidos.
O que é legal lá são as prévias, que poeriam ser adotadas, de alguma forma, aqui.
E aqui, isso de 50% dos votos válidos é dose. Deveria ser 50% do total de votos.
Com votos em branco e nulos, teríamos infinitos turnos. Não dá, lógico.
A voto não deveria ser obrigatório. A abastenção aumentaria mas os brancos e nulos, creio, seriam desprezíveis.
Há sim, que se mexer nas eleições proporcionais. Da forma como está é uma vergonha!
Donadio
31 de outubro de 2014 1:39 pmAqui é melhor do que
Aqui é melhor do que lá.
Agora não sei o que as prévias têm de bom. São divertidas, como toda eleição, mas são uma demonstração cabal de que os dois grandes partidos são partidos de Estado, e não organizações independentes.
Até a data da prévia é igual em ambos os partidos!
Eu sou contra o voto facultativo; acho que abre uma brecha gigantesca para a defraudação da vontade popular. A Globo notoriamente mandava os seus jornalistas com fama de progressistas cobrir eleições longe de casa, para que não pudessem votar. Imagina sem o voto obrigatório, o que ia haver de patrão proibindo os empregados de votar!
Não sei também se o fim do voto obrigatório levaria à diminuição proporcional dos votos brancos e nulos. Há muitos motivos para anular o voto ou votar em branco, incluindo:
– o erro do eleitor que não consegue digitar corretamente o número do seu candidato (por isso o voto nulo cai tanto no segundo turno, em que é mais fácil acertar);
– o eleitor que vota em branco ou anula para presidente, por que só está interessado na eleição para deputado/governador/senador (o que explica parte tanto do aumento das abstenções como da diminuição dos votos nulos e brancos no segundo turno);
– o eleitor que quer protestar contra o sistema como um todo.
Nada disso, me parece, diminuiria com o voto facultativo.