“Terrorismo” fiscal esconde cenário mais favorável para dívida pública
por Lauro Veiga Filho
O “terrorismo” fiscal praticado por analistas, consultores e operadores do mercado, abrigado acriticamente pela chamada grande imprensa, interdita o debate sobre soluções racionais e mais inteligentes na busca de um equilíbrio maior entre receitas e despesas e, mais relevante, escamoteia a discussão sobre a destinação dos recursos públicos por meio do orçamento. Além de distorcer um debate essencial para o futuro do País, o “terrorismo” impede que a opinião pública tenha uma visão mais próxima da realidade demonstrada pelos dados do próprio Banco Central (BC), que sugerem um cenário muito menos dramático para a dívida do setor público como um todo.
Em pouco mais de uma década, a chamada “dívida bruta do governo geral”, incluindo dívidas contratadas aqui dentro e lá fora pela União, pelo BC, governos estaduais, prefeituras e estatais, experimentou um aumento nominal de praticamente 180,9%, sem descontar a inflação. Considerando uma variação acumulada no período em torno de 82,1% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em termos reais, a dívida aumentou perto de 54,2%. O saldo da dívida avançou de R$ 2,584 trilhões ao final de 2012 para R$ 7,257 trilhões, num acréscimo de R$ 4,673 trilhões.
No mesmo período, a economia brasileira dobrou de tamanho, com o Produto Interno Bruto (PIB) experimentando uma variação nominal de 106,2%. A relação entre dívida bruta e PIB, como consequência, avançou de 53,67% para 73,12% na estimativa do BC para janeiro deste ano. O endividamento, proporcionalmente, havia sido muito maior em 2020, com consequência das medidas adotadas para enfrentar a pandemia e seus impactos sobre empresas e famílias. Naquele ano, a dívida bruta chegou a representar 86,94% do PIB. O percentual registrado no começo deste ano, de qualquer maneira, ficou abaixo mesmo da relação observada em 2018, quando a dívida havia representado 75,27% do total de riquezas geradas pelo País. Mas o percentual desaba para 45,41% do PIB se descontadas as tais “operações compromissadas” e as sobras de recursos do Tesouro estacionadas em sua conta única no BC, o que sinaliza uma situação muito menos dramática do que aquela considerada nas análises fomentadas pelo “terror fiscal”.
Crise desnecessária
A redução operada mais recentemente, em parte explicada por uma variação nominal do PIB mais acentuada do que o próprio crescimento da dívida e ainda pela entrada de recursos extraordinários relacionados ao pagamento de dividendos pelas estatais e à cobrança de contribuições e outros tributos sobre petróleo e outros recursos naturais, não tem sido suficiente para aplacar a “fúria” fiscalista e a sanha dos mercados. O “terrorismo” em curso busca oferecer ao BC as bases supostamente técnicas para a manutenção da política suicida de juros escorchantes, que tendem a empurrar a economia para mais uma crise, desnecessariamente.
Em outro dado escamoteado pelo “terrorismo”, os juros apropriados ao saldo da dívida bruta entre janeiro de 2013 e janeiro de 2023, portanto, em uma década, atingiram a astronômica soma de R$ 4,452 trilhões, o que explicou 95,27% do crescimento acumulado pela dívida bruta. Até porque, o setor público brasileiro havia recomprado R$ 33,274 bilhões da dívida em circulação no mercado. Para deixar claro, a recompra de títulos em poder do mercado deveria ter levado a alguma redução da dívida, o que não ocorreu justamente por conta da escalada dos juros.
Outras contas
Uma parte do aumento experimentado pela dívida bruta do governo geral entre dezembro de 2012 e janeiro deste ano (em torno de 13,3%) pode ser explicada pela variação do saldo das chamadas “operações compromissadas”, que correspondem a títulos emitidos pelo Tesouro e utilizados pelo BC para controlar a “liquidez” no mercado. O mecanismo permite que a autoridade monetária venda títulos diariamente a instituições financeiras para enxugar o excesso de dinheiro e manter os juros dentro da meta fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), atualmente em 13,75% ao ano. Os papéis são recomprados no dia seguinte pelo mesmo BC (daí o seu nome, já que são operações realizadas sob o compromisso de recompra).
Na realidade, as “operações compromissadas” não deveriam ser classificadas como uma dívida do governo, já que se prestam apenas para regular a oferta de dinheiro no mercado. Mas, na contabilidade do BC, ajudam a compor o estoque da dívida pública. Em janeiro último, aquelas operações somavam pouco mais de R$ 1,144 trilhão, representando 15,77% da dívida total, na faixa de R$ 7,257 trilhões.
Desde o final da primeira metade da década passada, os mercados e seus analistas “decidiram” que a dívida bruta correspondia ao indicador ideal para retratar a solvência do setor público, ainda que os governos tivessem créditos líquidos e certos a receber. Deixou-se de descontar, entre outros haveres, os recursos depositados pelo Tesouro na conta única que mantém no BC. A conta concentra as disponibilidades de recursos de todo o governo, destinadas a fazer frente a compromissos financeiros.
O saldo da conta única experimentou um aumento nominal de 158,81% desde dezembro de 2012 até janeiro deste ano, saltando de R$ 620,401 bilhões (12,89% do PIB) para pouco menos de R$ 1,606 trilhão (16,18% do PIB). Excluídas as operações compromissadas do saldo da dívida bruta e descontados os recursos da conta única, o estoque restante da dívida estaria limitado a R$ 4,507 trilhões em janeiro passado, correspondendo a 45,41% do PIB estimado pelo BC para os 12 meses encerrados no primeiro mês deste ano. A “dívida ajustada”, nessa conta, seria 37,9% mais baixa do que a dívida bruta e muito inferior à média dos demais países. Apenas para registro, a dívida dos governos em todo o mundo havia representado em torno de 97,0% do PIB global, no cálculo do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês).
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
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Lucas Reis
8 de março de 2023 12:35 pmNem acredito que eu consegui entender essa reportagem!
Anônimo
8 de março de 2023 9:43 pmEntão devemos comemorar que tenhamos uma dívida menor que a de média global mas a se aproximar, se é que eu entendi devidamente este texto , da metade do pib , o famoso o copo esta meio cheio ; Me responda caro autor, algum banco está endividado , banco de grande porte , mas temos um sistema economico que leva todas as nações do mundo a se endividarem enquanto coorporações privadas se tornam mais poderosas que governos drenando impostos por interedio de juros ? Não entendo de números, mas esse sistema me parece defeituoso e corrupto , mesmo que não leve ainda a humanidade ao colapso , algum dia levara e me parece em breve , opiniao leiga
josé Oliveira de Araújo
9 de março de 2023 9:16 amO BANCO CENTRAL DO BRASIL, É UMA ESPÉCIE DE PARCERIA PÚBLICO PRIVADA, ONDE O ESTADO ENTRA COM OS RECURSOS E O SISTEMA FINANCEIRO FICA COM OS LUCROS DA OPERAÇÃO. SE FIZERMOS UMA AUDITORIA DA DÍVIDA PÚBLICA VAMOS DESCOBRIR QUE GRANDE PARTE DOS TÍTULOS DA DÍVIDA EM PODER DO MERCADO FINANCEIRO, JÁ FORAM RECURSOS TRANSFERIDOS DO ESTADO E QUE SE TRANSFORMARAM NUM PASSE DE MÁGICA EM NOVOS TÍTULOS DA DÍVIDA PÚBLICA. ATENDENDO ASSIM, A LEI DO MENOR ESFÔRÇO DO MERCADO FINANCEIRO, DE GANHAR DINHEIRO SEM PRODUZIR NADA SIGNIFICATIVO PARA A SOCIEDADE.