5 de junho de 2026

O fantástico Show dos Titãs, por Luís Nassif

“Epitáfio” poderia descrever minha vida adulta quando fui tomado por minha paixão de perdição, o Brasil, e me impedi de ver o fenômeno Titãs.

Os anos 80 e 90 foram épocas de grande efervescência no rock nacional. 

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Acompanhei meio com ouvidos de MPB, curtindo mais a velha MPB, os nordestinos que surgiam, o choro e a música do Centro Oeste. Mesmo assim, me chamaram atenção o Legião Urbana – com Renato Russo, que tinha voz de cantor de churrascaria -. Paralamas do Sucesso, Kid Abelha.

Mas o rock muito pauleira não chegou a me cativar, com exceção do Raimundos, com seu som de repentista nordestino. Titãs passaram quase em branco. Só recentemente soube que integravam o grupo Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulo Miklos. A cara do grupo era Tony Belotto. Cheguei a cruzar com eles quando fui jurado em um festival de Avaré e eles se apresentaram no show de encerramento. Mas acabei voltando antes do fim.

Por isso foi um choque para mim assistir seu último show em São Paulo, acompanhando a esposa e o filho. Poucas vezes vi empatia igual à do Titãs e seu público. Estava acostumado à emoção civilizada dos fãs de Chico, Caetano, Gil, Milton, Paulinho da Viola, entoando suas canções, não aquela explosão visceral de um público de várias idades, respondendo a cada provocação do grupo.

E me deparei com músicas lindíssimas, retrato de uma rapaziada que, nos anos 80, especialmente em São Paulo, já sofria com a síndrome do trabalho exaustivo dos pais de classe média, em um período em que a crise econômica trazia enorme instabilidade e impedia qualquer ousadia maior. E que os estertores da ditadura soltavam as amarras de gritos travados na garganta.

Como “Epitáfio”, com um refrão lindíssimo: “o acaso vai me proteger / enquanto eu andar distraído”.

Epitáfio

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado
As pessoas como elas são

Formada em 1982, em São Paulo, a banda passou por várias mudanças em sua formação ao longo dos anos. O Titãs foi originalmente formado por Branco Mello, Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Ciro Pessoa, Paulo Miklos, Tony Bellotto e Charles Gavin.

Seu primeiro álbum, “Titãs”, foi lançado em 1984 e trouxe uma mistura de rock, punk e new wave, com letras provocativas e irreverentes. O disco chamou a atenção do público e da crítica, e músicas como “Sonífera Ilha” e “Bichos Escrotos” se tornaram hits instantâneos.

Em 1986, a banda lançou o álbum “Cabeça Dinossauro”, que foi um marco na carreira dos Titãs. Com faixas como “Polícia” e “Homem Primata”, o disco abordava temas sociais e políticos de forma contundente. O sucesso continuou com os álbuns seguintes, como “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987) e “Õ Blésq Blom” (1989).

Nos anos 90 a formação mudou com a saída de Nando Reis e Arnaldo Antunes. Os Titãs continuaram sua carreira com uma formação reduzida, contando com Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Bellotto, Paulo Miklos e Charles Gavin. A banda lançou álbuns como “Volume Dois” (1998), “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana” (2001) e “Sacos Plásticos” (2009).

Em 2011, Charles Gavin anunciou sua saída do grupo, e o Titãs continuou como um quinteto. A banda continuou lançando álbuns e realizando shows, mantendo-se relevante no cenário musical brasileiro. Em 2020, Paulo Miklos também anunciou sua saída, deixando o grupo com Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto.

Para a temporada atual, o grupo apresentou-se como um octeto. Vendo o entusiasmo de Vinicius, com seus 24 anos, do senhor ao lado, com mais de 50, de uma meninada adolescente, sou obrigado a admitir que “Epitáfio” poderia descrever bem minha vida adulta, quando fui tomada por minha paixão de perdição, o Brasil, e me impedi de ver o fenômeno Titãs.

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

Pelo menos, resta o consolo de que, nas inúmeras batalhas que travei, o acaso vinha me proteger, enquanto eu andava distraído.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    28 de junho de 2023 4:10 pm

    Kkkkkkkkkkkk E eu pensei que só era eu que demorei a me aprofundar na música dos Titãs; para hoje tê-los como referência prima.

  2. Ronald Juenyr Mendes

    28 de junho de 2023 4:24 pm

    Lindo texto e reconhecimento, Nassif!
    Titãs é a minha melhor banda!
    Sempre voltei extasiado, suado e rouco dos shows…
    Salve!

  3. Lio

    28 de junho de 2023 7:00 pm

    Tenho DVD deles.
    Kkkkkkk.

  4. Marquinho Carvalho

    28 de junho de 2023 7:32 pm

    Olá, Nassif! Gostei do seu artigo em homenagem aos imortais “Titãs”, mas faltou uma referência ao Marcelo Fromer morreu aos 39 anos no dia 13 de junho de 2001. Este show histórico reuniu a banda original e emocionou todos os meus amigos que os viram em Goiânia.
    Parabéns!

  5. eric fernandes

    29 de junho de 2023 5:48 pm

    Lindo texto Nassif. Nunca é tarde para descobrir coisas novas. E todo o gancho do texto é a música epitáfio

  6. Luciano Eguchi

    29 de junho de 2023 9:45 pm

    Receber elogios dos ótimos
    ouvidos do Nassif diz muito!

    Comprovam os elogios dos meus familiares, também músicos, que prestigiaram esse Showzaço.

    Eu não pude ir ao evento (estou fora do Brasil).

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