REEXISTÊNCIA: o Discurso de Sílvio de Almeida marca, para além de novos rumos da política, uma nova sociabilidade por meio da produção de sentidos
por María del Pilar Tobar Acosta
Dar aula no dia 4 de janeiro de 2023 em uma instituição pública de educação brasileira teve um sabor totalmente distinto do amargo dos dias que se seguiram ao golpe perpetrado contra Dilma Rousseff e da podridão que provamos nos quatro anos do bolsonarismo com a caneta bic na mão. Foi um momento de redescobrir o chão de sala, pela sua potência na reexistência, retomando a liberdade de pensamento e podendo produzir conhecimentos efetivamente transformadores, sem medo de ser feliz. Foi, por meio da operação da tecnologia discursiva, que Sílvio Almeida construiu as bases simbólicas para profundas mudanças materiais que, esperançamos, viver nos próximos anos, e a reexistência foi a categoria à vez epistemológica e metodológica que serviu de argamassa para essa união e reconstrução.
O Professor Sílvio de Almeida dispensa qualquer apresentação, contudo, cabe reiterar sobre ele e sua produção, a robustez coerência e coesão entre a produção acadêmica e a sua atuação política, como militante dos direitos humanos. Em especial, seu livro Racismo Estrutural, que é e será consolidado como uma obra seminal para compreender e transformar a realidade social brasileira (tal como o foram o Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ou O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro), foi uma das obras lidas e estudadas pelo Presidente Lula, durante o seu encarceramento ilegal, sendo, portanto, uma das bases teóricas do novo governo, ressoando na práxis não apenas de Lula mas de outras/es/os membras/es/os da gestão que se inicia.
Neste texto, gostaria de propor um diálogo amplo sobre as palavras que seguem:
“Vou dizer coisas óbvias aqui: Trabalhadoras e trabalhadores do Brasil vocês existem e são valiosos para nós; mulheres do Brasil, vocês existem e são valiosas para nós; homens e mulheres pretos e pretas do Brasil, vocês existem e são pessoas valiosas para nós; povos indígenas desse país, vocês existem e são valiosos para nós; pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexo e não binárias, vocês existem e são valiosas para nós; pessoas em situação de rua, vocês existem e são valiosas para nós; pessoas com deficiência, pessoas idosas, anistiados, filhos de anistiados, vítimas de violência, vítimas da fome e da falta de moradia, pessoas que sofrem com a falta de acesso à saúde, companheiras empregadas domésticas, todos e todas que sofrem com a falta de transporte, todos e todas que têm seus direitos violados, vocês existem e são valiosos para nós”.
Focalizando o trecho do discurso acima transcrito, gostaria de relacioná-lo com o conceito de reexistência que emerge como neologismo e tecnologia solidária, a partir de movimentos sociais brasileiros e que, posteriormente, tem sido estudado pela academia. Ao mesmo tempo, gostaria de ponderar se esse discurso caberia numa aula de educação básica de língua portuguesa. Num esforço, também de popularização da ciência, parto do lugar de sistematização de conhecimentos da Análise de Discurso Crítica para entendermos como esse discurso é a expressão do domínio e da compreensão, por parte do Ministro, de como a tecnologia discursiva é central para a formulação de práticas sociais.
O texto em questão é um texto multimodal, pois é realizado a partir de diferentes linguagens, ou modalidades linguísticas, unindo o texto planejado por escrito com a sua performance no ato de transmissão de cargo. Observemos, de início, o texto verbal (aquele feito com palavras), na estrutura que se repete ao longo do trecho, temos a nomeação do/a/e interlocutor/a/e pelo uso de um vocativo que aparece na primeira posição de cada enunciado. Na linguística, chamamos isso de topicalização, processo de trazer para o topo, que é o lugar de maior potência de significação, por ser a primeira coisa a ser dita. Esse vocativo, termo que ver do latim vocare, que significa chamar, e é exatamente isso, é um chamado.
Quando analisamos o emprego desse elemento no discurso de Sílvio de Almeida, observamos que ele chama, para o diálogo, pessoas que, historicamente, foram invisibilizadas, silenciadas, exterminadas, e, obviamente, alienadas dos espaços de poder de decisão política sobre suas próprias vidas. Ao mesmo tempo, ao nomear, nominar, dar nome, ele promove a sua visibilização como seres humanos que são incluídos no discurso. Os nomes e, também, pronomes, que são palavras que substituem os nomes são elementos centrais na construção simbólica da existência material. Após o vocativo, temos o pronome, que pela gramática tradicional é de tratamento (como vossa mercê, ou vossa senhoria), mas que pela gramática funcional, é um pronome reto. Há, assim, a reiteração do vocativo não como sobre quem se fala, mas sobre com quem se estabelece o diálogo. Essa existência, na sequência textual é reiterada e ampliada pelo verbo existir, que entendemos ser um processo.
Assim, temos “vocês existem”, que se articula com uma outra oração em que o sujeito está elipsado (omitido) “são valiosas/os/es para nós”. Temos, aqui dois polos do discurso “vocês” – cidadãs/cidadãos/cidadanes brasileiras/os/es membros/as/es de seguimentos sociais atravessados por arranjos de violência e violação – e “nós” – que tem, igualmente, muitas camadas de significação, podendo ser o núcleo do poder executivo, mas também o todo da sociedade, representado por esse núcleo eleito para realizar essa representação.
Ser é um verbo de ligação, ou seja, ele liga conceitos/termos, assim, “vocês” é ligado ao predicativo “valiosos/as/es”, que funciona trazendo mais uma camada de significado para entendermos que são esses vocês, nesse caso, um adjetivo que é derivado de um substantivo – valor. Ser reconhecido como valioso/a/e, num mundo em que o ter vale mais que o ser, é um movimento discursivo que amplifica a potência do mero reconhecimento dessa existência.

Temos a construção de uma síntese discursiva que aglutina diferentes conceitos, em especial, gostaria de retomar o de reexistência. Esse termo busca dar nome a experiências vivenciais de pessoas que estiveram à margem, podendo continuar existindo apenas por sua luta contínua. Desse modo, trata-se de uma existência que resiste, ao mesmo tempo em que existe, ou que só existe, porque resiste, sendo um outro tipo de existência vivenciado por quem está em polos não favorecidos pelo poder simbólico. Não podemos falar em intencionalidade, a partir da Análise de Discurso Crítica, mas podemos observar, a partir de análises como a que apresentei acima, que há efeitos potenciais de significado (ou seja, efeitos possíveis), dessa maneira, podemos concluir que o texto de Almeida articula a ideia (ou discurso, que é uma forma socialmente constituída de compreender aspectos do mundo) de reexistência com o lema do terceiro governo Lula – “união e reconstrução”.
Conforme observado antes, o discurso de Sílvio Almeida além de ser realizado pela linguagem verbal, também é performado usando elementos da linguagem expressiva/gestual/corporal (som, intensidade, variações melódicas da voz; expressões faciais e gestos corporais). Desse modo, Almeida emprega uma série de estratégias de oratória, intensificando, a cada repetição amplifica o volume em termos de som e de engajamento da plateia que acompanha sua fala, ao mesmo tempo em que soma, conceitualmente, grupos sociais que são nomeados e chamados (pelo vocativo) para o debate político, pois têm sua existência (re)conhecida e valorizada.

A soma, a ampliação, a intensidade perfazem uma metáfora de uma (re)construção do conceito de povo ou nação brasileira como uma comunidade de pessoas que são diversas na sua existência, mas equivalentes em seu valor. Reconstrução essa que abraça a compreensão de comunidade de diferentes, presente no pensamento Ubuntu, em que a justiça efetiva só será quando todas/es/os forem reconhecidos/as/es como tal e tiveram os direitos humanos respeitados/as/es. Há diferentes conceitos que integram essa compreensão de humanidade, tal como o de justiça, em que o dano causado a um/a/e é o dano sofrido por todos/as/es. Bem como, incorpora o conceito de libertação, que compreende que a liberdade só poderá ser quando todas/es/os forem libertos/as.
No início de meu texto, falei do gosto dos novos tempos vivenciados a partir do chão de sala, em seguida, questionei se caberia levar a análise do discurso, foco desta reflexão, para aulas de língua português do Brasil como língua materna na educação básica, e, devo dizer, não só cabe como é urgente que façamos isso. Compreender os usos da linguagem, seu potencial para produção de arranjos sociais por meio da produção de significados, analisar textos a partir de categorias gramaticais, analisar a multimodalidade na performance da oratória, são temas centrais para tornar a formação básica efetivamente transformadora, sendo, a ciência discursiva de ponta, a base. Ao mesmo tempo, em todo o arcabouço legal que parametriza nosso trabalho em sala de aula temos a obrigatoriedade do trabalho transversal a todas as disciplinas (áreas de conhecimento) dos valores democráticos e do respeito e da valorização dos direitos humanos.
Os tempos são outros (dos de Brecht), em que dizer o óbvio é poder tornar o que dizemos óbvio. Estamos, efetivamente, reconstruindo o país sobre outras bases e assim atuaremos até que a dignidade seja costume. Esperancemos!
María del Pilar Tobar Acosta – (Bacharela e Licenciada em Letras Português, Mestra e Doutora em Linguística pela Universidade de Brasília. Professora EBTT do Instituto Federal de Brasília. Coordenadora do Ensino Médio Integrado em Administração e Coordenadora Institucional do PIBID do IFB)
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