10 de junho de 2026

O Consumidor e a Taxa de Juros, por Luiz Alberto Melchert

Quando se adquire um carro financiado, compra-se um serviço equivalente ao uso do veículo antes de que ele seja propriedade do consumidor

O Consumidor e a Taxa de Juros

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Carros são, em qualquer lugar do mundo, altamente dependentes de crédito, daí ser o exemplo para esta matéria. Nos Estados Unidos, é o leasing a forma mais usual de aquisição, embora o aluguel, como visto em outra matéria noutro espaço, está chegando com força ao Brasil com o nome de “carro por assinatura”. Isso não deixa de ser uma forma de antecipar consumo, ou seja, primeiro usa-se o bem, depois paga-se por ele. A intenção desta matéria é mostrar por que a variação da taxa de juros não afeta significativamente o número de carros e outros bens duráveis vendidos, ao contrário do que defendem alguns economistas. Eles defendem que a elevação da taxa de juros restringe consumo, impedindo que eles subam, combatendo inflação. Não que deixe de afetar, mas o efeito é muito menor que o necessário a restringir o consumo em geral e do carro em particular. Infelizmente, são esses profissionais que fazem o elo entre o mercado financeiro e o lado real da economia.

O método mais usual para financiamento dos automóveis é o da Tabela Price, inventado na França do século XVIII. É que a ideia das progressões aritmética e geométrica tiveram grande impulso a partir do matemático Carl Gauss (1777 – 1831), o que promoveu o surgimento da Matemática Financeira. Sem esse ramo de estudos, não haveria crediários, pelo menos não com razoável certeza de remuneração para o capital.

A Tabela Price tornou-se popular porque ela transforma o pagamento do empréstimo em parcelas fixas e os bancos são tão conscientes da lucratividade que costumam dar comissões poupudas aos vendedores das concessionária que fazem de tudo para vender o carro em parcela.

Antes de debater o tema, é preciso ter em mente que um financiamento é prestação de serviço e, partindo da convenção de que produtos dividem-se entre bens e serviços, ele é um produto como outro qualquer. Assim, quando se adquire um carro financiado, compra-se um serviço equivalente ao uso do veículo antes de que ele seja propriedade do consumidor. Por esse direito paga-se um prêmio ao financiador. Esse prêmio deve embutir o risco de crédito[1] e o risco moral[2]. Deve, igualmente, garantir uma renda maior ou igual à taxa livre de risco.[3].

A planilha a seguir, cujo download do exemplar dinâmico foi disponibilizado no final do texto, mostra que, se a taxa básica for de 13,75 % ao ano, a taxa mínima que uma financeira vai exigir para financiar um automóvel será de teóricos 1,04 % ao mês. Sim, teóricos porque a instituição empresta  para alguém mais cada uma e todas as parcelas do empréstimo que fez ao adquirente do automóvel. O segundo também paga parcelas, que serão emprestadas a um terceiro que, ao pagar, fornece recursos para que o banco empreste para uma quarta e assim por diante. Isso resulta no que os matemáticos chamam de Binômio de Newton. No fim de – digamos – cinquenta meses – o banco terá financiado compras (não necessariamente de automóveis) a 1.301 pessoas, sendo que uma só estará na última parcela, duas na penúltima, três na antepenúltima e cinquenta pagando a primeira parcela. É assim que os bancos “fabricam” muito mais dinheiro do que o governo consegue emitir. Isso permite que taxas aparentemente menores do que a necessária tornar-se atrativa possa ser  praticada, criando caraminholas na cabeça do consumidor.

Além disso um aumento de 0,5 ponto percentual numa taxa que vai de 1% para 1,5%, num exercício com R$ 100.000,00 de capital em 50 meses, eleva a prestação de R$ 2.551,27 para R$ 2.857,17, apenas 12 %, o que não faz o comprador mudar de ideia. Se fizer, ele sempre pode aumentar o prazo para sessenta meses, o que trará a parcela para R$ 2.539,34, mantendo a compra mesmo que o bem usado seja mais gasto ou que a renda fique comprometida por mais tempo. Isso é parte do que Keynes chamou de ilusão monetária.

Nos anos 1970 e início dos anos 1980, Mário Henrique Simonsen, então ministro da fazenda, tendo poder sobre o Banco Central, mostrava ter pleno entendimento da ineficácia da taxa de juros como remédio contra a inflação e limitava  o número de parcelas, o que seria impossível hoje com o BC tornado independente. Houve momentos em que a pressão por consumo era tanta que carros só poderiam ser financiados em seis meses o que, aplicando o mesmo exemplo, jogava a parcela para R$ 17.552,52, alijando 90% dos consumidores da fila. O normal, dependendo da necessidade de exportação para cumprir compromissos internacionais, eram prazos que iam dos doze aos vinte e quatro meses com prestações entre R$ 9.178,00 e R$ 4.992,41 respectivamente. Evidentemente, com um número menor de parcelas, o efeito multiplicador do crédito também era reduzido, fazendo com que as instituições financeiras necessitassem de taxas maiores para tornarem-se atrativas. Com seis meses, o número de financiamentos caía dos 1.301 acima para apenas vinte e oito. Os números mostram que o controle do consumo via prazo tende a ser mais eficaz do que via taxa de juros.


[1] O devedor quer pagar mas não tem dinheiro.

[2] Taxa paga pelos papéis do tesouro.

[3] O devedor tem dinheiro mas não quer pagar.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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