Victoria Villarruel, candidata a vice-presidente da Argentina pelo La Libertad Avanza, partido de extrema-direita liderado por Javier Milei, organizou um ato na Assembleia Legislativa de Buenos Aires no final da tarde desta segunda-feira (4) para homenagear as vítimas do que chama de “terrorismo” por parte de grupos políticos que enfrentaram a Ditadura Militar (1976-1983) no país.
Conforme organizações de direitos humanos, se trata de uma atitude negacionista que procura justificar o horror da última ditadura, que destituiu Isabelita Perón colocando em seu lugar o general Jorge Rafael Videla. Foram mais de 30 mil mortos e desaparecidos depois do golpe até o seu término.
“Estamos aqui para que a verdade histórica não seja falsificada nem que a memória coletiva seja ofendida”, responderam manifestantes de movimentos sociais e grupos de direitos humanos num documento lido ao lado da sede da Assembleia Legislativa da cidade – não foi permitida a entrada no ato.
Pouco se sabe o que Villarruel disse no interior do prédio. Tampouco seu discurso foi exposto a perguntas. Foram retiradas as credenciais de jornalistas pouco antes do início do evento e a polícia impediu o acesso de manifestantes e grupos de direitos humanos cercando as imediações da Assembleia.
Ocorre que para alguns pesquisadores e especialistas, não se trata de negacionismo por parte de Villarruel. “Não é um ato de homenagem às vítimas, é um ato de reivindicação”, disse a advogada Guadalupe Godoy.
Integrantes do Encontro Memória, Verdade e Justiça, Adriana Taboada aponta que Villarruel omite crimes em família. “Falemos da má-fé de Villarruel que fala de seu pai —Eduardo Villarruel— como veterano das Malvinas e esconde seu papel no genocídio. Quem pede memória esconde o passado”, diz Taboada.
O que pensa Villarruel
O que se sabe, conforme o Pagina 12, é que Villarruel disse, ao contrário do que sustenta a Justiça na Argentina, que “o terrorismo de Estado não existe”. Para a advogada, houve uma guerra no país. “Se esquecermos, tudo pode acontecer e não haverá forças armadas para contê-lo”, afirmou.
A advogada, desde 2006 envolvida com o tema, usa termos e conceitos dos grupos de direitos humanos e da Justiça de Transição para criar neologismos como “memória completa”, ou seja, alegando que é preciso apurar supostos crimes dos resistentes à ditadura e apontar as vítimas desses “terroristas”.
O que foi encenado, dizem grupos de direitos humanos, é a construção da figura da “vítima do terrorismo” selecionando casos emblemáticos anteriores ao golpe de Estado associado a elaboração de dados e estatísticas próprios que são difíceis de verificar. A isso Villarruel chama de “Verdade e Justiça”.
Na sede das Mães da Plaza de Mayo-Línea Fundadora, diferentes militantes começaram a se reunir para marchar juntos da Calle Piedras até a Avenida de Mayo. Eduardo Tavani, representante da Assembleia Permanente dos Direitos Humanos (APDH), declarou que esse tipo de deturpação histórica não é aceitável e precisa ter reação imediata.
Margarita Cruz faz parte da Associação de Ex-Detentos Desaparecidos (AEDD) e é uma sobrevivente do Operação Independência, onde o pai de Villarruel participou como instrutor de comando. “Eles foram assassinos do povo tucumano”, diz Margarita.
Ela não esconde a dor de ouvir o que a candidata à vice-presidência de Javier Milei lhe causa. “A memória se defende nas ruas. Os julgamentos foram construídos nas prisões e a anulação das leis de impunidade também. Não vamos permitir que questionem a nossa luta”, afirma.
Gestão Macri projetou Villarruel
Villarruel fundou, em 2006, o Centro de Estudos Jurídicos sobre o Terrorismo e suas Vítimas (Celtyv). Ela mesmo declarou que a iniciativa foi uma reação à reabertura dos julgamentos na Argentina por crimes contra a humanidade. Celtyv é um ramo da Associação da Unidade Argentina (Aunar), formada em 1993 por soldados que participaram da repressão.
Ocorre que a vice de Milei, também ele negacionista da Ditadura Militar, chegou ao grande cenário político justamente por esse tipo de militância. Durante a gestão de Mauricio Macri, em janeiro de 2016, o então Secretário de Direitos Humanos, Claudio Avruj, a recebeu.
O escritório da secretaria fica localizado no Espaço Memória e Direitos Humanos – antiga Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), centro de detenção, tortura e extermínio mantido pela ditadura de Videla. Neste local, o governo Macri transformou Villarruel em interlocutora para o tema.
Foi a primeira vez que um governo fez dela uma interlocutora válida para discutir o que aconteceu no país na década de 1970. Às vésperas do ato no Legislativo, Avruj saiu em apoio à iniciativa do deputado de La Libertad Avanza, partido de Milei: discutiu com um representante da Juventude Radical e negou que se tratasse de um acontecimento negacionista.
Narrativa similar
A narrativa de “guerra” usada por Villarruel, em que os militares enfrentaram “terroristas” e que, portanto, as medidas tomadas foram necessárias, é a mesma utilizada pelos membros das forças armadas e de segurança para justificar os seus crimes. No Brasil não é diferente.
No Julgamento das Juntas, o almirante Emilio Eduardo Massera disse ao tribunal que estava prestes a sentenciá-lo: “estamos aqui porque vencemos a guerra armamentista, mas perdemos a guerra psicológica”. Um precursor da batalha cultural que os “libertários” de Milei citam constantemente.
A repressão na Argentina criou mais de 700 centros clandestinos e 500 meninos e meninas foram roubados de seus pais e os desaparecidos foram jogados vivos de aviões ao mar para que nunca mais aparecessem.
Em 2003, Villarruel organizou cartas de jovens para serem enviadas para ex-torturadores presos, incluindo o repressor da ESMA Ricardo Cavallo, preso na Espanha, para dizer a esses condenados que a detenção deles era injusta e prestar solidariedade.
Villarruel também organizou visitas a Jorge Rafael Videla quando este estava em prisão domiciliária, sendo que diversos negacionistas da ditadura, hoje na política ou influentes no La Libertad Avanza, afirmam ter conhecido o general por intermédio de Villarruel.
Com informações do jornal Página 12 e Clarín
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