A hierarquia da solidão, por Adriana Maria Ventura
Não se nasce negro, a gente vai se tornando ao longo da vida. À medida que cresce, à medida que envelhece, vai se tornando cada vez mais negro. O negro é uma construção do homem branco, já li por aí. Quando é que se nasce negro? Quando é que se dá esse nascimento? Depende.
O da menina, o daquela menininha negra nasceu assim: sua preta suja, você não pode brincar com a gente! O de um amigo da menina: cara, você é muito preto pra ela. Ou do amigo do amigo da menina: tira esse boné, tá parecendo marginal! Isso dito pela professora numa sala de aula, em que outros garotos brancos também usavam boné. É o segundo nascimento, o nascimento mais sombrio e triste!
Depois seguem-se alguns rituais: filho (a) coloca uma roupa melhor, você não pode andar por aí assim, tira esse chinelo e coloca um tênis; não esqueça nunca, por favor, a carteira de identidade e nunca, em hipótese alguma corra ao ser abordado pela polícia.
E depois você vai aprendendo que alguns lugares não são para você e se você desafia essa regra, pode não ser lá muito bem recebido nesse lugar. Claro! Existem alguns dias, pouquíssimos dias, melhor dizendo, raríssimos dias em que você se sente profundamente bem, com a autoestima lá em cima e é totalmente capaz de desafiar as regras e entrar naquele lugar proibido, mas há dias, esses dias, quase todos, em que nem com a melhor roupa, o melhor sapato, a melhor maquiagem, a bolsa mais cheia de dindim, que seja capaz de fazer você entrar no recinto. Você se sente um lixo, um lixo ambulante existindo e vivendo num mundo que não te reconhece.
Aliás, reconhece sim! Reconhece como faxineiro, ajudante de pedreiro, diarista, mesmo que muitas vezes, essas nem sejam a sua real profissão. E deixo claro, claríssimo aqui, que também não há nada de vergonhoso nessas profissões, não é mesmo? Porque alguém tem de fazê-las. Alguém tem de lavar os banheiros, as vidraças, limpar chão, carregar a areia e a brita para construir a casa.
Alguém tem! Errado é que seja sempre a mesma mão preta ao longo dos séculos. Essa mão preta que constrói tudo. Essa mão preta, objeto de estudo de muitos pesquisadores, que limpa as carteiras das universidades, mas que quase nunca se sentam nelas. A mão preta que me embalou. A mão preta da preta velha na poesia de Drummond.
Essa coisa de ser negro é uma perdição! Uma perdição, porque você cresce achando que há algo errado com você, que seu cabelo é feio, seu nariz é feio, seu corpo é feio, sua pele é muito muito feia. Quando a Toni Morrison diz que Peloca rezava pedindo por um olho azul, pois assim as meninas brincariam com ela no recreio, ela não mentiu. Isso acontece! É mais real do que se imagina.
Leva-se uma vida, quase uma vida inteira para descobrir-se belo. E quando se descobre, tá quase na hora de partir. Outros não se descobrem nunca. Morrem feios!
Negro é um ser andando por aí com um buraco no peito! Quando a polícia atira na gente, seria assim, como uma espécie de déjà vu. Carregamos um tiro ao alvo desde o nosso nascimento, o segundo nascimento. Você sai para comemorar seu primeiro emprego com os amigos e leva mais de cem tiros na volta para casa. Sai num domingo para ir a um chá de bebê e é fuzilado com 80 tiros. Foi um engano, todos os fatos serão apurados com o máximo rigor.
E por mais que você seja o negro mais limpinho, mais cordial, mais boa praça do mercado, num dia, acontece um roubo no local que você trabalha e você é o primeiro suspeito. Meu Deus, agora vão me acusar, e o que há de ser da minha mãe, minha mãe, que desde sempre me ensinou a não pegar sequer uma agulha de alguém.
Você morre todo dia um pouquinho. Negro é um ser só, que vive a maior parte da vida em função do homem branco. Esse é meu amigo, é negro por fora, mas branco por dentro, nos conhecemos faz uma vida. Essa aqui é como se fosse da família, tá conosco há mais de 30 anos, viu os meninos todos crescerem.
A hierarquia da solidão: corpos aceitos e os não aceitos, os queridinhos da representatividade; os que não são nunca escolhidos, vivem à sombra, à margem.
Poderia listar mais uma infinidade de outras coisas que faz do mundo um lugar horrível para um homem que descobre-se negro, mas é MUITO CANSATIVO, ufffa!
Chegar aos cinquenta, viva, com saúde mental não tão detonada, vale mais que todos os protestos feministas, vale mais que os livros lidos de Marx, vale mais que seu estudo de necropolítica que discute os limites da soberania exercida pelo estado, na medida em que determina quem deve viver e quem deve morrer.
É isso! Estar vivo…no futuro quem sabe, estar vivo e com direitos e deveres garantidos. Vivos!
Adriana Maria Ventura nasceu na cidade de Santa Maria de Itabira, Minas Gerais; cursou Estudos Sociais pela Funcesi-Itabira. Dona de casa, mãe da Sofia e da Luana, esposa do Charles. Escrever e ouvir histórias é seu ofício mais prazeroso. Instagram: @adrianamariaventura. Facebook: Adriana Maria Ventura
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MUCIO LINHARES DA ROCHA
9 de maio de 2023 12:35 pmA primeira coisa a ser feita é REPUDIAR a palavra NEGRO, criada pelos racistas pra designar ESCRAVO. Antes de DESCEREM o PAU em mim, vão lá no EDITO DO ÍNDIO DO MARQUÊS DE POMBAL e aprendam. PRETOS assumam-se como PRETOS. Judeu não usa SUÁSTICA do NAZISTA usa ESTRELA DE DAVI.