O que podemos aprender com as Berinjelas?
por Janderson Lacerda
Não. Este texto não é de um coaching gastronômico. Tampouco tem a pretensão de discutir o valor nutricional das berinjelas por dois simples motivos: primeiro porque abomino coaches e segundo por não ter conhecimento e a formação acadêmica de um nutricionista.
A questão aqui, caro leitor, é discutir a capacidade revolucionária das berinjelas. Sim, a começar por sua cor. A natureza nos brindou com nuances entre o azul e o vermelho – certamente para maquiar seu espectro político – que ao final formam um roxo lustroso, cor de berinjela.
Depois a grafia da palavra: berinjela no Brasil escreve-se com J, assim como em espanhol, berenjena ou em árabe, bândinjâna. Entretanto, a forma mais antiga do vocábulo é Beringela, com G, modelo utilizado no português de Portugal até hoje.
Perceberam a capacidade de mutação gramatical das berinjelas? E você acha que a discussão se encerra na morfologia da palavra?
Errou!
De origem indiana e revolucionária como Gandhi, as berinjelas mudaram para sempre a história da gastronomia. Do fruto — ou seria legume? Darwin explica — desprezado na Europa, porque muitos acreditavam que ao comê-la poderiam sofrer de epilepsia ou demência, ao protagonismo da gastronomia moderna.
As berinjelas, como cantava o grande Raul Seixas, são metamorfoses ambulantes, embora me arrisque a dizer que elas não são anárquicas como o velho Raulzito e sua sociedade alternativa. Ao contrário, como diz o provérbio: berinjelas unidas comida garantida – desculpe-me, inventei o ditado agora porque não encontrei nenhum que pudesse ser utilizado nesta crônica.
O fato é que com uma porção de berinjelas é possível criar diversos pratos. Da entrada com Caponata, Brusqueta, Antepasto de Berinjela, Patê de Berinjela tudo muito gourmetizado é verdade. Mas, isto não significa que, apenas, frequentadores de restaurantes de elite poderão desfrutar da iguaria.
Afinal, a Berinjela muitas vezes é o prato principal da classe trabalhadora, sobretudo, nos anos de fome impostos a nós pela dupla Guedes e Bolsonaro.
Bem-aventurados são aqueles que carregam em suas marmitas uma Lasanha de Berinjela ou uma Berinjela à Parmegiana.
Carne vermelha para quê, Camarada?!
Com ¼ de xícara de chá de azeite, ¼ de cominho, sal a gosto e duas berinjelas é possível fazer uma deliciosa berinjela assada ou até mesmo refogada.
Definitivamente as berinjelas revolucionaram a culinária.
E, apesar, de renomados chefes de cozinha se apropriarem do fruto, as berinjelas desde sempre se renderam às donas de casa, cozinheiras não remuneradas com profundo conhecimento empírico. E são na verdade essas mulheres que revolucionaram as cozinhas de todo mundo e transformaram as berinjelas na requintada iguaria dos nossos tempos.
Donas de casa de todos os países, uni-vos!
Contudo, a berinjela é o único fruto não proibido capaz de reunir Gandhi, Darwin, Marx e uma pitada de Raul Seixas em uma única crônica. Ora, se isso não for revolucionário é, ao menos, um monte de bobagens.
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