14 de junho de 2026

A Lei da Ação e Reação, por Nadejda Marques

O garimpo ilegal não respeita fronteiras e comete crimes e violências tanto no lado brasileiro quanto no lado venezuelano.
Reprodução Rede Globo

A Lei da Ação e Reação

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por Nadejda Marques

O Relatório Final do Gabinete de Transição Governamental começa a avaliação dos direitos indígenas com uma pancada. “Os direitos indígenas nunca foram tão ultrajados e ignorados na história recente do Brasil como no governo Bolsonaro.” Em seguida, o relatório descreve o desmonte, os cortes orçamentários, o incentivo à grilagem e à exploração ilícita que resultaram em violência, morte e impunidade. São conclusões que embora estejam amplamente disponíveis, ainda precisam ser amplamente difundidas. Seja através de campanhas de comunicação, através de debates públicos, nas escolas, na mídia social, com a ajuda de influencers e tudo mais.

Se fosse assim, seria mais difícil para grupos bolsonaristas alegarem, como fizeram, que os Yanomamis que enfrentam grave crise humanitária e de saúde seriam venezuelanos e que sua situação calamitosa se devia à má administração do governo de Nicolás Maduro. Um disparate ridículo e cheio de más intenções. Toda vez que a máquina de propagação de informações falsas for ativada, é preciso combater sua desinformação e mentiras com dados e fatos, mas também ir além, acionar um contra-ataque ao estilo da lei da ação e reação.

Os dados são arqueológicos, históricos, geneticistas e linguistas e indicam que os ascendentes da etnia Yanomamis já se encontravam na bacia do Rio Orinoco e Parima há pelo menos mil anos. Existiam e viviam em um território imenso na floresta amazônica muito antes de existir um Brasil e de existir uma Venezuela. É por isso que seu direito às terras é definido como direito originário, isto é, anteriores à criação do Estado brasileiro. 

O fato é que desde a colonização, o avanço da sociedade através da atividade extrativista (recentemente na forma de garimpo ilegal) sobre seu território, força os povos originários a um profundo processo de transformação social que ora restringe a sua mobilidade, ora redireciona sua mobilidade para outros lugares. Isso garante minimamente a sua sobrevivência.

Outro fato é que o garimpo ilegal não respeita fronteiras e comete crimes e violências tanto no lado brasileiro quanto no lado venezuelano. Os dois países estavam impossibilitados de coordenar esforços de combate ao garimpo ilegal porque estavam com as relações diplomáticas cortadas. Felizmente, o novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reestabeleceu relações diplomáticas com a Venezuela e os dois países poderão trabalhar juntos contra o garimpo ilegal.  

O contra-ataque seria insistir na responsabilização do governo bolsonarista pela negligência e negacionismo no enfrentamento da pandemia da COVID-19. Demonstrar como as decisões do governo Bolsonaro durante a pandemia eram de total desrespeito e discriminação contra os povos indígenas e acabaram por restringir os serviços públicos e humanitários excluindo ainda mais os povos originários desde aqueles que habitam o coração da floresta aqueles nas periferias urbanas do país.

Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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