21 de junho de 2026

A visita ao Museu Fernando Pessoa, em Lisboa, por Jorge Alberto Benitz

Lendo o “Livro do Desassossego”, depois do retorno, associei o medo de agir de Bernardo Soares ao medo de ser plebeu, de cair no banal

A Visita ao Museu Fernando Pessoa, em Lisboa

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por Jorge Alberto Benitz

    Após retornar da viagem fiquei chateado pelo fato de ter estado na casa do Fernando Pessoa, hoje Museu, na rua Coelho Rocha, 18, Bairro Campo de Ourique, Lisboa, recentemente, e não ter aproveitado para ver se na biblioteca dele tinha algum livro do Nietzsche. Não vi Nietzsche.  Os que vi, em um passar rápido de olhos, foi Milton, Francis Bacon, livros de maçonaria, de astrologia, de Nostradamus – demonstrando ser verdade o seu interesse por teosofia, astrologia e ocultismo –, Montaigne, a bíblia, claro. Até tirei algumas fotos da biblioteca. O Walt Whitman e o Omar Khayyan estão colocados com a capa exposta em destaque, pelos organizadores da casa/museu. Com certeza, sabendo o quanto eram caros ao poeta. O interessante é que a capa do livro do primeiro e as páginas iniciais de apresentação do segundo estão todas cobertas de escrita com a letra pequena de Fernando Pessoa. Tem, também, autores desconhecidos e outros autores importantes que não lembro agora porque não me detive demais para ver todos aqueles livros lá expostos.

    Nietzsche vem à baila porque lendo o “Livro do Desassossego”, depois do retorno ao Brasil, associei o medo de agir de Bernardo Soares ao medo de ser plebeu, de cair no banal. Algo que soa nietzschiano, um olhar de alguém que acha ser superior. O paradoxo é, em atendendo esta premissa, incorrer em uma vida vulgar, medíocre, banal. Uma junção quase improvável de vida medíocre, lamentando viver, maldizendo ser, com pensamentos de homem superior. Portanto, sem a exaltação vitalista, tão cara a Nietzsche. Vida muito parecida com a do próprio Fernando Pessoa, que se caracteriza, como diz Antônio Mega Ferreira “Como poeta ele está acima do humano. Como homem, ele vive abaixo do normal” – dito reproduzida na biografia escrita por José Paulo Cavalcanti Filho.  Para corroborar esta parecença, o biógrafo revela Fernando Pessoa dizendo que, embora Bernardo Soares ““não sendo a personalidade minha, é, não diferente da minha, uma simples mutilação dela”. Ber-nar-do, sugere Nelly Novaes Coelho, tem o mesmo fluxo rítmico e sonoro de Fer-nan-do, e Soares , seria para ela, um anagrama de Pessoa, trocando o P pelo R.  Bernardo, por coincidência, é nome de oficial que aparece no Hamlet de Shakespeare, que sempre impressionou Pessoa.”

    Richard Zenith, que lançou recentemente uma biografia impressionante de FP, diz que, ao contrário de Bernardo Soares, ele tinha bom humor e era um empregado melhor situado, em status social e financeiro, pois, fazia traduções em Inglês e Francês e não tinha que cumprir horário. Por sua vez, o brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, revela que ele usava óculos grau 3 quando devia, pela miopia que tinha, usar grau 11 ou 12, não me lembro bem. Preferia ver o mundo borrado do que usar aqueles óculos fundo de garrafa. Portanto era vaidoso. Também comprava seus ternos no alfaiate mais caro de Lisboa e não pagava, isto é, era perdulário, vivia uma vida além de suas posses, gastava mais do que ganhava. Digno de registro é sua maluquice de se pautar por astrologia. Não se encontrou com Cecilia Meireles deixando um bilhete explicando que “ sentindo vibrações mediúnicas, decidira fazer seu horoscopo daquele dia, nele vendo que porque leu no horoscopo que “os dois não eram para se encontrar”. Em carta a Aleister Crowley, uma mistura bizarra de charlatão, criminoso, subversivo e ocultista, com quem ele se relacionava, com a mesma “justificativa”, ele escreveu em carta “janeiro e fevereiro, são meses impeditivos” e, que “março é um mês propício para encontrar consigo, estando a base solar de base (Sol, sextil, configuração formada por dois astros, Netuno) em notável harmonia com as circunstâncias”.

    Se verdadeiras as revelações dos dois biógrafos, fico a cogitar: Já que atender o mercado, produzindo uma obra atendendo os anseios do público, do vulgo, é desde sempre algo abominável para um ser superior, será que Fernando Pessoa criou Bernardo Soares para atender o anseio, o estado de espírito, dos pretensos homens superiores da época que abominavam a ação, traço português que foi extensamente tratado por escritores como Machado de Assis e Eça de Queirós? A singularidade é que Bernardo Soares, diferente dos personagens dos escritores citados que vivem de renda, tem hábitos burgueses, mas não é rentista. Entretanto os que, como Bernardo Soares , se julgam superiores, eram, na época, parte significativa da elite portuguesa rentista, e, por consequência, do público leitor de poesia.

    Além do mais, personagens tristes, deprimidos, sempre estiveram em alta no campo da Literatura e com razão. Nada mais enfadonho que narrar a história de um sujeito certinho, totalmente enquadrado no sistema, com uma vida sem sobressaltos. O legal, que dá mais Ibope, desde os tempos das tragédias gregas, como mostra Aristóteles em seu livro Poética, é escrever sobre tragédias, dramas, gente sofrida com uma vida prenhe de infortúnios, desacertos. Ser triste, para baixo, é muito mais charmoso. Nesta condição ele soa mais denso, mais profundo, dizem os leitores de alta cultura, leitores que se pretendem superiores. Ninguém ou poucos leitores da alta cultura dão valor a comédi a, a quem faz rir, em literatura, no cinema. A propósito, falando em cinema, os comediantes reclamam por nunca serem escolhidos para concorrer, que dirá ganhar, um Oscar.

    No entanto, a coisa é mais complicada. Temos o direito de conjecturar, mas não dá para bater o martelo afirmando que Fernando Pessoa, com certeza, pretendia com seu semi heterônimo, Bernardo Soares, representar um sentido unívoco. Como grande poeta que era, sabia que o sentido de uma obra literária pode assumir uma força polissêmica que pode ou não ir além da intenção do autor. No caso, Fernando Pessoa, pode, também, estar, com Bernardo Soares, reproduzindo e potencializando um acomodado jeito de ser, ou, denunciando o sofrimento do homem comum, mas sensível; do homem que sofre por sua inadaptação aos outros e ao mundo e que assim demonstra um tipo de sofrimento que não é por fome, doença física, mas um sofrimento da alma.  

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

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