
O SUS é utopico e opera alguns milagres com os recursos de que dispõe. Sejamos mais claros.
Qualquer promessa de melhora da saúde pública brasileira deve vir acompanhada de discussões sobre o financiamento. Não precisa ser um especialista para saber. Hoje o National Health Service, da Inglaterra, que nos serviu de inspiração, consome anualmente 109 bilhões de libras, ou quase R$ 403 bi. Isso para atender menos de um terço da população que temos no Brasil. Se quisermos adequar o orçamento à nossa densidade demográfica (sem considerar as sobrecargas de um país em desenvolvimento, como efeitos da violência e do ainda precário saneamento, sem contar a incomparável extensão territorial), teríamos que garantir, por baixo, R$ 1,3 trilhões, para garantir a mesma média de investimento por pessoa.
Ora, isto é simplesmente impossível. O orçamento total da União hoje, sem considerar, portanto, os recursos de estados e municípios, é de R$ 2,48 tri. É como se metade de todo o dinheiro disponível fosse bancar a saúde. Mas também queremos educação, infraestrutura, bons salários para profissionais, etc.
Está mais do que na hora de colocar a discussão às claras para a população. Mas há interesses em não abrir o jogo: governos não querem passar por incompetentes, pedindo mais dinheiro; a grande mídia gosta de esconder o drama do subfinanciamento para jogar políticamente com a falta de informação; oposições se aproveitam para prometer o impossível; por fim, entidades representativas dos médicos usam de demagogia para garantir benesses corporativas. Não precisamos nem falar do lobby de planos de saúde, responsáveis pela campanha contra a CPMF.
Está todo mundo errado. Grande parte da população realmente acredita que é possível fazer saúde (universal e gratuita) de país desenvolvido com PIB de país em desenvolvimento. Ou nos contentamos com menos. Ou temos que discutir novas fontes.
Para piorar, um maldito lugar comum que se reproduz como bactéria: bastaria ter melhor gestão e eliminar a corrupção. Ora, nem a Inglaterra conseguiu fazer isso. Os recursos perdidos naquele país, com fraudes e corrupção, chegam a 7 bilhões de libras, ou quase 26 bilhões de reais, anualmente. Nada garante que nossos desvios e desvãos superem, proporcionalmente, esta marca.
Portanto, a discussão prévia e necessária é: mais dinheiro. O resto é complemento.
Por outro lado, diante de um quadro como este, se o SUS ainda consegue ser visto como bom e ótimo para 30% da população, e ao menos razoável para outros 44%, nada se assemelhará mais a um autêntico milagre de gestão. Observe que o orçamento da saúde privada é proporcionalmente muito maior que a da saúde pública, e ainda assim consegue uma aprovação modesta da opinião pública.
Fontes:
Sobre fraudes no NHS: http://www.bbc.com/news/health-26654001
Sobre orçamento e funcionamento do NHS: http://www.nhs.uk/NHSEngland/thenhs/about/Pages/overview.aspx
Francy Lisboa
25 de agosto de 2014 6:11 pmQue magnifico esse post. Eu
Que magnifico esse post. Eu lembro o Lula falando que não se faz pais sem imposto e cairam de pau nele. Ao mesmo tempo, me dá uma ponta de tristeza em saber o quao estamos longe da maturidade para entender isso. E tem gente pre candidata que diz que não é preciso crescer..va-lha me Deus.
Ivan Coelho
25 de agosto de 2014 6:16 pmTemos realmente pouco dinheiro para o SUS
Temos realmente pouco dinheiro para o SUS. Mas esta conta comparativa não pode ser feita desta forma. O número de coisas que 1 dólar ou uma libra esterlina compram aqui no Brasil não é o mesmo que compram no Reino Unido ou em qualquer outro país da Europa. Por isto a Organização Mundial de Saúde faz algumas paridades a este respeito e calcula o dólar internacional. E, ao invés de fazermos a comparação com o dólar, sempre comparamos com a quantidade de coisas que um dólar consegue comprar em cada país. Independente disto, temos pouco dinheiro. A questão que deve ser colocada no entanto é: em que circunstâncias União e Estados ( em especial, pois os municípios ficam com uma parcela muito pequena do bolo tributário (cerca de 19%). Se não resolvermos a questão federativa em relação ao SUS e o seu formato de prestar assistência é pouco provável que consigamos mais recursos.
Jorge Luis
25 de agosto de 2014 6:19 pmNota 10! Foi para os
Nota 10! Foi para os favoritos e vou usar sempre que alguém vier com a conversa da “saúde do PT”. Bem que a Dilma poderia ter feito algo parecido no JN.
Francy Lisboa
26 de agosto de 2014 6:03 amEu também favoritei Jorge.
Eu também favoritei Jorge. Esse Blog traz informações muito úteis. Parabéns Weden.
stanilaw Calandreli II
25 de agosto de 2014 6:33 pmDois Brasis.
Alguém postou aqui, dias atrás, o texto Dois Brasis:
1. o Brasil da FGV, IBGE e IPEA que cresce distribuindo renda
2. o Brasil da Folha, Veja e Globo onde tudo vai mal.
E segue uma infindável lista de superioridades do Governo Dilma/Lula contra o de FHC.
Na saúde temos:
Gastos Públicos com saúde
2002 – 28 bi
2014 – 106 bi
Fonte: Orçamento federal
A diferença é grande, quase quatro vezes. Tem que ser mostrado aos brasileiros.
robson_lopes
25 de agosto de 2014 11:03 pmE você está falando de 106
E você está falando de 106 bilhões hoje, sem acrescentar o valor que foi cortado em 2008, de 40 bilhões de reais da CPMF, valor atualizado provavelmente pudesse somar 60 bilhões, ou seja, 60% superior ao orçamento atual, e isso absolutamente ninguém fala.
A CPMF golpeou o país de duas formas, primeiro, supreendeu o país cortando 40 bi de um ano para o outro sem indicar uma nova fonte, segundo, deu carta branca para a sonegação, uma vez que a CPMF poderia inibir, por rastrear toda movimentação financeira nos bancos, a sonegação. Logo, os valores citados aqui, poderiam facilmente dobrar ou triplicar.
Lucinei
25 de agosto de 2014 7:24 pmNem adianta. A metade do
Nem adianta. A metade do orçamento já esta comprometida.com o estamento financeiro. Sao os gastos mais sagrados. Essa que e a le do marcado.
Cão Danado
25 de agosto de 2014 8:13 pmSistema de regulação do SUS
O SUS costuma operar pequenos milagres e a maioria passa batido pela população e pela mídia . Algo que eu acho muito interessante é o SISREG – sistema de regulação de leitos do sus. Funciona da seguinte maneira – antes o sus recebia do hospital ou instituições conveniadas os relatorios da produtividade do hospital/ santa casa. Mas relatorios de grande porte como esse costumam esconder detalhes que servem as vezes para atos ilicitos. Agora o sus funciona como um plano de saúde; para “pagar” um procedimento , ele tem de “casar” a historia clínica, o codigo de procedimento do sus e o cid do paciente (Codigo internacional de doenças) e o cartão do SUS. Assim ele autoriza a internação e consequentemente regula quantos leitos tem disponiveis (ou não) pra cada especialidade dentro de uma cidade ou região. Com a regulação fica mais fácil o controle do que o paciente tem, o que foi feito de verdade com ele, quanto custou e qual a situação atual do paciente. Sem controle não é possível ter uma ideia clara de quanto dinheiro é preciso para melhorar o sistema nem onde esse dinheiro deve ser gasto. Com sontrole é possivel identificar as patologias que mais atingem determinadas regiões e inclusive quais saber melhores detalhes como a faixa etaria ou outros dados dos pacientes atendidos, e desse modo estabelecer campanhas educativas/preventivas mais eficazes. Além de que fica muito mais complicado para um hospital ou casa de saúde “forjar” atendimentos, uma vez que o sistema paga por pessoa atendida e não por pacotes como funcionava anteriormente. Evidentemente tem defeitos; os médicos costumam reclamar pois ele “aumenta a burocracia e o trabalho da equipe médica”, gestores de hospital reclamam que tem de desviar funcionarios e estruturas para atender essa nova demanda, mas ninguem percebe que isso é apenas o sus copiando medidas gestoras que já funcionam em planos de saúde. Talvez quando o Sus conseguir provar e controlar o quanto gasta e como gasta seu dinheiro, fique mais fácil de convencer a população que o dinheiro é curto, bem gasto , e que para melhorar é preciso mais verba.
Zé Mané
25 de agosto de 2014 9:21 pmEsses números estão em
Esses números estão em paridade de compra?
altamiro souza
25 de agosto de 2014 9:57 pmmuito bom o seu post,
muito bom o seu post, weden.
e a informação do stanilaw de que os gastos públicos na era fhc era em 2002 de 28 bilhões e em 2014 foi de 106 bilhões de reais.
aliás, 106 bilhões de reais sem contar com a cpmf,
extinta com a ajudinha nefasta dos tucanos e do dem…
Bruno Taunay Gripp Mota
25 de agosto de 2014 11:00 pmUma observação.
Muito bom o artigo, só não entendi a frase: “Grande parte da população realmente acredita que é possível fazer saúde (universal e gratuita) de país desenvolvido com PIB de país em desenvolvimento”. Salvo engano, temos um dos maiores PIBs do mundo, inlcusive maior do que o da Inglaterra.
Jorge Luis
25 de agosto de 2014 11:45 pmPIB total é uma coisa. PIB
PIB total é uma coisa. PIB per capita é outra. Divide-se o PIB total pelo número de habitantes. Apesar do PIB total ser parecido com o da Inglaterra, nossa população é 3 X maior.
Francy Lisboa
26 de agosto de 2014 6:00 amEu tbm não entendi como ele
Eu tbm não entendi como ele não entendeu algo tão básico.
telma
25 de agosto de 2014 11:17 pmO NHS e a utopia do SUS
Por que a aprovação média do SUS é de cerca de 70%? Vou contar uma pequena história:
Lidia, cerca de 80 anos, tia do meu marido, viuva de funcionário público do Estado de São Paulo tratou-se toda vida no Hospital do Servidor. Enquanto seus problemas de Saude se restringiam a Papanicolaus e controle de pressão foi-se levando, embora a demora por atendimento não fosse menor que no SUS.
Mas de uns dez a doze anos pra cá uma artrose nos quadris começou a se agravar de forma tão severa que a impedia até de se manter de pé, mesmo sem caminhar. Depois de vários anos sendo empurrada de um médico para outro e de entrar e sair de filas no Hospital do Servidor para ser operada uma das filhas perdeu a paciencia e contratou um plano de saude, esperou o prazo de carencia e teve a desagradavel surpresa de descobrir que ” nosso plano não contempla esse tratamento”.
Final da história: Lidia só não está paralítica hoje porque foi levada ao SUS , foi operada e está em franca recuperação.
Em tempo: ela e toda sua familia (afirmo mas não juro) é a favor de tirar “essa mulher horrorosa do governo do País, mas de manter Alckimin no governo do estado!
Alceste Pinheiro
25 de agosto de 2014 11:29 pmPT lobista????
Veja o que diz o texto: “não precisamos nem falar do lobby de planos de saúde, responsáveis pela campanha contra a CPMF”.
Quer dizer que o PT serviu ao lobby dos planos de saúde?
Está explicado. Bem que eu desconfiava.
Afinal, quando a CPMF foi proposta e aprovada pelo governo tucanalha, o PT foi radicalmente contra e colocou até suas tropas nas ruas.
Claro que tal só durou enquanto foi oposição porque quando chegou ao governo quis mantê-la. Perdeu.
Isso não foi mencionado no texto.
Eu fui a favor nas duas vezes.
Dulce (Madame X)
26 de agosto de 2014 3:02 pmO PT sabia, o que de FATO
O PT sabia, o que de FATO OCORREU…A cpmf NUNCA FOI APLICADA NA SAÚDE. Para lhe contestar, poderia trazer depoimentos de Dr. Jatene…mas certamente VOCÊ O DESQUALIFICARIA.
O PT, queria 100% para a saúde, e foram derrotados pelo DEM, PSDB, E PP ( isso é público e notório)
Depois queria a alíquota de 0,001 ( PARA PEGAR SONEGADORES FISCAIS)…aí é que foram contra mesmo. Pois sonegadores são filiados, ou admiradores, destes partidos. Os mais corruptos SEGUNDO O TSE. Mas essa informação, você também desqualificará. 🙂
Marcos Antônio
26 de agosto de 2014 1:15 amDilma!
Na hora de falar da
Dilma!
Na hora de falar da saúde, não fale simplesmente em atenção básica, mais médicos e etc…
DESENHE, peça para que os integrantes da CAMPANHA DESENHE, FAÇA ANIMAÇÃO!
Explicaque como os 14000 e tantos médicos vão reduzir a pressão na OUTRA ponta da saúde!
DESENHE PARA QUE NINGUEM MAIS FAÇA AS PERGUNTAS IDIOTAS COMO FEZ AQUELA APRESENTADORA!