4 de junho de 2026

Estados Unidos: O Balé da Sarjeta, por André Souza

Impressões e observações de uma pessoa comum que teve nesses 20 anos a oportunidade de visitar o país algumas vezes
Butô - A Dança das Trevas / Divulgação Sesc

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Estados Unidos: O Balé da Sarjeta

por André Souza

Algo mudou nos últimos 20 anos nos EUA, e não foi para melhor. Escrevo esse texto não como uma grande tese sociológica ou econômica, mas das impressões e observações de uma pessoa comum que teve nesses 20 anos a oportunidade de visitar o país algumas vezes, de grandes centros urbanos a cidadezinhas do interior saídas de qualquer comédia adolescente ou filme de terror. E é desta última que irei falar um pouco mais.

Champaign-Urbana (IL) está estrategicamente localizada 2h ao sul de Chicago-IL, 2h à oeste de Indianapolis-IN e 2h ao noroeste de St. Louis-MO, portanto três grandes centros urbanos de três estados distintos. É a cidade que abriga o campus principal da Universidade de Illinois (estado com o quinto maior PIB do país) e estive lá pela primeira vez em 2001, antes dos atentados de 11 de setembro, e a última (por hora) neste ano de 2023, com algumas visitas ao longo do tempo. É a típica cidade de classe média que vemos em filmes e séries de tv ou streaming. Sem prédios ou grandes edifícios, casas iguais, algumas com sua bandeirinha dos EUA na varanda de entrada, cesta de basquete na garagem, durante eleições colocam a plaquinha (comprada no Walmart ou semelhante) do seu candidato no jardim (foi lá que vi pela primeira vez o nome do então candidato Barack Obama ao senado por Illinois). Por abrigar uma grande universidade a cidade gira em torno dela e durante o verão boa parte da população volta para suas cidades e estados de origem. Não havia luxo ou ostentação, mas também não se via pobreza extrema nas ruas. Me lembro que em um verão que passei lá visitando um grande amigo eu o ajudei a organizar e distribuir alimentos na paróquia que ele frequentava para pessoas com dificuldades financeiras e essas pessoas iam buscar esse auxílio de carro, embora não fossem essas SUVs modernas me lembro de jovem achar curioso. Como eu dito, não se via pobreza extrema, mas algo mudou.

Julho de 2023, chego em Chicago e tomo um ônibus do aeroporto para ir até Champaign, no caminho até deixar a cidade haviam moradores de rua, mas não surpreende (infelizmente é a normalização da pobreza), Chicago é uma das maiores cidades dos EUA e a moradia é um grande problema que todas enfrentam. Obviamente há uma certa ironia anedótica quando pensamos que Chicago é um dos maiores centros financeiros do capitalismo moderno que tem entre seus arautos os famigerados “Chicago Boys” e possui o curioso apelido de Chiraque (Chicago + Iraque) por conta da violência urbana principalmente nos bairros periféricos. O que me surpreendeu foi que ao chegar em Champaign também haviam moradores de rua, algo que eu nunca havia visto naquela cidade. Naturalmente não na mesma quantidade que Chicago, mas estavam lá, latinos, americanos, brancos e pretos, jovens e pessoas mais velhas, algumas com crianças. Toda a “menagerie” capitalista representada.

Mas os problemas da cidade não se limitam só a moradia, com um grupo de brasileiros procuramos um campo para jogar futebol e ao sugerir um lugar, uma das pessoas presentes fez o singelo comentário “lá não é perto daquele lugar que tem tiroteio todo dia”, mais uma vez aquela sensação esquisita e que se repetiu conforme eu escutava do meu amigo, seus pais e outras pessoas sobre as mudanças que ocorriam na cidade. Um dos relatos mais preocupantes era relacionado a escola onde meu amigo estudou ao longo da sua adolescência. Inúmeros casos de violência, armas, presença constante da polícia, e, mais de uma vez, presença do FBI. O pediatra que atende ao filho desse amigo e que também estudou na mesma escola falava que praticamente todos os alunos sofrem de depressão e ansiedade. A economia também sofreu um baque (certamente também por conta da pandemia), um outlet que ficava próximo a cidade e que antes possuía pouco mais de 50 lojas, com alguns restaurantes, existe hoje com 13 lojas, sem restaurantes e os preços são os mesmos praticados em qualquer loja de shopping ou dos malls espalhados pela cidade.

Para não dizer de outros casos espalhados pelo país continental, lembro de ir a um bar em Houston-TX alguns anos atrás e deparar na entrada com um segurança que mais parecia o robocop ou o “point man” (a pessoa que numa incursão militar/policial assume o papel mais perigoso sendo o primeiro a adentrar um local de alto risco) dada a armadura dos pés a cabeça que ele vestia, capacete com viseira e outros apetrechos incluindo pistolas em coldres nas duas pernas – talvez ele pensasse que ia sacar as armas no melhor estilo faroeste – e eu só queria tomar uma cerveja. Em São Francisco e a região do vale do silício (uma das regiões mais ricas do país), meu amigo relatou que cansou de quantas vezes ele ou algum conhecido teve a janela de seu carro destruída enquanto estacionado.

Como falei no começo, não se trata de um grande exercício acadêmico e de pesquisa, mas de algumas impressões que eu tive ao visitar o país e principalmente de rever uma cidadezinha que a última vez que estive foi em 2011 e que deixou de ser um local pacato onde nada acontecia para sofrer dos males gerados por processos de gentrificação, a alta do custo de vida que expulsou moradores principalmente das três grandes cidades próximas para uma cidade que não possui estrutura para absorver e dar condições dignas de vida para um grande fluxo de pessoas. Violência urbana, degradação da saúde mental e tantos outros problemas. Os EUA sem dúvida passam por um período extremamente complexo e delicado e o futuro não parece ser tão promissor. Enquanto financiam guerras pelo mundo, golpes de Estado, etc, a orquestra continua tocando o balé da sarjeta e a miséria e degradação se espalham por todo o país até o último centavo do pedinte.

André Souza, analista internacional

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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