Uma noite na biblioteca
por Homero Fonseca
Lolita, Alice e Holden Caulfield brincam de esconde-esconde entre as prateleiras de livros. Recostado num dicionário, D’Artagnan ouve sonolento Sherazade, enquanto Athos, Porthos e Aramis disputam o amor de Capitu, sob o olhar enfurecido de Scarllet O’Hara. O capitão Ahab marcha pra lá e pra cá com sua perna manca, falando sozinho. Jean Valjean escuta Clara dos Anjos desfiar seus infortúnios. Édipo olha embevecido Pélagué Nilovna distribuindo panfletos de estante a estante. Pendurado numa fita marca-página, Tarzan tenta raptar Emma Bovary, mas é atrapalhado por Macunaíma. Riobaldo Tatarana parte pra cima de D. Juan, que seduzia Diadorim. Aproveitando a confusão, Raskolnikov mata Ana Karenina e foge. Sherlock Holmes chega para investigar o crime. Trava-se uma discussão generalizada e Dom Quixote, supondo tratar-se do alarido de exércitos inimigos, ataca todo mundo de lança em punho.
Era nesse mundo trepidante, colorido, emocionante que ele se refugiava do cotidiano cinzento, monótono e desesperançado.
[Trecho do meu próximo romance, cujo título provisório é Zelda – A arte da fuga triunfal.]
Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.
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