Pessoa e o teatro, por Izaías Almada
NO CINEMA NÃO? NO TEATRO SIM…
Em minha crônica anterior tive a oportunidade de comentar sobre a apresentação feita por mim para um projeto cinematográfico que narrava a hipotética viagem do poeta Fernando Pessoa ao Brasil, projeto ainda à espera de produtores e editais que possam tirá-lo da gaveta.
Alguns anos antes de me dedicar à escrita de O MARINHEIRO DAS NUVENS, título dado ao filme, participei de uma experiência teatral em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, trabalhando com dois grupos distintos, onde encenamos um espetáculo inédito até aquela altura no Brasil: um musical com os versos de Pessoa e seus heterônimos.
Em São Paulo, no ano de 1972, um grupo formado pelo diretor Silnei Siqueira, a atriz Jandira Martini, o diretor musical Murilo Alvarenga Jr., eu e Luis Raul Machado, nos reunimos durante alguns dias e discutimos intensamente como fazer uma peça com os versos de Fernando Pessoa, sem que fosse uma sequencia de poemas declamados e se transformasse – mesmo que bem interpretados – numa chatice cênica.
A decisão de musicar alguns poemas quando surgiu na cabeça de Murilo Alvarenga, foi aceita por todos.
Sábato Magaldi, um dos mais renomados críticos teatrais brasileiros, assim escreveu na época para o Jornal da Tarde:
“Os versos do maior poeta português foram montados como num diálogo entre as quatro personalidades diferentes sob as quais ele escrevia. Silnei Siqueira dirige, com a mesma sensibilidade que mostrou em ‘Morte e Vida Severina’. Os atores e a música constroem um espetáculo muito superior a simples recitais de poesia. Fernando Pessoa alcança a comunicação do show, com uma seleção de textos que se incluem entre os mais belos da nossa língua”.
O espetáculo estreou em São Paulo numa das salas do Teatro Ruth Escobar no bairro da Bela Vista, com a direção de Silnei Siqueira, ficando três meses em cartaz.
No Rio de Janeiro, a temporada também de três meses, aconteceu no Teatro Opinião no ano de 1974, desta vez com a minha direção e outro elenco.
Foi um trabalho, sob muitos aspectos, original, pois deu aos poemas de Pessoa, o próprio, e de seus principais heterônimos (Álvaro de Campos, Caeiro e Ricardo Reis), uma sonoridade e uma musicalidade que até então o teatro brasileiro não havia tentado: a poesia não declamada, mas interpretada, cantada e dançada.
O cenário era a recriação de um café concerto, com mesas e cadeiras para os atores, a participação de um pianista e um trio de violão, baixo e bateria.
Na época a jornalista e crítica Regina Helena escreveu:
“Fernando Pessoa” é um espetáculo medido, um jeito moderno e funcional de dizer poesia. Mais: a escolha dos poemas foi muito feliz, acertada, podendo dar ao estudante (e até ao público que, infelizmente, não conhece Fernando Pessoa), uma ideia muito boa sobre a sua poesia.
Termino essa crônica com alguns versos de Pessoa:
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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