5 de junho de 2026

Os idiotas do fiscalismo e a “licença para gastar”, por Luis Nassif

A demonização de qualquer tipo de gastos remete à piada do cavalo do inglês, que quando estava pronto para viver sem comer, morreu.

Professoral, a colunista de O Globo pontifica sobre os discursos de Lula na posse: 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

“Persiste, também, a dúvida sobre como o presidente pretende conciliar a professada responsabilidade fiscal com a licença para gastar conseguida no Congresso. Sobre isso, Lula não falou, muito possivelmente porque não tem a resposta”.

Sua fala não comporta nenhuma espécie de dúvida. Uma PEC destinada a obter recursos emergenciais para matar a fome, e a repor o orçamento de universidades e de ciência e tecnologia, foi reduzida a uma mísera “licença para gastar”.

Não há limites para a ignorância, quando se dá ao tema tratamento dogmático e obtuso. A demonização de qualquer tipo de gastos remete à piada do cavalo do inglês, que quando estava pronto para viver sem comer, morreu.

Antes de exigir respostas, o jornalista precisa aprender a formular perguntas. Um bom início seria assistir a entrevista que Felipe Salto deu à TV GGN Economia. 

Salto é o criador do Instituto Fiscal Independente, montado pelo Congresso para fiscalizar os gastos do governo e, atualmente, secretário da Fazenda de São Paulo.

Orçamento fiscal não é fim: é meio, diz ele. E não se pode confundir despesa com desperdício.

Primeiro, definem-se as prioridades. Depois, os ganhos de produtividade possíveis, com a redução do desperdício. Finalmente, providencia-se o financiamento, com remanejamento de despesas ou aumento de impostos.

Os idiotas do fiscalismo não conseguem sequer separar despesas de desperdício e não tem a menor ideia sobre o conceito de depreciação.

Desperdício se combate com gestão. E gestão passa por política de pessoal (definindo melhor cargos e responsabilidades), aprimoramento permanente de processos e indicadores que meçam não apenas as despesas, como os resultados.

Incensado pelos idiotas do fiscalismo, por ter conseguido reduzir despesas com educação e melhorado o IDEB do Espírito Santo, o ex-governador Paulo Hartung simplesmente eliminou as escolas rurais e reduziu as escolas noturnas. Deixou de atender às populações mais carentes, justamente as mais necessitadas e que tinham o menor desempenho no IDEB. Reduziu as despesas, melhorou o IDEB e jogou o manto da invisibilidade sobre os desassistidos.

Gestão e depreciação

No primeiro governo FHC, fui convidado pelo então Ministro da Administração, Luiz Carlos Bresser Pereira, para compor o Conselho da Reforma do Estado. Recusei, mas aceitei o de membro do Prêmio de Qualidade do Setor Público. Pude entender, de perto, os ganhos de produtividade possíveis, com programas bem executados.

O próprio Fernando Haddad conta a economia que conseguiu em São Paulo, com melhoria de gestão. Daí a importância de indicadores que meçam despesas e a entrega de resultados. 

A Ministra de Gestão Esther Dwek terá em mãos um projeto de criação de centro de custos para todos os órgãos federais, preparado por Nelson Machado – o mais brilhante funcionário público das últimas décadas, técnico responsável pela modernização administrativa da Secretaria da Fazenda, na gestão Nakano-Covas, e da Previdência, no governo Dilma. O trabalho foi deixado de lado quando os idiotas do fiscalismo aplicaram o golpe e colocaram Michel Temer no governo.

Depreciação é outro conceito ignorado pelos idiotas do fiscalismo. Se deixar de fazer a manutenção de uma estrada em um ano, estarei jogando para os anos seguintes um passivo muito maior, para a recuperação da mesma estrada.

Tome-se o próprio superávit fiscal alardeado pelo governo de São Paulo. Salto tomou posse em abril de 2022. Havia saldo em caixa. Para obter esse saldo, o antigo secretário Mauro Ricardo impediu concurso para professores, para o setor de segurança e para o meio ambiente, entre outros. Os concursos foram disparados só no final deste ano, para impactar o orçamento de 2023 e permitir a celebração do sucesso da última linha – aquela que dá o resultado final. E apresentou-se uma mudança no modelo de remuneração dos professores que tornará a profissão menos atraente ainda, em um momento em que todos os educadores – de ONGs empresariais a educadores independentes – colocam a melhoria da remuneração do professor como peça essencial para a melhoria da educação.

Nesse período de cortes, a educação sofreu o maior baque da história, com as sequelas do Covid. E São Paulo simplesmente não repôs seu corpo de professores. Pergunto: como se contabiliza o atraso educacional no estado?

Um país se constrói com pensadores, que renovam conceitos, e com uma mídia com discernimento, capaz de consolidar os novos conceitos na opinião pública. O que condiciona as políticas públicas são os conceitos filtrados pela mídia.

Enquanto for dominada pelos idiotas do fiscalismo, pouco se avançará.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

11 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Vladimir

    3 de janeiro de 2023 8:33 am

    Não dá para contestar nada. Artigo exemplar.
    Talvez o mote do cavalo inglês deva ser exemplo constante para essa gente. Se não for possível,talvez tenha que desenhar.

  2. Douglas da Mata

    3 de janeiro de 2023 8:37 am

    Bem, eu gosto do tom agressivo do início do texto…só isso…

    As premissas estão todas erradas ou Marx está morto novamente, e com ele, talvez, Adam Smith…

    Ora, o capitalismo é um sistema que não só GERA desigualdades, mas tem nas DESIGUALDADES sua razão de existir.

    Então, o Estado Nacional dos dias de hoje, cuja gênese está intimamente relacionada a propulsão inicial do esforço mercantil de acumulação pré-capitalista, equilibra-se entre a a cruz e a caldeirinha:

    – Mitigar os custos sociais do capitalismo e garantir seu funcionamento, às portas de sua debacle ao rentismo pós-capitalista.

    Como é que você diz para o Estado Nacional, que detém ao mesmo tempo o poder dos impostos e da emissão de sua moeda, que ele tem algum limite de gasto?

    Alguém disse isso aos EUA na sua gigantesca QE de 2008/2009? A questão então não é o quanto gasta, mas QUEM gasta…

    Tá, tudo bem, essa é a realidade posta, e nada adianta?

    Uai, é o fim da História…o fatalismo determinista econômico se sobrepõe a única atividade que nos difere dos símios, a política????

    E assim, o anormal de normaliza todos dos dias: violência fiscal, violência política, violência policial, enfim…violência do capital…

    Em resumo, o equilíbrio fiscal é o novo nome do imperialismo capitalista, o rentismo a nova escravidão!!!!! E a História???? Se repete como tragédia….

  3. Renato Cruz

    3 de janeiro de 2023 8:51 am

    Entendo o artigo, como aliás, todos os seus comentários econômicos, que sempre foram cristalinos para mim. De quê adianta um bom superávit no tesouro, se há milhões de pessoas passando fome todos os dias ou revirando lixo para encontrar alguma coisa para comer? Para quê serve fechar o ano no azul, se as escolas estão sucateadas, as estradas são só buracos, os hospitais públicos não conseguem atender os doentes pobres? É perfeitamente óbvio que se deve gastar e gastar muito para resolver esses problemas gravíssimos, que envergonham esse país tão rico de recursos. Porém, o que nunca entendi é qual é o limite para gastar. Como evitar uma repetição da maior tragédia da economia brasileira antes da pandemia, desde a Grande Depressão de 1929: a “Grande Recessão Dilma Rousseff de 2014-16”? O grande sonho do PT é que todos nós esqueçamos aquela crise, que a gente finja que aquela imensa destruição não aconteceu, ou, se a gente não é idiota e lembra de tudo, então que a gente acredite que aquilo foi tudo culpa da Lava Jato e do Joaquim Levy, que o PT não teve nenhuma responsabilidade no que ocorreu com o país. Só que eu vi o que aconteceu com as lojas da Rua Domingos de Moraes e da Rua Augusta aqui na zona sul de São Paulo, em 2015, as centenas de portas baixadas para sempre, porque nunca mais reabriram. Essa tragédia, que se reproduziu no país todo e tanto sofrimento trouxe ao povo brasileiro, foi produzida pelo PT. Por essa razão, estou feliz com o fim do hospício maligno chamado Governo Bolsonaro, mas minha expectativa sobre a economia do terceiro governo Lula é ZERO, NENHUMA. E se a esquerda vier com o papo furado de sempre, dos anos dourados 2003-2010, acho incrível ter de repetir sempre, sempre e sempre: aquilo era dinheiro da China, que ACABOU. A velha acusação de que a esquerda não sabe gerir a economia e só produz desastres nunca perdeu a validade. Basta ver a catástrofe da Argentina, depois de 3 anos de governo de esquerda, e olhe que se lá tiveram um Joaquim Levy – essa é a desculpa esfarrapada preferida da esquerda brasileira, só perde para a grande muleta Lava Jato – que foi o Governo Macri, não tiveram um Sérgio Moro, um Judiciário e um Congresso acabando com um governo de esquerda eleito. E vou salvar esse meu comentário para relê-lo em 2026, na próxima campanha presidencial.

  4. josé Oliveira de Araújo

    3 de janeiro de 2023 9:05 am

    HOJE É MUITO COMUM OUVIR E VER COMENTARISTAS ACEITAREM QUE É NECESSÁRIA A RESPONSABILIDADE SOCIAL, MAS QUE É PRECISO QUE ELA ESTEJA RESPALDADA NA RESPONSABILIDADE FISCAL. NO ENTANTO, ESSES COMENTARISTAS SE ESQUECEM QUE NOS ÚLTIMOS 6 ANOS A IRRESPONSABILIDADE SOCIAL CAMPEOU SEM QUE HOUVESSE A TAL RESPONSABILIDADE FISCAL COM O AGRAVANTE QUE O FAMIGERADO MERCADO REAGISSE DANDO OS SEUS COSTUMEIROS CHILIQUES.É FÁCIL ENTENDER QUE O OBJETIVO DO MERCADO, É GANHAR DINHEIRO FÁCIL, SEJA COM JUROS ESTRATOSFÉRICOS, PRIVATIZAÇÕES FAJUTAS, RECEBIMENTO DE JUROS SOBRE SOBRAS DE CAIXA, ISENÇÕES DE IR SOBRE LUCROS E DIVIDENDO ETC. QUALQUER GOVERNO QUE SEJA UMA AMEAÇA AOS SEUS SUPER PRIVILÉGIOS, PRECISA NO MÍNIMO SER FUSTIGADO, PARA QUE TAL NÃO ACONTEÇA. VEJA QUE EU MENCIONEI SUPER-PRIVILÉGIOS, POIS OS PRIVILÉGIOS CONTINUARÃO.

  5. Naldo

    3 de janeiro de 2023 10:08 am

    Pois é “seo” Nassif, sempre que interessam colocam na mesa o governo Dilma, que fetiche é esse? Não esquecem a mulher…o que não explicam é que a direita está no poder há SEIS ANOS, quando o mandato de Dilma foi criminosamente interrompido…a direita teve o congresso, a mídia, a favor para fazer tudo o que quiseram, vender estatais como se fossem balas de goma, destruir direitos trabalhistas inventar o trabalho partime com salários miseráveis, destruíram a previdência acabando com o direito do trabalhador se aposentar e pagando meio salario mínimo para viúvas e dependentes a termo final, desonerações e dólar nas alturas privilegiando especuladores, juros estratosféricos e dividendos criminosos livres de impostos, invenção de um teto de gastos, pasmem, incrustado na constituição!!! Para algemar governos futuros, um crime contra a soberania e vontade do povo em escolher seu destino, mandato fixo para o bc, para se livrar do governo e poderem ligar para banqueiros perguntando quanto a taxa de juros deve subir sem correr o risco de perderem o emprego e por fim um Zé ruela como sinistro da economia, destruindo os ministérios do planejamento, trabalho, indústria e comércio entre outros, não por competência do cidadão e sim para não haver contraponto a incompetência monstruosa do sujeito……a direita deveria explicar, por quê depois de todo esse apoio do congresso e da mídia, um terço do país passa fome, por que o desemprego depois da maldita reforma trabalhista, essa lenga lenga de economistas é apenas para disfarçar a desgraça que essa turma causa ao povo e mascarar a própria maledicência, canalhice e falta de caráter, esse é minha opinião de cidadão.

  6. 3 de janeiro de 2023 11:10 am

    Para auxiliar no debate, o texto de Fernando Nogueira da Costa

    https://aterraeredonda.com.br/a-ordem-do-capital/

    e o livro de Clara Mattei, apresentando em

    https://www.newstatesman.com/ideas/2022/11/austerity-fascism-liberal-admirers?utm_medium=Social&utm_source=Twitter#Echobox=1668607529

    são pontos de partida para explicar Bolsonaro/Guedes, Ditadura Militar/Delfim-Simonsen, Folha de São Paulo/Guedes/Bolsonaro, Globo/Guedes/Bolsonaro. Não há estupidez: há método, que se inicia, novamente, com o título de “PEC da Gastança”, continua por achar um teclado que aceite escrever que os discursos de Lula na posse apontam para “caça aos opositores”, continuam e continuam com os teclados de aluguel de sempre. Repito: não há estupidez, loucura ou coisas desse tipo, Há método, há luta de classes, incessante, inclemente, e há, sempre, as “pessoas de bem”, dispostas e prontas para serem alugadas para qualquer tarefa.

  7. Francisco Santos

    3 de janeiro de 2023 11:50 am

    O embate entre a realidade e o mundo de fantasia em que a imprensa vive não de imita apenas aos aspectos econômicos, qualquer medida, ação, gesto, fala ou respiração de qualquer um que compõe o governo Lula será alvo dessa “visão” alienada, retrógrada e parcial. Resta ao governo Lula saber se comunicar com a sociedade e não ficar dependente da mídia tradicionalista.

  8. Rodrigo Lima

    3 de janeiro de 2023 3:16 pm

    É um verdadeiro sistema que busca neutralizar as políticas públicas. Acrescento ainda a atuação do Ministério Público que induz o gestor público a não realizar nada, pois, caso realize, poderá ser acusado de mau uso dos recursos.

  9. Sergio Ribeiro

    3 de janeiro de 2023 4:47 pm

    Ouvi isso hoje cedo, no comentário do “Sarnemberg”. Parece um velho rabugento, implicando com tudo que Lula faz. Na cabeça dele, basta apenas cortar gastos (nunca fala aonde) que tudo se resolve. Só não explica como se faz política pública sem gastar absolutamente nada.

  10. Moacir R. de Pontes

    5 de janeiro de 2023 8:57 pm

    Idiotia de aluguel é coisa muito mais antiga do que barriga de aluguel. E também muito mais rentável.

  11. Eu

    7 de janeiro de 2023 1:24 pm

    De longa data, o setor publico esbanja incompetência praticada com finalidade escusa! Não é aleatória ou culposa é “dolosa”! Enquanto houver impunidade aos praticantes ficaremos na mesmice. O freio e contrapeso para conter as mazelas seria o Judiciário! Eita, ai adentra-se a uma situação prolixa…

Recomendados para você

Recomendados