Boa noite Luis Nassif e amigos comentaristas. O texto abaixo foi escrito por minha amiga, Rejana Davi Becker, uma valorosa advogada e brasileira da melhor gema. Conhece Brasília e sua política como poucos. Vale uma reflexão na atual conjuntura.
GENEROSOS (por Rejana Davi Becker)
É cedo pra fazer retrospectiva, e nem se pretende, mas em um ano de tantos fatos marcantes no Brasil, talvez se possa dizer que 2014 tenha sido o ano em que foi dado aos brasileiros conhecer a Alemanha.
Não apenas a Alemanha do 7X1, mas a Alemanha do generoso povo alemão.
Tive a sorte de conhecer a Alemanha antes e uma Alemanha que talvez poucos conheçam e que acho ainda mais impressionante.
Dresden, cidade que concentrava, a época da segunda guerra mundial um dos maiores parques industriais da Alemanha foi, já com a guerra terminada, bombardeada e arrasada pelos americanos e britânicos, a mim, diz mais dos alemães que qualquer outro lugar ou fato.
Em Dresden chamam a cidade velha de nova e a nova de velha porque a primeira teve que ser reconstruída após a primeira guerra mundial e a segunda, após a segunda grande guerra. Nessa última, da qual não havia sobrado nenhum tijolo, também não sobrou nenhum homem para reconstruí-la, por isso há um monumento à mulher reconstrutora que foi quem refez a cidade. Não, não foi o Estado, foram as mulheres sobreviventes que viram seus marido e seus filhos ainda crianças de até 12 anos serem levados a morrer na guerra, que se reergueram e reergueram uma cidade e um País.
Dresden mostra a altivez do povo alemão. Mas vi mais na Alemanha. Lá, o Estado fornece refeições acessíveis a quem necessita. Ocorre que os cidadãos acham indigno ser alimentados pelo Estado. Assim o Estado coloca a disposição daqueles cidadãos 5 euros diários para que se alimentem. Basta que retirem o valor e comprem a comida, onde e como queiram. Poucos o fazem, pelo mesmo motivo que não buscam o de comer.
Estive em Cuba em início de janeiro de 2000. Faltava muita coisa em Cuba, aos cubanos, por causa do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos na década de 60 e que perdura até hoje. Faltava sabonete, tomate, carros, batom… Mas não faltava arroz e frajoles. Ou educação, saúde, bom humor e alegria.
Era uma época que alguns hão de se lembrar que não se passava uma semana sem que a miséria brasileira estivesse nos noticiários. Seca e fome no nordeste. Panelas vazias a encher a tela de nossas televisões. E não era só no nordeste. Uma semana antes de ir a Cuba vi uma reportagem chocante. Na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre, uma mãe fervia papelão a guisa de sopa para enganar a fome dos filhos.
Por vezes nos chegava ajuda humanitária do exterior para minimizar nossa miséria.
Continuamos um País onde falta muito, ainda. Aeroportos, estradas, portos, hospitais equipados… Mas não somos mais um País de miseráveis famintos.
Recebemos de Cuba o que Cuba ou qualquer lugar pode oferecer de melhor: sua gente. Quando os médicos cubanos cá chegaram foram hostilizados. Venceram-nos pela competência. Se alguém duvida, pergunte aos pacientes deles.
De outra banda, o Brasil está investindo dinheiro alto, com retorno financeiro para si, inclusive, em um porto cubano. Imperdoável aos olhos de muitos brasileiros! Mandar dinheiro pra Cuba???!!! Ajudar outro País? Pra que?
Aplaudimos e nos rendemos à generosidade do povo alemão, que nos deixou um hotel e mandou 100 mil euros para auxiliar os desabrigados da enchente no RS e esta semana anunciou mais de um bilhão de euros de ajuda humanitária à Coréia. Que nobreza! Que generosidade!
Quando o nosso País anunciou o perdão parcial da dívida externa de 12 países africanos, cuja miséria é ainda maior que a nossa até os anos 2000, houve um linchamento nas redes sociais! E as nossas estradas, portos, aeroportos, hospitais?
Redes sociais estas tão pródigas em enaltecer a generosidade dos alemães conosco e tão mesquinha em se doar.
Será o povo brasileiro o oposto do alemão?
Teremos nós vocação para pequenês, para mediocridade?
Quando aprenderemos realmente as lições que o povo alemão pode nos ensinar? Que quem constrói uma nação é seu povo, não seus políticos e que para ser um grande povo há que dar, também, e não só receber?
Com Joaquim Carlos Carvalho e Thiago Braga
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