5 de junho de 2026

A posse de Lula é um norte de bússola para o Brasil e para o mundo, por Ion de Andrade

Lula, maior e mais profundo, numa posse muito mais emblemática do que a de 2002, lançou a pedra fundamental do Brasil nação.
Ricardo Stuckert

A posse de Lula é um norte de bússola para o Brasil e para o mundo

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por Ion de Andrade

A posse de Lula, cujo ponto alto foi a subida da rampa do Planalto com a representação plural do povo brasileiro, é um norte de bússola a ser buscado não por uma mas por muitas gerações no Brasil.

A igualdade na imagem exprimiu, na realidade, um fato latente e dolorosamente latejante, um desejo ardente, que ainda não é um fato manifesto. Trata-se da imagem do compromisso de futuro que nos une e que é uma ideia força irrenunciável.

Sábio Lula que colocou os cavalos (a ideia força) à frente da carruagem!

Ali surge, numa imagem para sempre, o ícone de uma nação que temos imperativamente que construir.

Pensando na nossa história e no legado de Darcy Ribeiro, poderíamos dizer que, embora não se possa falar de “descobrimento” de uma terra habitada ancestralmente pelo homem há milênios, que Pedro Álvares Cabral agregou as terras do Brasil a um império mundial e lançou a pedra fundamental de um Brasil país.  Lula, maior e mais profundo, numa posse muito mais emblemática do que a de 2002, lançou a pedra fundamental do Brasil nação.

Trata-se, não esqueçamos, num caso e no outro, do começo de uma história.

—-//—-

A posse de Lula ocorre num cenário mundial profundamente adverso, no qual a grande força ascendente é a extrema direita que ameaça a democracia na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina.

Ano após ano essa extrema direita vai exprimindo sob múltiplas formas o seu avanço, expandindo as suas fronteiras geográficas e o número de adeptos. Por último com uma de suas variantes, pois essa corrente se converteu numa Hidra de muitas cabeças, ganhou o governo da Itália, que, aliás não enviou representante à posse de Lula apesar de ter com o Brasil laços indissolúveis…

A guerra na Ucrânia se constrói e de ambos os lados com valores caros à extrema-direita, onde as provocações guerreiras da OTAN se encontraram com um nacionalismo capaz não somente de se defender mas de se sobrepor à humanidade russa ou ucraniana cujas vidas vêm sendo ceifadas num conflito sem fim.

Mas atenção, essa extrema direita dividida e em guerra pode dar lugar, é uma questão de tempo, a outra unida em torno de um projeto hegemônico e que poderá ser capaz, da Europa Ocidental à Rússia, de forjar uma frente comum em torno da ideia sempre presente em todos do supremacismo branco e anti-povo.

A eleição de Lula é, pelos mesmos aspectos que a tornam um norte de bússola para nós, também um norte de bússola para o mundo. Ela aglutina valores de resistência ao fascismo montante.

—–//—–

Voltando os olhos para o Brasil, a nossa resistência, por sua vez, criou os anticorpos que nossa democracia precisava para identificar e não mais tolerar os ataques fascistas ao Estado democrático de direito.

Preencher esse Estado de direito de sentidos para o povo é a única forma de torná-lo irreversível o que nos coloca diante de dois desafios igualmente prioritários: (a) derrotar os inimigos da democracia e (b) assegurar ao povo as conquistas e avanços da contemporaneidade sob todos os aspectos.

Tentando traduzir Lula na repetição enfática que fez pela igualdade em seu discurso quero dizer que:

Se a democracia não fizer sentido para o povo;

Se as mães tiverem que continuar a chorar seus filhos pretos inocentes e chacinados pelo Estado;

Se a juventude não tiver acesso à cultura e ao esporte;

Se os vulneráveis, populações em situação de rua ou idosos, não forem acolhidos;

Se as famílias pobres não tiverem onde desfrutar da vida nas periferias em espaços públicos de lazer saudável;

Se não humanizarmos as cidades;

Se tivermos 20 bilhões por ano para pesquisa universitária;

Mas não tivermos 7 bilhões por ano para edificar nas periferias a infraestrutura social necessária a esse salto;

e se acharmos que a vida dos mais pobres se limita a Moradia, Saúde e Educação, sem que todo esse mais seja priorizado;

correremos o risco de, por não enfrentar essa agenda, não conseguir derrotar os inimigos da democracia que podem reaparecer com um discurso salvacionista.

A vitória mais definitiva contra os inimigos da democracia será o salto de qualidade na vida do povo.

Como tenho dito e repetido, a missão histórica do Estado de direito é emancipar o povo, é assim que o consolidamos, é assim que podemos continuar a aprofundar a democracia. Não se trata, portanto, somente do desafio, mesmo que não seja pequeno e seja necessário, de ajudar o povo a sobreviver, viremos a página!

Possa tudo isso, já perseguindo a imagem icônica que vimos na subida da rampa, acontecer no Brasil!

Assim seja!

Ion de Andrade é médico epidemiologista e professor e pesquisador da Escolas de Saúde Pública do RN, é membro da coordenação nacional do Br Cidades e da executiva nacional da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela democracia

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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1 Comentário
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  1. FERNANDO CARVALHO DE GOES FILHO

    3 de janeiro de 2023 4:57 pm

    Excelente texto!!
    Médico que segue a linhagem de um Vulpiano Cavalcante e muitos outros, incluindo meu pai!

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