14 de julho de 2026

O futuro das relações Brasil-China, por Luis Nassif

Se Lula agir com cautela, mediando o conflito Rússia-Ucrânia, poderia reafirmar a presença brasileira nas instituições multilaterais

Um estudo do Carnegie Endowment for International Peace prevê uma relação internacional Brasil-China diferente dos dois primeiros governos Lula.

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A China aposta em uma relação de alto nível, e a demonstração foi o envio, para a posse de Lula, de uma delegação de peso, comandada pelo vice-presidente Wang Qishan.

Mas as circunstâncias são diversas do primeiro mandato.

Lá, a estratégia consistiu em uma parceria diplomática “entre iguais”, pretendendo uma voz mais equitativa para as nações do Sul Global. Dois países na periferia das instituições dominadas pelo Ocidente, trabalhando em uma cooperação Sul-Sul, como forma de construir uma nova geografia mundial.

Segundo o estudo, Lula foi fundamental para a formação, em 2006, dos BRICS – as economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No final do primeiro mandato de Lula, o comércio Brasil-China saiu de quase nada para US $60 bilhões.

Em 2009, a China já se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, e aportou no Brasil o recorde de US $7 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China para o desenvolvimento do petróleo offshore.

O Brasil passou a responder por 47% do investimento estrangeiro direto da China na América Latina. Entre 2010 e 2021, o Brasil recebeu US $22,47 bilhões da China Development Bank e do China Export-Import Bank.

Depois, mudaram as prioridades da China. As dificuldades da Venezuela e Equador em honrar seus empréstimos aumentou a relutância da China como financiador alternativo do desenvolvimento latino-americano, afetando o Brasil. Em 2015 houve o recorde de US $7,5 bilhões em empréstimos chineses ao Brasil. Na década de 2020, praticamente desapareceram.

Segundo a análise, o foco de Xi Jinping, o primeiro ministro chinês, não seria mais o BRI (Iniciativa do Cinturão e Rota), mas o novo programa, Iniciativa de Desenvolvimento Global, não apropriada para um país de renda média alta, como o Brasil.

Além disso, do ponto de vista diplomático, a ação chinesa já é vitoriosa na América Latina. Até algum tempo atrás, 15 dos 33 países da América Latina e Caribe reconheciam Taiwan como país independente. Agora, são apenas 8. Há relações bilaterais fortes e acordos de livre comércio com Chile, Costa Rica, Panamá e Peru.

Outro ponto foi a política externa da China focada, agora, em tecnologia e na capacidade de inovação própria do país. Há interesse da China em participar do estabelecimento de padrões internacionais para as novas tecnologias.

E aí surgem as disparidades com o Brasil, cuja pauta de exportações depende fundamentalmente de commodities. Capitais chineses já se instalaram no país, adquiriram, por exemplo, o aplicativo 99, enquanto a parcela de downloads de aplicativos dos EUA permaneceu estagnada nos últimos cinco anos.

A diferença entre o nível tecnológico de China e Brasil impede o status de “parceiro igualitário” que definiu as relações nos primeiros governos Lula.

Com a guerra tecnológica instalada, além disso, qualquer adesão brasileira a tecnologias chinesas poderá ser vista como hostil aos Estados Unidos, a exemplo da guerra do 5G.

Apesar da crise e do enfraquecimento da economia brasileira, ainda há trunfos que poderão ser manobrados por Lula. Graças às exportações de commodities, o Brasil é a única grande economia latino-americano a registrar superávit comercial considerável com a China.

A guerra comercial China-EUA fez as exportações brasileiras de soja dispararem para a China.

Com financiamento bilateral reduzido, Lula poderá ter acesso ao financiamento chinês através de instituições multilaterais, especialmente após a China ter estabelecido um fórum conjunto com a Comunidades dos Estados Latino Americanos e Caribenhos e fundado o Banco Asiático de Investimento em 2016.

Outra frente será a reafirmação da presença brasileira no BRICS. Se Lula agir com cautela, mediando o conflito Rússia-Ucrânia, poderia reafirmar a presença brasileira nas instituições multilaterais e dar continuidade à política externa multilateral dos anos 2.000.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    6 de janeiro de 2023 8:31 am

    No princípio do século XX o Brasil era extremamente vulnerável econômica e politicamente em virtude de ter se transformado no “caféstão” dos EUA. Agora, nossa vulnerabilidade existe porque viranos o “sojistão” da China. O estrago causado pela monocultura do café foi superada à duras penas com o surto de industrialização impulsionado por Getúlio Vargas. O legado dele, porém, foi destroçado pelos governos neoliberais comprometidos com a “sojistização” da nossa economia. Lula e Alckmin pretendem dar um novo impulso à industrialização. Mas isso será um erro se o Brasil se comprometer com a produção de produtos manufaturados segundo os padrões da revolução industrial anterior. O foco da reindustrialização do país deve provocar um salto adiante, mas isso não poderá ser feito se a China for apenas o destino da soja produzida aqui ou a fonte de investimentos em fábricas novas de produtos eletrônicos já manufaturados e projetados em solo chinês. É preciso inovar, Nassif. Mas a inovação exige a aplicação consistente de montanhas de recursos públicos por um largo período de tempo, inclusive com a possibilidade de prejuízos. Nos EUA o DARPA cumpre esse papel. Algo semelhante pode ser feito entre nós?

  2. José de Almeida Bispo

    6 de janeiro de 2023 9:47 am

    “A diferença entre o nível tecnológico de China e Brasil impede o status de “parceiro igualitário” que definiu as relações nos primeiros governos Lula.” Triste.

  3. M.A

    6 de janeiro de 2023 10:47 am

    O Brasil, mesmo sendo um país de renda média, ainda é de interesse chinês. É do interesse chinês um Brasil industrial, forte e independente, que possa ser um parceiro na construção de um mundo MULTIPOLAR nas Américas. A China não pensa em interesse econômico de países unitariamente, mas sim, em blocos regionais, países interligados. E o Brasil é essencial nisso. Dada a assimetria do Brasil e China, é importante fortificar a UNASUL e negociar em bloco.
    – As sanções dos EUA mostraram à China, o risco da dependência na importação de alimentos. Nesse ano, no encontro do Partido Chinês, que reelegeu Xi Jinping, a China colocou como meta a independência alimentar. E está formando grandes propriedades agricultáveis para a produção em escala de alimentos.
    -Os chineses já provaram que conseguem desenvolver setores produtivos rapidamente, como fizeram na produção de chips de 9 nanômetros. Questão de dependo para diminuir a importância do Brasil como exportador de soja.
    -A China aceita acordos pautados pelos países parceiros, ganha-ganha. A Etiópia, por exemplo, não aceita mais ser apenas um exportador de commodities, o Irã tem um acordo com a china, em que recebe bens manufaturados, mas com transferência de tecnologia em troca do petróleo.
    A China é o maior exportado de ferrovias e trens de alta-velocidade, assim como está fazendo com o Irã, poderia fazer no Brasil, com transferência de tecnologia, isso é do interesse dela também, pois interligariam todos os países Sul-americanos ao Pacífico.
    -Essas think tanks americanas, sempre prontas para apontar o caminho errado. 🙂

  4. Jogo duro

    6 de janeiro de 2023 11:15 am

    A regra de ouro chinesa ensina que não devemos fazer ao outro aquilo que não queremos que façam contra nós. Então é só torcer para que a China nesse momento de pressão geopolítica contribua para nossa recuperação industrial não?
    Precisamos agregar valor aos nossos itens de exportação, novas encomendas que fujam de soja em grãos, minério de ferro, proteína crua etc etc.
    Gerar trabalho e empregos industriais aos milhares rapidamente e aos milhões neste país.

  5. Flavio Emieni

    6 de janeiro de 2023 11:25 am

    O Carnegie Endowment for International Peace tá mais para ‘Wishful Thinking Tank’.

  6. Anônimo

    6 de janeiro de 2023 2:55 pm

    A china não pode ser desprezada , mas também não louvada pela intelectualidade de esquerda só por ser um país “comunista”. Eles querem mercados e são engolidores das indústrias locais. Não que estejam errados , pois precisam sustentar bilhões de bocas. Cabe a nós uma política ousada de reidustrializacao e ela deve ser iniciada pela construção civil, visto que nela não sao necessários grandes investimentos em tecnologia e a mão de obra não de quase toda a cadeia não requer larga escolaridade. Casa populares, infra estrutura geram empregos rapidamente e elevam a qualidade de vida de pessoas com escolaridade e renda mais baixa, principais lesados pela política econômica anterior. Os outros ramos da indústria podem ser compartilhados com parceiros externos , visto q em muitos deles não temos tecnologia própria.

  7. GalileoGalilei

    6 de janeiro de 2023 7:06 pm

    A Guerra tecnológica dos chips deslanchada pelos EUA contra a China desnuda a fragilidade estratégica na qual o Brasil se encontra diante do quadro que se avizinha. Precisamos retirar lições deste conflito e, dos limões atirados, fazer uma bela limonada ou caipirinha ao gosto de cada um. Precisamos anunciar ao mundo (China, Europa, EUA, Taiwan, Coréia, Japão, Índia, Rússia) que o Brasil pretende entrar com todas as forças no mercado de semicondutores. Nosso mercado interno pode não ser muito apetitoso em tamanho, mas pode se tornar mais atraente se este plano incluir os demais países do Mercosul. Abriríamos vantagens financeiras e tributárias às empresas da área que se instalassem em território brasileiro (e, dependendo de acordos também em territórios do Mercosul) e em troca exigiríamos: transferência de tecnologia; financiamento e formação de quadros científicos e tecnológicos; financiamento, criação e manutenção de laboratórios e centros universitários de pesquisa com tecnologia de ponta. As intenções brasileiras devem ser altamente pretensiosas para que cada um dos países perceba que ficar de fora ou até mesmo torpedear essa iniciativa poderia vir a ser um tiro no pé. Asseguraríamos, a todas as nações participantes, o acesso amplo a todos os produtos aqui produzidos de forma livre de quaisquer sanções porventura desejadas por outras nações. Ah… e para finalizar: que tal negociarmos a implantação aqui de uma Universidade piloto dos BRICS com professores e alunos provenientes dos países membros? A iniciativa tendo êxito, a ideia pode, e deve, ser levada posteriormente aos demais países da comunidade. Nesse panorama técnico-científico futuro não podemos pensar pequeno.

  8. Albertino Ribeiro

    6 de janeiro de 2023 8:58 pm

    Nassif, penso que o Brasil deve adotar com a China a mesma estratégia que o tigre asiático adotou com os países desenvolvidos que tinham interesse em investir em seu território, ou seja, fazer acordo de transferência de tecnologia.

  9. Eu

    7 de janeiro de 2023 6:45 am

    Trocando em miúdo, faz-se necessário atuação politica voltada aos interesses nacionais não aceitando as sabujice de qualquer outro Pais

  10. Carlos Aníbal Silva de Araújo

    7 de janeiro de 2023 6:58 pm

    No xadrez da geopolítica, não existe almoço grátis, importa saber negociar com maestria o preço do prato, isso, a China sabe fazer com muita propriedade. Então porque não juntarmos a fome com a vontade de comer? eles tem o que precisamos e, nós temos o que eles precisam.

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