Ai que saudades do Itamaraty
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Esta coluna destina-se a descomplicar a economia como ciência e como prática. Ocorre que as experiências que temos transparecem no que escrevemos. Se o pesquisador for intelectualmente honesto, ele deve deixar seus vieses muito claro na proposta de sua pesquisa, mas não pode deixar que suas crenças e suas paixões permeiem substancialmente seu trabalho, a ponto de o desacreditar. Também não é possível que se percam oportunidades para questionar a forma com que os meios de comunicação tratam certos temas. Isso pode fazer o colunista invadir o espaço do jornalista, o que se torna lícito desde que seja para contribuir com algo relevante.
Exatamente vinte anos atrás, por ser o único cavaleiro cego federado no mundo, também por ter chegado ao vice campeonato brasileiro de enduro equestre em 2002, fui convidado a escrever uma matéria na Horse Endurance International. Tratava-se de uma revista internacional, cuja cobertura do campeonato nacional devia-se à Cidinha Franzão, jornalista experiente que me repassou o convite. A matéria chamou a atenção do sheik Mansour Bin Zayed Al-Nahian, filho do então presidente dos Emirados Árabes Unidos. Este repassou ao seu pai, Zayed Bin Sultan Al-Nahian, que nos convidou para participar da National Day Cup em dezembro daquele ano, usando o então Presidente Lula como intermediário.
Naturalmente, nossa equipe aceitou o convite e lá fomos nós cavalgar no deserto. Mas não é isso o importante. Fomos recebidos com um jantar na nossa embaixada; no dia seguinte, demos uma entrevista coletiva no Sheraton Hotel de Abu Dahbi, em que o sheik Sultan (atual presidente) me repassou a carta em que Lula nomeava-me representante de meu país. No dia seguinte, outra entrevista para a BBC, já nos estábulos e, depois da prova, um jantar no hotel em que estávamos hospedados. Isso é algo de que um cidadão normal jamais se esquece. Numa conversa com o embaixador brasileiro, de cujo nome não me lembro, perguntei o que seria de bom tom presentear o Sheik Mansour, posto que a ideia tinha sido dele, bem como o patrocínio para transporte e estadia nossa e de nossos animais com todas as honras destinadas a um representante oficial. Fui instruído a dar algo que representasse nosso país, não necessariamente caro ou rico, mas que fosse um símbolo da nossa terra. Levei, da segunda vez em que estive lá, uma dúzia de sementes de marfim vegetal, típico dos índios da Amazônia Ocidental, que poderiam compor um colar.
Aquilo foi uma aula de diplomacia. Entendi por que chefes de Estado trocam presentes simples como camisas da sua seleção de futebol, colares de conchas e outros tipos de balangandãs. Esses são os verdadeiros presentes porque representam a cultura dos países, anfitrião e visitante. Essa prática explica as carpas, assassinadas em troca de moedas, doadas por Hiroito a Collor de Mello.
A imprensa brasileira tratou o presente mais importante, entre os pegos pela nossa aduana, como “um cavalinho dourado com as pernas quebradas”. Não publicou, por exemplo, os dizeres do pedestal, não levou em consideração tratar-se de um artesanato em ouro, uma verdadeira escultura de cavalo árabe, que é o símbolo da cultura local. Não passou pela cabeça de nossos jornalistas que as figuras mais emblemáticas dos sheiks apresentam-nos montados em garanhões de puro-sangue árabe tordilhos. Nada, nem os camelos, representam mais aquele povo que seus cavalos, que são a raça mais antiga de que se tem notícia, tanto que o enduro equestre também é conhecido como o “Esporte dos Príncipes”.
Quebrar as pernas da estátua equivale a matar as carpas, a furar com cigarro uma camisa da seleção assinada por todo o time do país ofertante. O desprezo pelos presentes recebidos demonstra a que chegou a ignorância de nossos representantes, depois de escanteado nosso serviço diplomático, outrora motivo de orgulho nacional. Só nos resta dizer, na esperança de que voltemos a ter um Ministério de Relações Exteriores condizente com as dimensões do Brasil. Ai que saudades do Itamaraty.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
Paulo Roberto de Almeida Asa Sul, Brasília, DF
14 de março de 2023 8:48 amGrande e singelo artigo por um vencedor.
Vladir
14 de março de 2023 9:15 amPor que o cavalo feito de “ouro” se era um presente que representa uma cultura?
AMBAR
14 de março de 2023 4:15 pm“Essa prática explica as carpas, assassinadas em troca de moedas, doadas por Hiroito a Collor de Mello.” Pois é, elegemos um governante com a sensibilidade de um jacaré e a cultura de um protozoário. Sendo assim, na elevada moral, bons costumes e acima de tudo, peixe é pra comer, ouro e pra vender, e como dizia Ibrahim Sued, cavalo não desce escada, então vamos quebrar-lhe as patas pra caber na bagagem. Quando penso em cavalo com as patas quebradas não posso afastar a idéia do ex-mandatário caindo de paraquedas, batendo no muro e quebrando as quatro patas. Ele caiu de paraquedas no governo, quebrou todas as nossas instituições e escoiceou o povo com as suas quatro patas. Agora é a hora do estábulo.