Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (XIX)
Naldim de Custaneira e a transmissão ancestral da Lezeira do Piauí
Por Eduardo Pontin
Naldim do Quilombo Custaneira, em Paquetá do Piauí, é sem dúvida alguma o maior cantador da nova geração da Dança da Lezeira do Piauí. Com 46 anos, Naldim vem sendo o responsável por transmitir às novas gerações de sua comunidade os valores, fundamentos e a ancestralidade desta expressão cultural. Esse repasse é feito tanto na própria roda de Lezeira, quanto em rodas de conversa no dia a dia.
A Lezeira vem sendo avaliada para se tornar Patrimônio Cultural Brasileiro. Por essa razão, a importância do ofício de Mestre Naldim (Arnaldo de Lima, 11/11/1976) ganha outra dimensão. Afinal, como salvaguardar um bem cultural senão por meio do ensinamento às novas gerações?
O Quilombo de Custaneira é hoje o reduto de Lezeira onde há mais jovens participando dessa brincadeira. De primeiro a Lezeira não admitia crianças na roda, porém, hoje Mestre Naldim permite que isso aconteça.
Um fator essencial para essa renovação da Lezeira praticada em Custaneira foi a inclusão de instrumentos percussivos, como atabaque, pandeiro, maracá e triângulo. Isso fez com que as cantigas fossem cantadas num andamento mais pra frente e a dança ficasse mais dinâmica, o que vem agradando o público jovem. Apesar de ser o responsável pela introdução de instrumentos na Lezeira da região Centro-Sul do Piauí, Naldim deixa bem claro em sua narrativa que aprendeu tudo o que sabe com os cantadores mais velhos.
Sua mãe, Dona Rita de Custaneira (1940-), Patrimônio Vivo do Piauí, foi uma de suas principais referências. Sua madrinha, Dona Chica Tomé (1935-), também Patrimônio Vivo do Piauí, foi outra mestra a lhe repassar valiosos ensinamentos na Lezeira.
Chica Tomé e Rita de Custaneira, que são Patrimônio Vivo do Piauí, auxiliaram na formação de Naldim.
Quando conversa sobre a Lezeira, a fala de Naldim é permeada de ancestralidade. Ao entoar cantigas, como
Adeus, Juvelina
Adeus, Juvelá
Adeus, Juvelina
Tenha dó do meu pená
é comum vê-lo citar quem lhe ensinou a cantiga, como neste caso: “essa lezeira só parece com Godelo”, em referência ao cantador de Lezeira da vizinha Comunidade Quilombola Mutamba, também em Paquetá.
Muito da Lezeira persiste nos dias de hoje graças a forma ancestral como ela é executada. Por ser uma dança cantada que intercala cantigas com quadras de versos, o modo com que essas estrofes são aprendidas é essencial.
No caso de Naldim, ele conta que cada cantiga lhe faz lembrar de um cantador diferente. Não só isso, ao entoar as quadras, Naldim afirma que muitas vezes reproduz a sequência do colar de versos que seus mestres executavam, numa impressionante prova de como a oralidade possui força suficiente para resistir ao tempo.
O próprio Naldim relata que numa roda de Lezeira, muitos ancestrais que já se foram ganham alma nova e são revividos afetivamente, num caldeirão de lembranças, emoções e profundo respeito embalado pelo vertiginoso e constante movimento circular da grande roda da dança da Lezeira.
Por isso, quando Naldim brinca a Lezeira, em seu canto, em sua pisada e em sua alegria estão presentes os saudosos Zé De Cecila; Seu Amânço; Manél Amânço; Inácia Canadá; Zeca de Hermelinda; Maria Cutia; Inácia Grande; Venâncio; Zuza Galo e muitos outros cantadores e cantadeiras de Lezeira.
Zé de Cecila, o maior cantador de Lezeira que Naldim conheceu, vive no jovem cantador.
Naldim pode ser considerado a personificação de Mestre de cultura, pois mestre não é apenas aquele que é muito bom em uma atividade. Mestre é, essencialmente, aquele que ensina o que sabe às novas gerações e tem consciência da importância dessa transmissão de saber. Entre os discípulos atuais de Naldim que pouco a pouco vêm aprendendo o nobre ofício de cantador de Lezeira, estão seu filho Mateus de Naldo (2000-), além de Chicão (1993-) e Vinicíus de Custaneira (2001-).
Dessa maneira, na Comunidade Quilombola Custaneira, a renovação geracional se mantém presente e ativa. Que os mestres de Lezeira de outras comunidades quilombolas e povoados rurais do sertão do Piauí tomem a lição ensinada por esse jovem mestre de cultura e tenham o cuidado de repassar aos mais novos as cantigas, versos, passos de dança, pisadas e todo o simbolismo que envolve essa brincadeira que precisa ser levada mais a sério pelos gestores públicos locais, com ações de preservação mais efetivas e constantes.
Encontro de Mestres de Cultura em Custaneira: Raimundão da Mutamba e Gabiru de Floresta (esq.), que são Patrimônio Vivo do Piauí, além do Padre Antônio Cristo (dir.), observam atentamente fala de Naldim.
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