4 de junho de 2026

Paulo Arantes e o Pós-08 de Janeiro, por Jorge Alberto Benitz

Ler Paulo Arantes funciona como instrumento para apreender a realidade, aclarando pontos que, a mim ao menos, eram invisíveis até então.
Destruição em Brasília gerou tentativa de golpe, prejuízo de mais de 20 milhões e danos irreparáveis a obras de arte e mobiliário.

Paulo Arantes e o Pós- 08 de Janeiro

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por Jorge Alberto Benitz

    Li uma entrevista do Paulo Arantes na FSP [vide link]. Felizmente, ele voltou aos tempos em que escreveu o Dicionário de Bolso do Almanaque Philosofico Zero, não poupando mais FHC – como o vi recentemente fazendo em evento na Unicamp em homenagem a Roberto Schwarz – e até apoiando Lu la ao colocá-lo como alguém que tenta ao menos implementar uma política de “redução de danos”. Compreende- se esta leitura dele, uma leitura marxista que não vê saída a não ser a proposta pelo receituário marxista. Tudo que diferir disso está fadado ao fracasso. Parece, posso estar enganado, que quem é adepto desta visão ideológica, mesmo quando se trata de um intelectual da envergadura de Paulo Arantes, caso o mundo real divirja do que deve ser, foda- se o mundo real. Corrigindo,  para muitos, felizmente não todos,  que cultivam o paradigma ideológico marxista, não importa se ortodoxo ou heterodoxo, não existe espaço para soluções que levem em conta a realidade, isto é, caso o povo eleja uma maioria parlamentar conservadora, o negócio é “jogar a toalha no ringue” porque não tem mais jeito. Aliás, a democracia representativa é uma criação burguesa e estamos conversados. Tudo que resulta dela está maculado por este defeito de fabricação, inclusive, o modo de votar do eleitor que elege um parlamento conservador. O mundo assim visto, despido de toda a trama advinda da democracia representativa, é livre de complexidades.

    Não quero dizer que a visão de mundo de Paulo Arantes carece de complexidade, ao contrário. Ela é rica de insights brilhantes que não se lê em autores outros. Ler Paulo Arantes funciona como instrumento para apreender a realidade, aclarando pontos que, a mim ao menos, eram invisíveis até então. Tenho e já li quase todos os seus livros e os considero fundamentais para minha formação cultural, política e ideológica. Para ficar em pensadores brasileiros, ele, Roberto Schwarz, Flávio Aguiar, Carlos Nelson Coutinho e outros marxistas heterodoxos de igual quilate são leituras que me ajudaram a entender melhor o Brasil e o mundo, mesmo não sendo marxista. Por exemplo, a brazilianização do mundo é um achado que, embora não seja a primeira vez que ouço falar, é muito bem explorado por ele. Minha frustração é perceber que, a despeito desta importante contribuição de pensadores marxistas como Paulo Arantes, paira, sobre uma mente tão brilhante e profunda como a dele, o que entendo ser uma limitação na raiz de suas reflexões. Limitação no sentido dado por Norberto Bobbio quando diz “A ideologia, muitas vezes, serve mais como obstáculo do que como instrumento para apreender a realidade”.  O contraditório é que agora, diferente de outros momentos, ele está demonstrando que voltou ao tempo em que fez o Dicionário antes citado, isto é, mostrando estar sendo permeável aos fatos ainda que não abandonando o tom apocalíptico.

    Como sempre ele faz uma análise da situação atual do Brasil e do mundo que destoa de todo o resto das análises feitas por outros analistas. Uma agudeza sem par que, como já disse antes com outras palavras, lança novas luzes sobre os problemas contemporâneos, descontado o tom apocalíptico que sempre se faz presente em certo tipo de intelectual marxista como ele. Gramsci, com seu “Pessimismo da razão. Otimismo da Vontade” difere destes intelectuais ao pregar, dar enfoque maior, a luta pela hegemonia. Ele, me parece que parte do fato de que todos os avanços em defesa do meio ambiente e do Estado laico, impessoal e burocrático (no sentido de Max Weber); d e  respeito às leis e às normas de conduta social; de busca de garantia de condições de vida dignas para todos; assistência social especial com vistas à inclusão dos mais pobres; ensino universal de qualidade; respeito às diferenças étnicas e a todas as identidades culturais, religiosas e sexuais; defesa da política enquanto prática da negociação e do acordo; defesa da ciência, da tecnologia e das artes; defesa da mais ampla liberdade de expressão;  universalização das garantias jurídicas; defesa da sustentabilidade ambiental, etc., etc., etc. Enfim, tudo isso é questão menor, posto que o essencial, que é a economia, continua com a hegemonia capitalista.

    Faz-me lembrar um amigo pessoal que cultiva este mesmo tom pessimista e apocalíptico. Quando começou o governo de Bolsonaro, este amigo dava a entender, pelo tom permeado de medo e de derrota, que, nós, progressistas e democráticos e/ou de esquerda, não conseguiríamos sobreviver a ele e cá estamos meio estropiados, mas vivos e prontos para continuar a luta. Ressalte- se que este amigo apesar do tom assumido naquela nossa conversa, como bom gramsciano, não ficou “chorando as pitangas”, como se diz aqui no Sul para os que desistem; ao contrário, foi atuante e engajado o tempo todo durante o governo do Bolsonaro.

    Diferente de Paulo Arantes, acusando o seu eterno pessimismo, penso que os bolsonaristas presos após o 08 de janeiro não sairão da cadeia mais radicalizados, ao contrário. Acho que tiveram uma experiência da qual nunca mais querem reprisar. Outra discordância: Embora atribua valor inegável a vitória de Lula sempre faz questão de frisar que tudo que é feito tem um resultado mais paliativo do que capaz de ser considerado bom dadas as forças políticas, econômicas e sociais. A política do possível nunca é levada em conta no raciocínio deste tipo de pensador. Eles parecem ter, platonicamente, desenhada, a solução p erfeita e tudo que diverge deste modelo é visto como insuficiente, menor. Daí o apoio meia boca a Lula, permeado por um pessimismo que coloca como desimportante, ao não mencionar e comentar, a arregimentação da sociedade contra a extrema direita e esta última como futurosa, com um projeto, coisa que os progressistas democratas não têm. Melhor, Lula que foi eleito pelos mais pobres, que não esqueceram seus governos anteriores, pelos progressistas democratas e por um contingente menor de liberais conservadores, não tem um projeto.

    Salvadas as diferenças, que são imensas, este tipo de tom apocalíptico, muito comum em pensadores marxistas, lembra- me  os Mórmons que, não por acaso, se autodenominam A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, isto é, desde sempre estão à espera do final dos tempos e o retorno do Salvador. No caso deste tipo de marxista, como o capitalismo parece ser uma etapa insuperável, resta esperar e pregar o final dos tempos.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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