10 de junho de 2026

Relato de seus partos: a experiência de um bebê prematuro, por Patricia Faermann

Esperei cicatrizar para escrever. Mas ainda não cicatrizei, estou nesse processo. Sem saber como começar, porque foi tanto, foi muito

Relato de seus partos: a experiência de um bebê prematuro

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por Patricia Faermann

Lembrete: Esperei cicatrizar para escrever. Mas ainda não cicatrizei, estou nesse processo. Sem saber como começar, porque foi tanto, foi muito, insisti com um objetivo claro: lembrar dessa dor, porque é preciso que se fale e para ser todos os dias mais grata.

Em tempos ouro de reconstrução da maternidade e do nascer, instruindo e ensinando a fazer esse processo mais humano e enriquecedor para a saúde integral do bebê e da mãe, fui surpreendida com um tipo de nascer relegado dessa condição, não falado nas rodas de gestantes, nos livros de maternidade e nos estudos de preparo. Não existe preparação para enfrentar a prematuridade.

E entre os rituais dos quais esperamos no gestar, o relato de parto é um deles. A descrição detalhada de como foi seu filho sair do seu corpo é um registro considerado sagrado, com diversos objetivos – preparar outras mulheres, desmistificar, etc., mas o principal deles é o de fazer a mulher se lembrar de como foi parir, porque nós nos esquecemos da dor.

Para a minha filha, narro a ela – e a quem quiser escutar – alguns relatos de seus partos. Foram muitos. 

*

Filha,

O seu nascimento teve muitas datas, muitas dores, principalmente muita resignação. No dia 21 de maio, após quase 20 horas de bolsa rota, com 31 semanas e 4 dias, você saiu de mim. Digo ‘saiu de mim’, porque precisei esperar mais 56 dias para ter você completamente em meus braços. O parto não foi nenhuma das muitas hipóteses das quais estudei para você nascer, nas dezenas de livros, aulas, cursos com os mais completos e diversificados especialistas. Da chegada mais natural à tão provável cesárea, estava tudo bem, você estaria nos meus braços com um mínimo de humanidade nesse processo.

Quando disse que você teve muitos nascimentos, também me refiro ao dia que conheci o seu pai, ao dia que decidimos juntos que queríamos, quando tivemos uma perda e também quando começamos a tentar. Todos seus começos, seus sóis. Mas no dia 21 de maio, muito antes da hora, seu pai estava no Chile. Você estava sentada (pélvica), eu já não tinha líquido no útero, soube com horas de antecedência que seria cesárea. E quem me segurou na noite da véspera até pouco mais das 7h da manhã, em 14 horas de trabalho de parto, foi a sua avó.

Por isso, também sobre o parto, preciso dizer que reivindicando ser mãe, voltei a ser filha. E ao perceber a dor dela vendo-me sofrer, entendi realmente ali o que seria ser mãe. Ela foi sustento, agarre, minha raiz.

Mesmo com cesárea, demorou porque tentamos segurar você dentro de mim, adiar a sua prematuridade. Consciente do meu corpo, a cada contração, eu contraia inversamente para não dilatar. Negava a sua saída, para que você ficasse mais. Por isso, a minha dor do parto foi triste, porque foi de negação, não de entrega. E sob muita, muita dor, consegui não dilatar. Dentro de mim, você precisava sair e tive contrações ininterruptas por 4 horas.

Já sem espaço para respiração, minha obstetra chegou e, em uma cirurgia veloz, eficaz, você nasceu. Mas o nosso parto estava só começando.

*

Foi quando fui jogada de um precipício, obrigada a experimentar a Golden Hour da medicina neonatal de risco, muito distante do conceito de mesmíssimo nome que as gestantes aprendem dos gestos importantes na primeira hora do contato do filho com a mãe ao nascer: contato pele a pele, registrar na visão do bebê a primeira figura da mãe (imprinting), aproximação do peito, amamentar, sentir o cheiro.

Conceito prévio a este da maternidade intencional e empoderada, a Golden Hour da neonatologia é a primeira hora que abdiquei de você para que profissionais pudessem correr pela sua sobrevivência. Porque você veio prematura. E em meio a tantas horas de estudo para o seu nascimento, me enxerguei completamente ignorante no que significaria os próximos dois meses.

No segundo dia na UTI neonatal, o pediatra que conduziria todo o seu tratamento anunciou que, mesmo nascendo com um bom peso de 2,265 kg, para pensar em alta seria preciso completar 35 semanas, ou seja, ao menos um mês. Foi o meu primeiro confronto mental com aquele doutor: “ele ainda não sabe que a minha filha já está desenvolvida, bastará alguns dias”. O doutor estava certo, e estaria em todas as inúmeras condutas que posteriormente tomou e eu confrontava, por dor, por amor, por tentativas de tirá-la logo dali.

Eu me lembro de pedir à obstetra prolongar minha alta da maternidade por mais um dia, porque seria um dia mais que eu estaria vivendo no mesmo espaço que a minha filha. No mesmo prédio.

Não se explica o que foram aquelas dores. Se me falassem que você ficaria 56 dias internada, eu não iria aguentar. Minha mente sucumbiria.

O que você tinha era apneia, lhe faltava ar. Não era apneia do sono, de bebê recém-nascido. A cada suspeita, novo exame, nova intervenção. E pensar que no seu nascer, eu insisti para que não colocassem colírio de nitrato de prata em seus olhinhos porque achava invasivo. Estudei isso nos cursos de gestante. Na UTI, você teve que passar por intubação, raios x, ressonância, medicações venosas, coletas de sangue, líquor, transfusão. Aprendi doendo que, para você, as intervenções foram necessárias.

*

A capacidade de adaptação do ser humano é uma das marcas que nos tornam resistentes à dor. Com um espinho no pé, no primeiro dia, o homem sente dor, no segundo, lateja menos, depois de um tempo se torna um incômodo, tolerável. Mas esta dor é diferente porque ela não diminuía, não se tornava mais tolerável. Em um dos meus confrontos no hospital, querendo a sua transferência para outra UTI, a chefe de enfermagem teve uma conversa cordial comigo. Disse que o coração de mães prematuras era calejado diferente para aguentar tanto. Eu minimizei na hora, depois percebi que ela me via, entendia.

Em um dos dias, conversando com outra mãe prematura, na nossa decadência humana, ela me fez sentir confortável de ter inveja. Inveja das mães que já podiam abraçar seus bebês no colo, das que puderam passar por emoções fortes de um baby blues comum no puerpério e das que amamentavam direto no peito. Levou quase um mês para eu poder amamentar você. E poucos dias para que eu perdesse esse direito. Outro parto esse.

O seu diagnóstico era muito delicado, você deixava de respirar ao mamar e tinha refluxo patológico. Eu tive paciência. Passava dia após dia tirando leite na bombinha manual à beira leito. Horas a fio no hospital para isso, das 6h, 7h da manhã até 15h, às vezes 17h. E depois retornava às noites. Sou grata por ter conseguido lhe dar colostro. Eu me emocionei muito nos 10 dias que você sugou do meu peito. Você conseguia, eu também. É natural no biológico, muito complexo no sentir.

Sobre isso, as mulheres foram obrigadas a subtrair a dor. Quando nos retiram o direito à dor a não poder amamentar e também de doer ao fazê-lo. Banalizadas a aceitar que quando conseguimos amamentar, quando sai leite, quando o filho consegue sugar, quando deixa de sair leite e quando é impedida de dar – por tantas situações -, não há dor. E como há, em cada uma dessas condições. O seu diagnóstico piorou e me pediram para interromper as mamadas por 3 dias seguidos, você voltou para a sonda. De tanto esperar, minhas mamas secaram.

*

Com o passar dos dias, os alarmes das máquinas ligadas aos bebês já não assustavam tanto, íamos aprendendo o que era cada ruído. Tentávamos encontrar espaços no hospital menos hostis para passar as horas, ver alguma graça de lar na pracinha com banco e na pequena capela. Também não se explica que as maiores angústias vivemos no caminho entre cidades – porque você nasceu em outra. Diariamente, nesse longo trajeto, dirigindo no escuro, não sabíamos como ia ser o dia, se você estava melhor ou não. Era no carro que tínhamos as conversas de pensamentos mais duras.

O esgotamento mental, porque nos aprofundamos em entender todas as variáveis de riscos fetais que mudavam a cada semana, e o físico das horas de jornadas hospitalares me faziam não ter clareza de pensamentos. Por isso, para as dezenas de mensagens me perguntando diariamente como estávamos, eu só queria responder: continuo esgotada e não sei como ela está, não sei quando terá alta. Mas optava por um “estou bem, ela está estável”.

Quando eu tinha clareza, estudava com cautela que tipo de expectativas poderia fazer. E a resposta era sempre nenhuma, apesar de fazer, porque era o que me levantava da cama. Você teve duas altas agendadas. As duas foram adiadas por intercorrências não esperadas. Era quase uma bandeira da equipe neonatal interna, dito semana a semana por médicos e enfermeiras: bebês prematuros não se calcula alta.

Nos dias mais difíceis, sem forças, quando eu despertava buscando você à beira cama, eu via pela janela os seus raios de sol, mesmo sutis, me dando bom dia. Inverno, foram dias de frio, mas de muito sol os que você avançou na UTI neonatal. E a alta chegou, na semana que você completava 2 meses de vida. Quando finalmente a levamos para casa, no dia 16 de julho, foi o seu último parto.

Às dezenas de mensagens que hoje respondemos felizes, “estamos muito bem”.

Com muito amor, mãezinha*.

*Na UTI Neonatal, assim somos carinhosamente chamadas e referidas pelos profissionais. À eles, friso o bilhete que deixei de agradecimento: Aprendi com vocês que ser mãe não é restrito às duas mãos de quem fecundou, fez crescer e pariu aquele novo ser. Quando as circunstâncias da vida naturalmente me retirariam a possibilidade de ter a minha filha, a ciência, pelas mãos de médicos, enfermeiras e técnicas tornaram isso possível. Vocês maternaram comigo. Serei eternamente grata.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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