Um dos destaques deste retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto tem sido a rearticulação de organismos multilaterais, tanto na região quanto no mundo. A Cúpula da Amazônia, iniciada nesta terça-feira (8), é mais um episódio desta realocação do Brasil ao papel de protagonista.
Desta vez, Lula costura conversas envolventes à Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que não se reunia há 14 anos, e em seu programa ‘Conversa com o Presidente’, tratou de posicionar a Cúpula da Amazônia como a “coisa mais forte já feita em defesa da questão do clima”.
No discurso de abertura do evento, Lula declarou que é preciso “retomar a cooperação entre nossos países e superar desconfianças. Queremos reconstruir e ampliar nossos canais de diálogo. Isso requer mudar não apenas a compreensão da Amazônia, mas também sua realidade”.
Por “desconfianças”, ao menos do lado da fronteira do Brasil, se trata da gestão Jair Bolsonaro, que além de atacar vizinhos ou se afastar deles, transformou a Amazônia numa terra sem leis, onde o garimpo ilegal foi incentivado, assim como queimadas criminosas, grilagens e retirada de madeira.
Lula lembrou nesta terça que a OTCA é o único bloco do mundo que nasceu a partir da questão socioambiental e que, dessa maneira, e também de acordo com o recrudescimento das mudanças climáticas, o bloco possui a capacidade de compor propostas de desenvolvimento sustentável longevas.
Conciliação de antagonismos
Nos primeiros sete meses de governo, o desmatamento na Amazônia brasileira caiu 40%. Há rumores de que o presidente Lula assinará a homologação de mais duas terras indígenas. Ao passo que projetos de poços de petróleo, linhões de energia, aberturas de estradas e projetos de mineração partem do governo.
Uma das marcas políticas de Lula é a conciliação de antagônicos em um projeto político. O lulismo é também a arte de administrar frentes amplas. Em seu discurso, Lula afirmou que a Amazônia pode acabar com o “lugar de subalterno” de fornecedor de matéria-prima.
“Eu não trabalho com a ideia de a Amazônia ser um santuário. Eu quero que a Amazônia seja um lugar em que o mundo tire proveito para experimentar a riqueza da nossa biodiversidade, para a gente saber o que a gente pode fazer a partir dessa riqueza da biodiversidade”, disse Lula.
O presidente do Brasil falou diretamente aos vizinhos da América Latina. “Em um sistema internacional que não foi construído por nós, foi-nos reservado historicamente o lugar subalterno de fornecedores de matérias-primas. A transição ecológica justa nos permite mudar esse quadro”.
Para Lula, a Amazônia é um “passaporte para uma nova relação com o mundo”. O presidente afirmou que se busca uma relação mais simétrica na qual os recursos não serão explorados em benefício de poucos, mas “valorizados e colocados a serviço de muitos”.
Evento amplo, ideias amplas
Compõem a OTCA a Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Para a Cúpula, foram convidados Congo, República Democrática do Congo, Indonésia, São Vicente e Granadinas, França, Alemanha e Noruega e representantes de instituições e bancos de fomento.
O presidente brasileiro já afirmou anteriormente que acredita que os países com floresta amazônica podem assumir o compromisso de zerar suas taxas de desmatamento até 2030. Nesta terça, em transmissão, ele cobrou apoio de governos locais para atingir a meta.
“Acho que minha obrigação é falar para todo mundo que o Brasil fará sua parte. Até 2030, teremos desmatamento zero nesse país. E não vamos fazer na marra. Temos que chamar todos os prefeitos e governadores e ter uma discussão, compartilhar com eles uma solução”, disse.
Ocorre que o presidente busca equilibrar preservação com desenvolvimento, o que se mostra um desafio. “Amazônia não pode ser tratada como um grande depósito de riqueza. Ela é uma incubadora de conhecimentos e tecnologias que mal conhecemos e começamos a dimensionar”, declarou Lula nesta terça.
“Aqui pode estar soluções para inúmeros problemas da humanidade, da cura de doenças ao comércio mais sustentável. A floresta não é um vazio a ser ocupado nem um tesouro a ser saqueado. É um canteiro de possibilidades que precisa ser cultivado”, completou.
Letícia – Belém
“A declaração presidencial desta Cúpula mostra que o que começamos em Letícia (Colômbia) e agora consolidamos em Belém não é apenas uma mensagem política, é um plano de ação detalhado e abrangente para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, afirmou o presidente.
No início de julho, Lula participou de uma reunião técnico-científica sobre a Amazônia, na Universidade Nacional da Colômbia, na cidade de Letícia, com ministros, autoridades locais e lideranças de comunidades indígenas da América do Sul.
Tal como em Letícia, o presidente Lula repetiu nesta terça, em Belém, que o tempo de punir “índios e caboclos” na tribuna das Nações Unidas pelas queimadas e destruição da Amazônia acabou, se referindo ao pronunciamento de Jair Bolsonaro na ONU.
Prévia da COP 30
A cúpula é tratada como uma prévia da COP 30, principal evento da Organização das Nações Unidas (ONU) para tratar das questões climáticas, que será realizado em 2025, também em Belém.
Lula anunciou a cúpula ainda antes de tomar posse, durante a Conferência do Clima realizada no Egito, no final de 2022.
“Quero também propor duas importantes iniciativas, a serem apresentadas formalmente pelo meu governo”, disse na ocasião. “A primeira iniciativa é a realização da Cúpula dos Países Membros do Tratado de Cooperação Amazônica.”
Já eleito, programou o encontro ainda em janeiro, no início do seu terceiro governo, tratando do assunto nos encontros bilaterais realizados logo após a sua posse.
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