5 de junho de 2026

Argentina: queda da inflação e debate entre candidatos na reta final do 1º turno

Com 15% em agosto, na quarta semana de setembro o valor acumulado da inflação foi de 7,4%. Milei lidera as pesquisas de intenções de voto
No debate entre os candidatos e candidatas deste domingo (8) a inflação deu lugar a troca de acusações com Milei mais cauteloso. Foto: Divulgação/C5N

A Secretaria de Política Econômica da Argentina informou que na última semana de setembro a inflação foi de 1,3%. Depois de picos de 15% em agosto, na quarta semana de setembro o valor acumulado foi de 7,4%. O informe aponta ainda que se houvesse um superávit fiscal primário e dólares para reduzir as disparidades cambiais, a inflação poderia cair ainda mais.

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O anúncio ocorreu dias antes do segundo debate presidencial, neste domingo (8), na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires. Este também foi o último debate dos candidatos antes da realização do primeiro turno, no próximo dia 22. Três candidaturas protagonizam as eleições: Sergio Massa (União pela Pátria), Patricia Bullrich (Juntos pelo Câmbio) e Javier Milei (A Liberdade Avança).

Para quem percorre os jornais argentinos nesta segunda-feira (9), a economia parece não ter sido a principal preocupação dos candidatos e candidatas durante o debate. Houve troca de acusações, sobretudo entre Massa e Bullrich, com Milei, que mesmo sem tanto improviso, lendo respostas, não deixou de tecer seu rosário negacionista e gerar os chamados ‘cortes’ para uso nas redes sociais.

De acordo com as pesquisas, Milei deverá estar no segundo turno, programado para novembro. Massa, ministro da Economia e apoiado por uma coalizão de centro-esquerda, e Bullrich, ex-ministra do governo Mauricio Macri e de centro-direita, disputam quem irá enfrentar o candidato da extrema direita – por isso, o debate deste domingo teve maior tensão entre Massa e Bullrich.

Na pesquisa divulgada pelo jornal Clarín no último dia 4, Milei aparece com 32,2% das intenções de voto. Logo atrás está Massa com 28,9% e Bullrich com 23,7%. Os candidatos Juan Schiaretti (Fazemos um Novo País) e Myriam Bregman (Frente de Esquerda) têm, respectivamente, 3,1% e 2,1%. Outros 6,2% afirmaram não saber em quem votar e 3,8% votam em branco.

A situação econômica do país vem sendo utilizada por Milei para sustentar seu discurso extremista e justificar medidas ultraliberais. O relatório da secretaria de Política Econômica, diante do cenário, que mostrou a inflação baixando de uma maneira mais constante, trouxe algum otimismo na reta final do primeiro turno principalmente para o candidato do governo, Sergio Massa.

Inflação amarrada

Na Argentina, a inflação está amarrada à desvalorização cambial forçada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), controle de preços, à teia especulativa e à fuga de dólares – aqui, a ‘coisa’ complica.

Nesta quinta-feira (5), uma mega operação da Receita Federal argentina flagrou 18 empresas, entre elas grandes bancos, empresas de turismo e empresas de fachada, em ações de evasão de dólares, na casa dos U$400 milhões, a partir da falsificação de carteiras de importação.

Trata-se de um quadro complexo, onde o controle da inflação passa pela fiscalização e repressão ao crime especulativo. Sem isso, conter a inflação é um exercício de redundância. Há dezenas de grandes empresas que, por exemplo, fraudam o controle de preços.

O que se questiona na Argentina é como a queda da inflação poderá influir na escolha do eleitor em um país cujas previsões, de um modo geral, não estão se consolidando ou acabam sendo surpreendidas por uma outra realidade sobreposta.

As pesquisas das Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (PASO), prévia das eleições ocorridas em agosto, por exemplo, não se confirmaram. 

Impactos da queda  

A queda da inflação não é necessariamente comemorada por quem teme vir o candidato da extrema-direita Javier Milei crescer ao se alimentar do caos, mas uma forma de até dezembro, quando se define o segundo turno das eleições, ter os preços dos alimentos estabilizados ou até mesmo em queda – mesmo que sensível – para garantir um ambiente de escolha ao eleitorado mais equilibrado.  

Depois de dezembro, bem, se trata de uma outra história a ser escrita pelo vencedor das eleições. Se for Milei, o candidato promete como medidas liquidar o Banco Central e dolarizar a economia argentina, o que setores liberais, de centro e de esquerda apontam como soluções catastróficas, senão inviáveis.   

A política argentina hoje passa pelo preço que a população encontra nas gôndolas. Por mais que o impacto da queda da inflação nas eleições seja difícil de medir, o governo Alberto Fernández, até aqui considerado morno por quem o apoia, atingiu um objetivo considerado parte da solução de curto prazo. 

O cientista político Bruno Lima Rocha explica que a política de preços solidários, ou preços controlados, um dos pilares para a queda da inflação, se tornou uma aliada do ministro da Economia e candidato à Presidência Sergio Massa, o principal adversário de Milei, com quem, conforme as pesquisas, disputará o segundo turno.  

Rocha ficará na Argentina até dezembro com o objetivo de analisar e estudar o processo eleitoral. “Garantir os preços solidários é uma política permanente para conter a inflação. A outra está no campo da melhoria da renda do mundo do trabalho formal”, explica. No pacote, lançado próximo ao período eleitoral, se encontra o reforço da renda e da renda mínima.

Acordo com o FMI  

De acordo com o cientista político, as medidas poderiam ter sido adotadas antes, mas na Argentina se diz que não foi possível por conta da espera do acordo com o FMI, que só ocorreu no final do último mês de agosto. O acordo acabou sendo o maior fator inflacionário porque o FMI exigiu desvalorizar o peso (moeda argentina) em 100%; o governo Fernández conseguiu segurar em 22%.

Quanto aos preços solidários, o cientista político explica que grandes redes de supermercados estão aderindo. No entanto, a maioria frauda. Para diminuir o custo,  Massa interferiu na política de devolução do Imposto Sobre Valor Acrescentado (IVA). A rede de supermercados Coto, por exemplo, a maior da Argentina, sobrepôs o IVA, mesmo que reduzido pelo governo, aos preços.

Compensou a inflação duas vezes. “Então a devolução do imposto não vai fazer efeito na massa trabalhadora (nesse caso). Mas ainda assim, de forma marginal , os preços baixaram ou estabilizaram”, explica o cientista político. Ele analisa que a demanda argentina é muito previsível e dá para organizar com o Estado como intermediário.

O padrão inflacionário do país está nos custos fixos de energia e transporte, acrescentado a isso as subvenções do governo. “Se tirar o subsídio para energia e transporte, o pais fica inviável. Foi o que o (Mauricio) Macri (ex-presidente entre 2015 e 2019) fez nas primeiras 4 a 6 semanas de governo. A conta de energia subiu quase 1000% em algumas regiões”, explica.  

Eleições em curso

Ocorre que qualquer análise sobre a queda da inflação na Argentina tem desaguado nas eleições. Não só internamente no país, mas também no continente. No Brasil, há apreensão em face das chances de Milei ser eleito presidente. O candidato costuma se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de forma negativa e, portanto, um futuro governo seria de oposição regional ao mandatário brasileiro.

Milei já prometeu romper com o Mercosul, há poucos dias voltou atrás, idas e vindas comuns em seus discursos, mas prevalecendo ideias econômicas que impactariam diretamente o comércio entre os dois países. Ou seja, para Rocha não é apenas a economia argentina que está em sérios apuros sob a batuta do candidato da extrema-direita, que deverá ter o apoio do macrismo no segundo turno.  

O partido União Cívica Radical (UCR), que sustenta a frente política de Massa, oferece todos os indícios de que irá procurar a candidata de centro direita Patricia Bullrich caso as pesquisas se confirmem e Massa siga à segunda volta com Milei. Bullrich tem a segurança pública como um pilar de campanha, além do controle cambial, o que não foge muito do escopo e da linha ideológica de Massa.

“(Se formos fazer uma analogia com o Brasil) Massa seria o Geraldo Alckmin, Bullrich mais próxima de João Doria, já Milei, o Paulo Guedes, e a sua vice (Victoria Villarruel), o Bolsonaro”, ilustra Rocha.

Milei contra Milei

Apesar das pesquisas o apontarem como o mais votado para o primeiro turno, contra Milei pesam suas próprias convicções e as de seu grupo. A candidata a vice-presidente, Victoria Villarruel, é advogada e negacionista da Ditadura Militar (1976-1983), que matou mais de 30 mil opositores ao regime, sendo filha de um ex-militar envolvido com tortura.

Milei também vem sendo associado, pelas próprias propostas que faz na campanha, a um político que pretende retirar direitos e vender o país, caso da ideia de dolarizar a economia e privatizar o que resta nas mãos do Estado. “É possível que atinja a campanha do Milei (…) não num ecossistema restrito como o Tik Tok, em que ele tem 7 milhões de seguidores, mas de um modo geral, sim”.  

O debate no país é obrigatório e em cadeia de emissoras. No encontro dos candidatos e candidatas de 1º de outubro, a audiência bateu 40 pontos, lembra o cientista político, considerada alta.

Tal como Jair Bolsonaro aqui no Brasil, Milei costuma se complicar em debates públicos, sendo a melhor tática ficar restrito a seu espaço nas redes sociais, onde não é confrontado em sua performance que ultimamente tem contado com uma motosserra.

Por isso, para o debate deste domingo (8), Milei se apresentou mais cauteloso, lendo respostas prontas, sem improviso, mesmo que tenha chamado, entre outros disparates, Bullrich de “motonera assassina”, se referindo ao grupo político que na clandestinidade se opôs de forma armada à Ditadura Militar. 

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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