5 de junho de 2026

Por um novo CEITEC (II), por Renato Steckert de Oliveira

Trata-se de desenvolver inteligência num setor que está alterando em profundidade a economia e a sociedade contemporâneas

Por um novo CEITEC (II)

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por Renato Steckert de Oliveira

Em sua recente viagem à Argentina e Uruguai, o Presidente Lula reconstrói o campo político e institucional necessário à retomada do CEITEC em sua concepção original, conforme já expusemos neste espaço (“Por um novo CEITEC“, 18/01/23). De fato, a retomada do Mercosul como prioridade estratégica, incluindo a necessária discussão sobre sua modernização a partir das demandas do Uruguai, recolocam a necessidade de um projeto comum em tecnologia industrial avançada, sem o qual não superaremos o estágio de simples união aduaneira mais ou menos engalanada pela retórica política.

O desenvolvimento econômico da região passa necessariamente por uma política tecnológica e industrial comum, que responda às necessidades dos nossos povos em saúde, energia, preservação ambiental, comunicações, defesa e segurança, entre tantas outras, e, ao mesmo tempo, aumente a competitividade e participação das nossas economias nos mercados internacionais para além do padrão das commodities. Parte substancial dessa política, diríamos mesmo seu coração, é o investimento em micro e nanoeletrônica.

Reiteramos mais uma vez: não se trata de fabricar chips. A produção dessa commodity tecnológica está altamente concentrada (cerca de 90% dos chips de alta performance são fabricados em Taiwan) e os investimentos necessários para uma fábrica minimamente competitiva tornam extremamente difícil alterar essa estrutura de concentração. Mesmo os EUA veem sua estratégia de recuperar a liderança no setor questionada, dado o volume de investimentos requeridos e as dificuldades em alcançar o nível tecnológico dos seus concorrentes. De forma que a escassez de chips no mercado mundial não deverá contribuir para a desconcentração da oferta, pelo menos no curto e talvez médio prazos, e as nuvens da guerra que ameaçam a estabilidade desse mercado não alteram este dado fundamental: a desconcentração da produção exigirá investimentos na casa das centenas de bilhões de dólares.

Essa escassez também não serve como argumento para retomarmos a experiência frustrada da fábrica estatal CEITEC, como se tudo fosse uma questão de oportunidades de mercado. Afinal, não estamos discutindo um plano de negócios, e sim uma política pública, o que é substancialmente diferente.

Esta política pública deverá ter como foco inteligência e capacitação técnica e científica para o desenvolvimento de soluções em micro e nanoeletrônica que respondam às necessidades das nossas economias e dos benefícios sociais que elas devem gerar. O desenvolvimento conjunto dessas capacidades constituirá um elo indispensável entre os países do Mercosul, abrindo novos horizontes à sua integração. É neste sentido que o CEITEC deve ser pensado: como um centro multiusuários de pesquisa e desenvolvimento, articulando um ecossistema regional de micro e nanoeletrônica, estimulando a constituição de polos de desenvolvimento de projetos, as designers houses, em todos os países da região. Estas, articuladas com universidades, darão suporte à inovação das empresas com base na incorporação das soluções desenvolvidas. Como centro do ecossistema, o CEITEC deverá concentrar suas atividades no suporte ao desenvolvimento de projetos, atuando em fases críticas como testagem e encapsulamento de circuitos integrados, e mesmo fabricação, quando o nível de miniaturização dos componentes dos chips desenvolvidos permitir.

O essencial, no entanto, não deve ser perdido de vista: trata-se de desenvolver inteligência num setor que está alterando em profundidade a economia e a sociedade contemporâneas, capacitando a região a desenhar suas próprias estratégias no setor, evitando assim sua satelização irreversível na economia mundial. Num nível incomparavelmente mais avançado, a Europa articula suas iniciativas nesta mesma direção, e as novas perspectivas que se abrem para a concretização do acordo Mercosul / União Europeia podem e devem incluir acordos de cooperação nesta área.

Os investimentos requeridos serão vultosos, mas poderão e deverão ser compartilhados, tendo como base os bancos de desenvolvimento nacionais e regionais, como o BNDES e o Banco de Desenvolvimento da América Latina, entre outros.

O essencial é que, como ensinou Aristóteles, deixemos à Política a tarefa de desenhar a Arquitetura da iniciativa.

Renato Steckert de Oliveira – Ex-Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do RS

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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  1. Paulo Dantas

    7 de fevereiro de 2023 8:59 am

    Neste aspecto de polo faz sentido, vender chip não rola, ficou provado.
    Manda o artigo para [email protected]
    🙂

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