10 de junho de 2026

Naldim de Custaneira e a transmissão ancestral da Lezeira do Piauí

Jovem cantador de Lezeira é referência no ensinamento deste bem cultural

Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (XIX)

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Naldim de Custaneira e a transmissão ancestral da Lezeira do Piauí

Por Eduardo Pontin

Naldim do Quilombo Custaneira, em Paquetá do Piauí, é sem dúvida alguma o maior cantador da nova geração da Dança da Lezeira do Piauí. Com 46 anos, Naldim vem sendo o responsável por transmitir às novas gerações de sua comunidade os valores, fundamentos e a ancestralidade desta expressão cultural. Esse repasse é feito tanto na própria roda de Lezeira, quanto em rodas de conversa no dia a dia.

A Lezeira vem sendo avaliada para se tornar Patrimônio Cultural Brasileiro. Por essa razão, a importância do ofício de Mestre Naldim (Arnaldo de Lima, 11/11/1976) ganha outra dimensão. Afinal, como salvaguardar um bem cultural senão por meio do ensinamento às novas gerações?

O Quilombo de Custaneira é hoje o reduto de Lezeira onde há mais jovens participando dessa brincadeira. De primeiro a Lezeira não admitia crianças na roda, porém, hoje Mestre Naldim permite que isso aconteça. 

Um fator essencial para essa renovação da Lezeira praticada em Custaneira foi a inclusão de instrumentos percussivos, como atabaque, pandeiro, maracá e triângulo. Isso fez com que as cantigas fossem cantadas num andamento mais pra frente e a dança ficasse mais dinâmica, o que vem agradando o público jovem. Apesar de ser o responsável pela introdução de instrumentos na Lezeira da região Centro-Sul do Piauí, Naldim deixa bem claro em sua narrativa que aprendeu tudo o que sabe com os cantadores mais velhos. 

Sua mãe, Dona Rita de Custaneira (1940-), Patrimônio Vivo do Piauí, foi uma de suas principais referências. Sua madrinha, Dona Chica Tomé (1935-), também Patrimônio Vivo do Piauí, foi outra mestra a lhe repassar valiosos ensinamentos na Lezeira. 

Chica Tomé e Rita de Custaneira, que são Patrimônio Vivo do Piauí, auxiliaram na formação de Naldim.

Quando conversa sobre a Lezeira, a fala de Naldim é permeada de ancestralidade. Ao entoar cantigas, como

Adeus, Juvelina

Adeus, Juvelá 

Adeus, Juvelina

Tenha dó do meu pená 

é comum vê-lo citar quem lhe ensinou a cantiga, como neste caso: “essa lezeira só parece com Godelo”, em referência ao cantador de Lezeira da vizinha Comunidade Quilombola Mutamba, também em Paquetá.

Muito da Lezeira persiste nos dias de hoje graças a forma ancestral como ela é executada. Por ser uma dança cantada que intercala cantigas com quadras de versos, o modo com que essas estrofes são aprendidas é essencial.

No caso de Naldim, ele conta que cada cantiga lhe faz lembrar de um cantador diferente. Não só isso, ao entoar as quadras, Naldim afirma que muitas vezes reproduz a sequência do colar de versos que seus mestres executavam, numa impressionante prova de como a oralidade possui força suficiente para resistir ao tempo.

O próprio Naldim relata que numa roda de Lezeira, muitos ancestrais que já se foram ganham alma nova e são revividos afetivamente, num caldeirão de lembranças, emoções e profundo respeito embalado pelo vertiginoso e constante movimento circular da grande roda da dança da Lezeira.

Por isso, quando Naldim brinca a Lezeira, em seu canto, em sua pisada e em sua alegria estão presentes os saudosos Zé De Cecila; Seu Amânço; Manél Amânço; Inácia Canadá; Zeca de Hermelinda; Maria Cutia; Inácia Grande; Venâncio; Zuza Galo e muitos outros cantadores e cantadeiras de Lezeira.

Zé de Cecila, o maior cantador de Lezeira que Naldim conheceu, vive no jovem cantador.

Naldim pode ser considerado a personificação de Mestre de cultura, pois mestre não é apenas aquele que é muito bom em uma atividade. Mestre é, essencialmente, aquele que ensina o que sabe às novas gerações e tem consciência da importância dessa transmissão de saber. Entre os discípulos atuais de Naldim que pouco a pouco vêm aprendendo o nobre ofício de cantador de Lezeira, estão seu filho Mateus de Naldo (2000-), além de Chicão (1993-) e Vinicíus de Custaneira (2001-).

Dessa maneira, na Comunidade Quilombola Custaneira, a renovação geracional se mantém presente e ativa. Que os mestres de Lezeira de outras comunidades quilombolas e povoados rurais do sertão do Piauí tomem a lição ensinada por esse jovem mestre de cultura e tenham o cuidado de repassar aos mais novos as cantigas, versos, passos de dança, pisadas e todo o simbolismo que envolve essa brincadeira que precisa ser levada mais a sério pelos gestores públicos locais, com ações de preservação mais efetivas e constantes.

Encontro de Mestres de Cultura em Custaneira: Raimundão da Mutamba e Gabiru de Floresta (esq.), que são Patrimônio Vivo do Piauí, além do Padre Antônio Cristo (dir.), observam atentamente fala de Naldim.

Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

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