5 de junho de 2026

São Domingos, a única revolta de escravos que foi vitoriosa

Sugerido por MiriamL

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Hoje na História: 1791 – Eclode a insurreição de escravos de São Domingos, atual Haiti

Por Max Altman, do Opera Mundi

Guerra levou à independência da ilha dos domínios coloniais franceses; negros, até então escravizados, passaram a receber salários

 

Na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, eclode uma violenta insurreição em São Domingos, colônia francesa das Antilhas. Escravos negros e alforriados exigem liberdade e igualdade de direitos com os cidadãos brancos.

Era o começo de uma longa e sangrenta guerra que levaria à independência da ilha: a maior das revoltas de escravos da história e a única que foi vitoriosa.

[Retrato de François Toussaint, o “libertador de São Domingos”]

 

Com o nome oficial de “costas e ilhas de São Domingos na América sob o vento”, a colônia era, antes da Revolução Francesa, a mais próspera das possessões francesas de ultramar graças as suas plantações de café e de cana de açúcar, além de seus numerosos escravos.

A colônia contava com cerca de 600 mil habitantes, dos quais 40 mil alforriados e 500 mil escravos negros regidos pelo Código Negro.

Os alforriados não tinham o mesmo direito dos colonos brancos. O título de ‘Monsieur’ lhes era interditado, o mesmo com certas profissões. Mas se beneficiavam de certa facilidade, eram muito dinâmicas e possuíam de um quarto a um terço dos escravos.

Devido à escassez periódica, diversas revoltas sacudiram a ilha no curso do século 18, porém foram uma a uma reprimidas. Na altura, os escravos representavam cerca de nove décimos da população, de longe mais que qualquer outra colônia.

Em 15 de maio de 1791, em Paris, a Assembleia Nacional aprova o direito de voto a certos “livres de cor”. Essa medida inquieta os fazendeiros brancos de São Domingos que passam a proclamar sua independência para preservar a ilha de ‘ideias sediciosas’ vindas da metrópole.

A decisão não satisfaz os interessados que reclamam uma verdadeira igualdade de direitos com os colonos, embora permanecendo fieis ao rei. Os negociantes brancos, que se beneficiavam da proteção aduaneira exclusiva, também se diziam fieis à monarquia, mas se opunham aos fazendeiros.

Alforriados mulatos, negociantes e fazendeiros começam a se confrontar, não hesitando a associar seus escravos à disputa e mesmo a lhes confiar armas.

Os ‘negros marrons’ – escravos que fugiram das plantações e se refugiaram na floresta – exigiam a abolição da escravatura no curso de uma cerimônia vudu no Bosque Caiman, sob a liderança do religioso Bukman, em 14 de agosto de 1791. Esta exigência desemboca numa insurreição na noite de 22 de agosto, com Bukman cercado de seus lugares-tenentes Romaine, o profeta, Hyacinthe, Georges Biassou e Jean-François.

Centenas de canaviais e cafezais são destruídos. Os brancos são massacrados. Os insurgentes negros logo recebem o apoio dos alforriados irritados com a execução de vários deles, entre os quais o célebre Vincent Ogé.

Os primeiros combates revelam o talento militar de um cocheiro de 48 anos, François Toussaint, filho de um africano de Benin e que recebeu uma educação sumária. Alforriado 15 anos antes, em 1776, pôde adquirir uma propriedade de 13 hectares e 20 escravos. Quando irrompe a insurreição, Toussaint não tarda em fazer prova de sua coragem e talentos de estrategista.

Em 28 de março de 1792, Paris estabelece uma igualdade de direitos entre todos os homens livres – salvo os escravos – mas esta nova medida chega tarde demais para conter a revolta.

Em 1793, a Espanha entra em guerra contra a França. Madri, que ocupava a parte oriental da ilha, propõe a Toussaint combater os franceses a seu lado em troca da promessa de liberdade geral. Os revoltosos aceitam e Toussaint recebe o posto de lugar-tenente geral das tropas espanholas. Para fazer frente a ele, a república francesa designa como seus comissários Sonthonax e Polverel, com um corpo expedicionário de 6 mil homens.

Os comissários decidem em junho de 1793 libertar os escravos fieis a Paris. Mais tarde, Sonthonax se resigna a uma liberdade geral, o que ocorre em 29 de agosto de 1793: “Todos os negros e sangue-mestiços, atualmente na escravidão, são declarados livres para gozar de todos os direitos ligados à qualidade de cidadão francês…”.

Três deputados de São Domingos ganham Paris e convencem a Convenção de generalizar a abolição da escravatura ao conjunto das colônias francesas pelo decreto de 6 pluviôse Ano II (4 de fevereiro de 1794).

Diante disso, fazendeiros não hesitam em apelar aos ingleses por socorro. Três meses depois, em maio de 1794, 7.500 soldados ingleses, vindos da vizinha Jamaica, desembarcam no Haiti e tomam a capital Porto Príncipe.

Em 18 de maio de 1794, o herói negro Toussaint muda de lado e faz frente comum com os revolucionários franceses, agradecido de ter libertado os escravos. A Convenção o nomeia general de divisão em 17 de agosto de 1794.

Os ingleses em São Domingos são finalmente derrotados e dizimados por uma epidemia de febre amarela à qual os negros passam quase incólumes. Toussaint retoma o sul da ilha de seu rival Ribot, e, em outubro de 1798, recebe a rendição definitiva dos ingleses.

Toma em suas mãos, desde então, o governo da ilha e se aplica em garantir os plantadores. Com a prosperidade aflorando, obriga seus irmãos de cor a trabalhar agora como assalariados nas plantações onde outrora eram escravos.

O libertador de São Domingos proclama, em 8 de julho de 1801, a autonomia da ilha e se autonomeia governador-geral vitalício.

Napoleão, irritado, envia a São Domingos uma expedição comandada por seu cunhado, general Leclerc a fim de se livrar dos “negros dourados”. Segue-se uma guerra impiedosa ao cabo da qual São Domingos – atual Haiti – se torna totalmente independente.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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9 Comentários
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  1. Marcelo F. Campos

    24 de agosto de 2014 6:43 pm

    O que essa “independecia”

    O que essa “independecia” trouxe de bom mesmo?

    1. Almeida

      24 de agosto de 2014 9:54 pm

      Outro grande “sábio”.

      Vou desenhar, mas sei que você não conseguirá entender: a independência trouxe o fim da E.S.C.R.A.V.I.D.Â.O.

      Sei que isso não significa nada para você, porque é um típico alienado pelo ultraindividualismo do nosso tempo; desde que não aconteceu consigo, você é incapaz de ser solidário aos que lutaram contra essa condição, daí não enxergar nisso nada de bom.

      1. Motta Araujo

        25 de agosto de 2014 12:04 pm

        Outros paises das Americas

        Outros paises das Americas tambem extinguiram a escravidão sem expulsar os brancos, o Haiti tornou-se inviavel por falta de elites, um pais não se constroe só com a massa analfabeta.

  2. Carlos G P Lenz

    24 de agosto de 2014 6:47 pm

    independente ???

    … a julgar pelo que vemos hoje, tirando as catastrofes climáticas/terrestres, temos uma vitoria de pirro !

    Isso demonstra que ganhar simplesmente uma “guerra”, não quer dizer que se tenha sabedoria, para andar daí para frente…

    Não sei porque, me fez lembrar certos “gritos de guerra” em um certo funeral recente… tomara que tenha sido somente má impressão.

     

    1. Almeida

      24 de agosto de 2014 9:38 pm

      Em resumo:

      A “sabedoria” para você significa, eles terem se conformados em permanecer escravos. Onde já se viu esse negócio de negros lutarem contra sua subjugação e quererem ser independentes??? Ora, ora!! Negro é para ser feito com angu por dentro e pau por fora, não é mesmo o que sua “sabedoria” recomenda?

       

       

      1. Carlos G P Lenz

        25 de agosto de 2014 2:47 am

        almeida

        O problema da “humanidade” é que normalmente se luta por um “ideal” e não se pensa o depois, quando este ideal é conseguido…

        As dificuldades e os descalabros acontecem principalmente, quando não se tem sábios ou eles são minoria e/ou não são ouvidos.

        Este é o caso do Haiti e de tantos outros paises ao longo da história.

        Fiz referencia aos “gritos de guerra”, pois me parecem situação análoga… do tipo vamos vencer esta guerra e depois veremos como fica.

        Entendeu ? ou quer que eu desenhe ???

        PS não faça “ilações” sobre o que penso sobre escravos e negros, pois você não me conhece… atenha-se a tentar entender o que escrevi e tenha humildade de perguntar se não entendeu.

         

  3. Motta Araujo

    24 de agosto de 2014 8:24 pm

    E assim foi criado um Pais

    E assim foi criado um Pais que é hoje simbolo mundial de miséria e desolação, muito pior que uma favela.

  4. J.Roberto Militão

    24 de agosto de 2014 8:38 pm

    HAITI a história não termina em 1801…

    Aos que consideram o Haiti de hoje como fruto daquela ´vitória´ desconhecem ou desconsideram os efeitos conjunturais e o contexto em que se deu o mal exemplo de São Domingos para todas as Américas escravistas, naquela virada do século 19, significou o maior e mais implcável bloqueio econômico de todos os tempos.

    O que os EUA fizeram com Cuba a partir de 1959 não se compara ao que foi feito com o Haiti, por quase dois séculos, com a desvantagem de não existirem outros aliados para socorrer a ilha independente como a Rússia, Espanha e outros fizeram e ainda fazem por Cuba.

    O Haiti de hoje é fruto de um dos maiores crimes continuados de lesahumanidade decorrente daquela justa luta pelo fim da escravidão e suas crueldades.

    O agravante da luta contra a escravidão em São Domingos é que ela se deu exatamente na fase de nascimento dos ideais iluministas e do surgimento da ideologia do racismo que se confrontaram ali no atual Haiti, pois a força desses ideais opostos, repercutiriam na América do Norte e América do Sul, tão extensivamente escravistas.

    Desde então os haitianos foram condenados a purgar exemplarmente pela ousadia de lutar pela liberdade e primeiros a derrotarem os escravistas, então símbolos do racismo nascente.

  5. Luana

    8 de julho de 2022 8:14 pm

    Essas pessoas nos comentários falam de uma forma tão sem noção…
    Então quer dizer que o certo era eles terem aceitado serem tratados daquela forma sem aos menos lutar por condições de vida melhores?? Você aceitaria viver daquela forma? Você não teria esperança ou tentaria no mínimo lutar por liberdade? Claro que eles estão assim agora, vocês viram a quantidade de dinheiro que o Haiti teve que pagar por ter conseguido essa “liberdade”, além de todos os países que apoiaram a independência do Haiti terem abandonado o país quando eles mais precisaram.

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