Um suporte de vida de medo e caos: o mundo paralelo do bolsonarismo e da extrema direita
por Rodrigo Campanella
Um homem de fuzil em punho e pistola na cintura invade uma pizzaria tradicional e lotada de famílias em um domingo. Ele tem menos de trinta anos, é pai de duas meninas e não se trata de um assalto. Enquanto todos fogem, o invasor anuncia que está ali para confirmar que no porão da pizzaria se esconde um covil de tráfico de pessoas e pedofilia, financiado por nomes graúdos em fortuna ou poder político. Vasculha o lugar, arromba portas com tiros. Não encontra nada e se rende, cercado pela polícia. Não existia qualquer indício de rede de pedofilia. O lugar não tinha sequer porão. Depois de percorrer centenas de quilômetros até a pizzaria, na certeza de que seria herói nacional, ele termina o dia como criminoso preso em flagrante.
O caso Pizzagate aconteceu na capital dos Estados Unidos. Pela extravagância dos detalhes, ganhou alcance e acabou reconhecido como exemplo direto do poder destrutivo de boatos disparados massivamente e respaldados por perfis sociais ou canais online com grande audiência. A fake news sobre a pizzaria familiar que abrigaria um império criminoso transnacional, consolidada no youtube e em sites de extrema direita, abriu caminho como verdade razoável para muita gente. Pessoas cada vez mais imersas em um sistema próprio de crenças reiterado pelas mesmas fontes de informação, as mesmas vozes, os mesmos informantes de bastidor que não se revelam
Muitos dos que estão imersos nos sistemas de crenças baseados em manipulação de fatos e fake news não entraram nisso por alguma espécie de porta principal e ficaram imediatamente à vontade com tudo que acharam ali dentro. No Brasil, uma parte chegou acompanhando discussões e debates indignados sobre notícias em perfis sociais e canais de Youtube radicalizados de direita, que pareciam oferecer a primeira chance de ter algum domínio sobre as engrenagens do presente e do futuro do país. É uma educação política das mais tortas, mas consegue parecer normal. Outros radicalizados aceitaram o convite por recomendações sobre pequenos investimentos e educação financeira básica, ou observando atentamente personalidades que construíram pequenas fortunas em dinheiro ou visibilidade. Esse pacote acionava a perspectiva de um futuro mais próspero e prometia os atalhos do dinheiro rápido, mas cobrava posicionamentos políticos cada vez mais duros e cheios de indignação para o alinhamento ser ideal.
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Seja qual for o vão de entrada, o objetivo propagado com fúria não costuma ser lutar apenas por si próprio – a luta se propaga no eco do futuro, é levada adiante em nome da família e dos filhos. Esse foi o argumento do invasor armado na pizzaria e não era apenas ele que se sentia encorajado e desperto pelo sistema de medo alimentado diariamente no seu entorno. Cada um que acreditava na mesma mentira ganhava a certeza de que possuía acesso a verdades únicas sobre um sistema profundamente apodrecido. E apenas eles, com uma busca incessante e sem limites por pureza e por vingança, poderiam colocar fim à perversão.
O que deu guarida e suporte a Bolsonaro, e que irá ultrapassar ele próprio quando for necessário, foi um novo sistema de referências e de estabelecimento de propósitos que se vendeu e foi absorvido como educação política, social e financeira. Como parte fundamental da vinculação, bandeiras de mobilização social foram inventadas e empunhadas, entregando para tanta gente a sensação distorcida de estar lutando pela democracia com apelos desesperados pela supressão ou eliminação de liberdades garantidas democraticamente. Parte do apelo exercido por essa contradição está na sensação de poder fazer parte de uma comunidade que embrulha rapidamente seus membros no orgulho de ser socialmente relevante. A adesão é o bastante para ganhar destaque na luta inventada contra um inimigo total, reconstruído constantemente para se apresentar como ameaça a qualquer valor fundamental de cada novo agregado ou risco à sua família e a seus filhos.
Também por isso o apoio a Bolsonaro sempre foi um fenômeno que dependeu da manutenção malabarista de impressões muito diferentes sobre ele. Diversas declarações buscam redimir o sujeito que “nem sempre se expressa bem quando fala, mas que faz as coisas corretas”, transformando isso em pólo positivo de espontaneidade. Cada declaração sua sempre foi um grande risco para a demolição de uma rede cheia de arestas internas, que se mantém unida na força do movimento contínuo. Se a necessidade é manejar um cotidiano cada vez mais complexo e individualizado, o conforto pode ser encontrado nesse abrigo de um novo sistema de crenças que traz sentido, relevância e validação contínua, algo sedimentado em tantas telas, canais, perfis e credibilidades de fundo duvidoso. Mesmo tomado por contradições, o sistema dá conta de preencher várias esferas da vida e as entradas são muitas. O que não pode é parar de injetar medo, em hipótese alguma, para não deixar cair no vazio a fantasia de monstro que entrega a sensação de importância para os participantes e se equilibra por cima dos interesses reais.
Rodrigo Campanella é doutor em Comunicação Social, consultor em gestão e monitoramento de mídias sociais e em desenvolvimento de projetos digitais
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Fábio de Oliveira Ribeiro
25 de novembro de 2022 10:17 amTerrorismo em nome de Jesus. Nossa bandeira será incendiária. O crime político acima de tudo e a violência acima de todos. Os terroristas são apoiados por generais. Braço ágil, mão de gato. Os militares bolsonaristas são gatunos. Enquanto os terroristas evangélicos de extrema direita incendeiam o Brasil eles se locupletam com dinheiro do fundo partidário.