
Por ALMEIDA
Palestra de Michael Löwy na FUHEM, com a participação de Jorge Riechmann e Santiago Álvarez, diretor da FUHEM Ecosocial.
O mérito das teses de Löwy está em dar centralidade a questão ambiental, no debate político da esquerda atual. Como primeira aproximação é benvinda, mesmo contendo algumas fragilidades na sua abordagem e uma incompreensão, sobre as questões levantadas pelas alas à esquerda das correntes decrescentistas.
https://www.youtube.com/watch?v=WIfoKGbYl5U
Essas correntes têm a plena compreensão, de que o capitalismo não pode viver numa economia em decrescimento; que para decrescer tem que superar as relações anárquicas da economia de mercado; uma economia em decrescimento deverá planejar política e democraticamente, o que decrescer, o que suprimir e o que deve realmente crescer; o diálogo e aproximação com o socialismo está dado, uma vez que colocam a necessidade de uma economia planejada.
A questão fundamental que Löwy não percebe, que os decrescentistas têm nítida, está nas limitações e esgotamento de recursos para o crescimento capitalista, notadamente os recursos energéticos. O decrescimento do sistema produtivo atual vai se impor por essas limitações, independente de qualquer agrupamento ou classe social, até mesmo das correntes decrescentistas; ele virá quando os recursos materiais da natureza estiverem deplecionados, pelo ritmo alucinante de predação que o capitalismo está a impor – nos últimos trinta anos, retirou se mais da metade do petróleo retirado, nos cento e cinquenta anos de sua história de exploração moderna.
A depleção de recursos provocará prolongada e crescente depressão do sistema produtivo. Se a esquerda não tiver uma consciência nítida do que está a ocorrer, não terá condições de ser protagonista, numa situação em que a barbárie pode se instalar, pela ausência de propostas consistentes e fundamentadas, para uma economia que oscilará por décadas sucessivas, entre a estagnação e a depressão.
alexis
7 de setembro de 2014 2:10 pmNOVO OSSO PARA A ESQUERDA ROER
O “capital não tem pátria” ganhou do: “proletários do mundo uni-vos”. Capitalismo e comunismo travaram importantes lutais globais ao longo do século XX. Hoje, com o capitalismo triunfante, surge mais um discurso globalizante: O Eco-socialismo.
“Se a esquerda não tiver uma consciência nítida do que está a ocorrer….”
O mundo global fornece á esquerda um novo osso para roer, um caça-bobos, uma ação dilatória, uma manobra de distração, para qualquer Eduardo Jorge da vida proteger a floresta e os recursos naturais, para gerar assim uma sobrevida ao sistema capitalista predatório. É o discurso da Marina, com aquela palavrinha “sustentável” que agora sabemos para quem serve: para continuar sustentando o mundo desigual em que vivemos.
Tom
7 de setembro de 2014 3:21 pm“A questão fundamental que
“A questão fundamental que Löwy não percebe, que os decrescentistas têm nítida, está nas limitações e esgotamento de recursos para o crescimento capitalista, notadamente os recursos energéticos. “
Essa visão desconsidera a gigantesca revolução tecnológica em andamento, pela confluencia entre nanotecologia, biotecnologia, robótica, tecnologias da informação, tecnologias de redes, que farão evaporar esses limites em poucas décadas.
A questão ambiental, nesse novo cenário de aceleração exponencial de nossa capacidade tecnológica se tornou mais complexa, infinitamente mais complexa.
O ambiente humano, natural e cultural está prestes a ser radicalmente transformado, e esse processo estará concentrado em puquissimas mãos, e o pior, as mesmas mão que controlam o capital, a energia, os alimentos, os meios de comunicação, de produção científica, enfim, levando esse controle a um patamar inédito e portanto desconhecido e de consequencias imprevisíveis para a vida no planeta conforme a conhecemos hoje.
Almeida
7 de setembro de 2014 6:33 pmO otimismo tecnológico.
Com toda a “gigantesca revolução tecnológica em andamento”, a forma das sociedades humanas obterem, mais de noventa por cento da energia que consomem, está resumida basicamente na oxidação de substâncias compostas de carbono. Um processo conhecido popularmente como FOGO. Vivemos no auge da Era do Fogo; é o mesmo processo usado pelo nosso ancestral Homo erectus, há trezentos mil ou mais anos. Não se enxerga nenhuma tecnologia de uso comercial na praça, que tenha a mesma versatilidade, custo baixo e facilidade de uso, para sua substituição. As fontes de obtenção moderna de fogo são três; o carvão, o petróleo e o gás, todas elas recursos não renováveis, com reservas finitas e previsão de esgotamento no presente século, que uma vez queimadas desaparecerão.
O otimista tecnológico é aquele sujeito que vai ao médico, com pressão alta, vinte quilos acima do peso e um histórico familiar de doenças cardiovasculares; declara na consulta que durante o dia, além de manter uma dieta muito gorda, fuma no mínimo dois maços e bebe meio litro de etanol, diluído em litros de diversas biritas. Encontra um médico, igualmente tecnotimista, que lhe recomenda para não se preocupar, uma “revolução tecnológica” está acontecendo, no futuro surgirão pílulas que tratarão as doenças decorrentes dos seus excessos, como um simples resfriado. Ele volta para casa e mantém todos os seus hábitos, na espera das pílulas milagrosas, num futuro de data incerta, provavelmente após o seu AVC. O otimista tecnológico acha que se pode jogar com o futuro da humanidade, com a esperança de tecnologias que não se sabe se serão viabilizadas. Ele vê as transformações tecnológicas rápidas acontecidas em pequenos gadgets e acha que a tecnologia de gigantescas plantas e processos industriais sofre transformações iguais.
A “gigantesca revolução tecnológica em andamento” não foi capaz até o momento, nem se vê um horizonte favorável para que venha a acontecer, de encontrar uma tecnologia com viabilidade comercial, para a substituição dos “modernos” automóveis de motores a explosão de combustíveis de hidrocarbonetos. Como se sabe, o “moderno” automóvel e o motor a explosão que o movimenta, são tecnologias criadas em fins do século XIX. Do mesmo século também são as máquinas elétricas aplicadas no uso comercial; motores, geradores e transformadores são praticamente os mesmos, com pouco ou quase nada de melhoria em seus rendimentos. Os navios movidos a petróleo surgiram, quando Churchil decidiu converter a marinha militar inglesa, em 1911, antes da I Guerra Mundial, de carvão para óleo, o que lhe deu grande vantagem no conflito; o então moderníssimo Titanic lançado no ano seguinte era movido a carvão. O “moderno” avião a jato apareceu há setenta anos, no final da II Guerra, e não se vê no horizonte tecnologia de uso comercial para sua substitução. As tecnologias “modernas” para obtenção industrial do aço, do cobre, do alumínio, da soda, da cal, do cimento e de muitas outras substâncias e materiais de largo emprego, são tecnologias datadas do século XIX ou muito mais antigas.
Tom
7 de setembro de 2014 8:40 pmPonto perdido
Não se trata de “otimismo tecnológico”, muito pelo contrario. Quem acompanha minimamente as tendencias e os pontenciais dessa confluencia tecnológica (que não deve ser o seu caso, já que você não a menciona em nenhum momento) sabe que existem motivos de sobra para temermos a concretização das piores distopias.
Almeida
8 de setembro de 2014 12:00 amNão se pode tecer roupas com tecidos inexistentes.
Você corre o risco de deixar seu cliente nu. Se uma empresa de engenharia pedir ao seu corpo técnico, um projeto para entrar numa licitação, eles não podem apresentar como solução a “confluencia entre nanotecologia, biotecnologia, robótica, tecnologias da informação, tecnologias de redes, etc”. Precisam de apresentar soluções reais, com materiais existentes para aquisição no mercado, técnicas comprovadas ou seguras de execução. Você poderia garantir com segurança, em que prazo, quando é que essas “confluências” estarão prontas e disponíveis pra serem usadas?
Já pensou se um encanador chegar na sua casa e dizer: “olha, doutor, eu vou consertar sua pia, com uma confluência futura de tecnologias”? Quem é que vai aturar até o futuro incerto, o síndico e a vizinha que lhe enchem o saco?
Não se planeja com o que virá a existir; vai que ele não venha ocorrer? Não estamos falando aqui de projetos para uma empresa ou corporação, essas podem quebrar que o estrago é limitado, mas do projeto de futuro para a humanidade. Vamos a alguns exemplos para você me dar resposta, sobre a “confluência” que pode ajudar na solução do problema.
Desde o final da última grande guerra, cerca de vinte por cento dos solos agricultáveis se perderam, a tendência de perda de solos é persistente e acelerada pelas práticas agricultura comercial existente. Leva-se três, quatro mil anos, no mínimo, para se formar um horizonte de solo que permita as práticas, da agricultura comercial hoje dominante. Como travar essa tendência? Como recuperar os solos perdidos?
Rochas fosfáticas, minérios com grande teor de fósforo, são recursos sabidamente limitados e rapidamente esgotáveis ao serem objeto de exploração intensa, como a hoje existente. Explica pra mim, como é que “nanotecologia, biotecnologia, robótica, tecnologias da informação, tecnologias de redes” poderão substituir, o uso do fósforo como adubo na agricultura?
Para cada caloria que ingerimos, gasta-se outra de petróleo, na cadeia alimentar que hoje sustenta a humanidade. A corrente mais otimista na discussão sobre o futuro do petróleo, diretamente ligada à indústria, aponta para um horizonte de uma geração, vinte e cinco anos, o declínio dos volumes que hoje retiramos na natureza; existem avaliações para esta ou a próxima década. Como se substituirá o uso do petróleo na agricultura e na logística de distribuição de alimentos? Quais serão os combustíveis que serão empregados em navios mercantes e na aviação civil? Veja bem, os aviões modernos são produtos com altíssimo grau de tecnologias embarcadas, quase ou todas que você cita estão incorporadas neles, mas se você não botar o querosene ele não voa.
Vejo que é economista e, pelo que demonstra, bastante interessado por tecnologia. Longe de mim ofendê-lo, tenho muitos amigos economistas e até porque o autor da frase foi também um renomado economista, como é que você responderia a conhecida pilhéria atribuída a Kenneth Boulding? De memória e tradução livre: “Qualquer um que acredite ser possível, sobre uma Terra finita, um crescimento perpétuo, ou é um maluco, ou é um economista”.
Um abraço.
Tales
8 de setembro de 2014 1:42 pmAlmeida disse
Almeida disse tudo.
Infelizmente não consigo ver uma mudança nessa lógica do crescimento infinito num horizonte que não seja o da catástrofe e colapso generalizados, quando já será tarde demais, justamente porque aos agentes que podem promover essa mudança interessa manter as coisas como estão. Eventuais milagres tecnológicos servirão pra dar uma sobrevida a minúsculos grupos de prvilegiados, que já estarão cercados por uma sociedade global despedaçada.
O mais triste é que quando o colapso chegar, esses agentes ainda se estarão no topo e manterão seus privilégios, na pior das hipóteses serão os últimos a morrerem.
Athos
7 de setembro de 2014 4:41 pmEstão querendo colar a lógica
Estão querendo colar a lógica ambientalista nas esquerdas.
Tem que ser muito idiota para fazer isso.
Os recursos do planeta não estão se esgotando. Aliás, mal começamos a arranhar a crosta. Petróleo idem.
alexis
7 de setembro de 2014 4:46 pmEsquerdinha, precisamos de mais sustentabilidade!
Almeida
8 de setembro de 2014 12:10 amSobre “esquerdinha”.
Aqui vão tipos assemelhados a você, com uma resposta adequada ao conteúdo do seu caráter.
Almeida
8 de setembro de 2014 9:08 amOnde é que existe petróleo em abundância?
Sobre a agenda das esquerdas, devo dizer que não conheço partido de esquerda que não critique, ao menos programaticamente, a predação ambiental capitalista existente, todos já expressam preocupações ambientalistas, o que ainda não conseguiram é uma compreensão consistente do problema, essa é a tentativa esboçada por Löwy, esse é o tema da postagem.
Sobre petróleo, as fronteiras onde se está descobrindo petróleo, no mundo de hoje, são três: os petróleos não-convencionais, ultrapesados ou provenientes de areias betuminosas; o petróleo de rocha compacta, obtido por frenéticas operações de fracking; o petróleo de águas ultraprofundas, na borda dos continentes, na região dos taludes continentais. Depois dos taludes, a probabilidade de se encontrar no extenso assoalho basáltico dos oceanos é nenhuma. Fala-se em levar a exploração para o dificílimo petróleo polar; tentativas de exploração comercial do querogênio, contidos em folhelhos betuminosos, foram recentemente abandonadas.
O simples fato de se estar explorando essas fronteiras indica, que as antigas fontes convencionais se esgotaram. De fato, a produção de óleo convencional está em declínio há quase uma década; grandes campos produtores como El Cantarel no México e o Mar do Norte na Europa estão em declínio. O México viu suas exportações caírem de forma drástica. O Reino Unido mudou sua condição de exportador para importador, o mesmo aconteceu com a Indonésia, que teve de abandonar a OPEP, por se ver na situação de importador.
Os petróleos não-convencionais têm baixas taxas de retorno energético (TRE), demandam muita energia para um baixo retorno de energia líquida. Gasta-se a energia de um barril de petróleo, para se obter cinco barris nas areias betuminosas do Canadá, uma exploração de petróleo de calamitoso impacto ambiental.
A corrente mais otimista e intimamente ligada a indústria do petróleo indica, que estamos em um platô de produçaão oscilante até os anos 2040, depois virá o declínio; haverá, portanto, o espaço de uma geração para nos preparar. Os pessimistas indicam a presente década, os moderados apontam para a próxima, mas com viés pesimista. Os problemas não eclodem quando o recurso está em esgotamento final, mas bem antes, quando se inicia seu ocaso e a produção entra em declínio. A era de esbanjamento acabou.
Athos
8 de setembro de 2014 6:27 pmQuando uma fronteira acaba,
Quando uma fronteira acaba, vamos para outra.
O fim das fronteiras é que é o fim do mercado.
Examine seu comentário e retire de lá as fronteiras que AINDA existem.
altamiro souza
9 de setembro de 2014 1:41 amo que gosto do michel lowy é
o que gosto do michel lowy é um vídeo no you tube com a maria rita khel que fala sobre walter benjamin – intérprete do capitalismo como religião, que tem a ver com a situação atual da política brasileira.
é ver e deliciar-se.