11 de junho de 2026

Palestina e o fracasso da mediação dos Estados Unidos, por Luís Nassif

A conclusão da Eurasia Review é que os Estados Unidos são considerados, por muitos analistas, uma potência em declínio no Oriente Médio.
Governo de Israel promove uma campanha agressiva contra qualquer organização internacional que questione seus métodos na Faixa de Gaza. Foto: Reprodução/Al Jazeera

Segundo a NBC, os Estados Unidos confiam na influência da China sobre o Irã, para acalmar as tensões no Oriente Médio.

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O maior sinal de fracasso da diplomacia americana ocorreu logo depois da ofensiva do Hamas sobre Israel. Uma comitiva de senadores democratas e republicanos americanos se reuniu com o presidente chinês Xi Jinping na manhã de segunda-feira. A reunião durou cerca de 80 minutos, disse Schumer, quase o dobro do esperado.

O líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, informou que a delegação pediu a Pequim que usasse sua influência com o Irã para evitar que o conflito Israel-Hamas se espalhasse.

O episódio mostra mais um fracasso da diplomacia Ocidental e da falência das instituições multilaterais.

O acordo Arábia-Israel

Ele ocorre em um momento em que os Estados Unidos trabalhavam por uma pacificação entre Arábia Saudita e Israel. Por se tratar de processo complexo de reconciliação, apontou a Eurasia Review, cada lado terá que assumir compromissos para que o acordo seja aceitável para o outro lado.

No final de 2020 e início de 2021, governo Trump, Israel normalizou relações com países muçulmanos dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão.

Se fechado o acordo com a Arábia, haveria uma mudança radical no Oriente Médio. O ultradireitista primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro, chegou a anunciar que Israel estava no “limiar” de um acordo de paz transformador com a Arábia Saudita.

“Essa paz contribuirá muito para acabar com o conflito árabe-israelense”, disse Netanyahu. “Isto encorajará outros estados árabes a normalizarem as suas relações com Israel. Isto aumentará as perspectivas de paz com os palestinos. Promoverá uma reconciliação mais ampla entre o Judaísmo e o Islão, entre Jerusalém e Meca, entre os descendentes de Isaac e os descendentes de Ismael.”

A insensibilidade em relação a Palestina sempre foi a pedra no sapato de qualquer acordo.

Já houve 6 fases deste acordo. Na primeira, a partir da década de 1990, as negociações foram conduzidas pelo Mossad (o serviço secreto de Israel) e o embaixador saudita em Washington. A segunda foi a Iniciativa de Paz Saudita de 2002. Riade oferecia o reconhecimento árabe de Israel em troca de um estado palestino demtro das feonteiras de 1967, com Jerusalém Ocidental como capital. Israel rejeitou.

A terceira fase foi após a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, especialmente depois de ambos os países definirem o Irã e o Hezbollah como inimigos comuns. A quarta foi no mesmo ano, quando o então primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, acompanhado pelo chefe do Mossad, reuniu-se com o príncipe Bandar Bin Sultan Al Saud na Jordânia.

A quinta etapa permitiu que aviões da Air India sobrevoassem o território saudita a caminho de Israel, e aviões de passageiros israelitas sobrevoassem o espaço aéreo saudita.

Entrou-se agora na sexta fase, através da diplomacia oficial, tendo os Estados Unidos como intermediário. O que levou as autoridades palestinas a irem a Riade para expor suas reivindicações no acordo de paz.

  • reabertura do consulado americano em Jerusalem Oriental e do escritório da OLP em Washington.
  • elevar o nível do representante palestiuno na ONU, de observador a membro;
  • congelamento da construção de novos assentamentyos israelenses, transferindo o território da zona C (sob controle total de Israel) para a zona B (sob constrole civil palestino).

A questão palestina

A questão palestina é tão central que o Ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, mais os Ministros do Egito e Jordânia, lideraram uma reunião extraordinária, à margem da Assembléia Geral da ONU, com participação de 50 Ministros de Relações Exteriores, visando promover uma solução de criação de dois Estados, Israel e Palestina, baseada na Iniciativa Árabe da Paz, junto com um “pacote de paz” a ser oferecido a israelenses e palestinos.

A Arábia Saudita definiu três questões principais para a aceitação do acordo. Uma delas, justamente, foi a questão palestina.

Israel teria muito a ganhar, se cedesse. Teria acesso ao petróleo árabe, mercado para seus produtos tecnológicos, conseguiria normalizar relações com todos países árabes, passaria a fazer parte do corredor econômico ferroviário, que vai da Índia, passando pelo Oriente Médio, até a Europa.

O presidente americano Joe Biden tentou convencer os israelitas e atender as reivindicações dos palestinos. Mas Netanyahu está preso aos compromissos com a extrema-direita que se opõe a qualquer concessão à Palestina.

Por isso mesmo, a paz local só seria possível quando um moderado assumisse o governo de Israel.

Enquanto os EUA debatem-se nesses dilemas, a diplomacia chinesa avança em todas as frentes. A China oferece uma central nuclear civil para a Atrábia Saudita. Em dezembro de 2022, Xi viajou para a Arábia Saudita, assinando vários acordos bilaterais sobre tecnologia, infra-estrutura e segurança. Os sauditas aderirão ao BRICS em 1o de janeiro de 2024 e em 2021 Riade tornou-se parceiro da Organização de Cooperação de Xangai. A China tornou-se o maior comprador do petróleo saudita e ambos negociam para pagar em yuan.

A conclusão da Eurasia Review é que os Estados Unidos são considerados, por muitos analistas, uma potência em declínio no Oriente Médio.

A ofensiva do Hamas pode ter sido uma pá de cal na pax americana. [link para Instagram aqui]

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. Jair Costa

    10 de outubro de 2023 9:16 am

    Os Estados Unidos quis fazer em Israel o modelo que ele faz com a América Latina,
    um Estado rico, vizinho de Estados pobres e miseráveis, mas controlado pelo
    Estado Rico. Aqui na América Latina nenhum estado consegue prosperar economicamente e politicamente por intromissão e golpe dos americanos. Simplesmente não podem
    progredir. O Brasil mesmo foi instado a se dividir e a se odiar, e não sabemos
    porque estamos dividos e nos odiando. Acusações e mentiras, controle da mídia
    especialmente e bajulação de militares. E o filme continua.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    10 de outubro de 2023 11:30 am

    O império norte-americano não sobrevive sem criar pontos de tensão. Ele financia a guerra na Ucrânia para manter os russos fora da Europa e os alemães de cabeça baixa. Ele trata os palestinos como terroristas criminosos se recusando a questionar a persistência da brutalidade programática empregada por Israel contra a população de Gaza. O ataque dos EUA ao Hamas é uma maneira indireta de atacar o Hezbollah e o Irã para persuadir a Arábia Saudita que é mal negócio se aproximar da China? Essa é uma questão plausível, pois me parece que a pacificação da região capitaneada pela aproximação entre Irã e Arábia Saudita patrocinada por Pequin fere mortalmente os interesses dos EUA no Oriente Médio. Ao se comportar como o valentão com o maior porrete Joe Biden amplia sua vantagem eleitoral sobre Donald Trump? Esta é outra questão plausível, porque é já impossível separar a política interna da política externa norte-americana. Nenhum presidente norte-americano vitorioso no campo de batalha perdeu uma reeleição. Presidentes derrotados ou que se tornaram pacificadores tiveram seus mandatos abreviados ou não foram reeleitos. Biden parece usar o Oriente Médio (lugar em que pode agir com liberdade) como uma compensação militar para a derrota que o império inevitavelmente sofrerá na Ucrânia, onde ele obviamente não pode colocar tropas sem correr o risco de uma guerra nuclear com uma potência nuclear. Existe evidentemente uma ironia nessa compensação. Ela é a demonstração que o valentão do pedaço só pode chutar carrochos desdentados, subnutridos e sarnentos. Russos e chineses não ficarão nenhum pouco impressionados com a demonstração de força dos EUA em Gaza. No fundo eles provavelmente rirão da demonstração de impotência do império planetário que só consegue se impor quando nenhum outro resultado da ação dele poderia ser esperado. “Ave Imperator, morituri te salutant.” Confinados em Gaza e sabendo que serão atacados por Israel com ajuda dos EUA, os palestinos ostentam uma valentia digna dos gladiares romanos, porque aqueles que não morrerem certamente não poderão se considerar totalmente livres do jugo sionista e gringo. China e Rússia obviamente não colocarão tropas em campo para desmantelar o Circo Romano em que Gaza foi transformado. Na platéia, milhares de jornalistas aplaudem o espetáculo e exigem um maior derramamento de sangue. Eles lamentam a morte dos israelenses, mas continuam considerando matáveis as vidas dos palestinos. A insanidade foi transformada em espetáculo e muitos não querem que o espetáculo grotesco seja interrompido.

  3. Vladimir

    10 de outubro de 2023 11:40 am

    Em primeiro lugar,chamar de ofensiva ofensiva do Hamas,para quem vem sendo atacado dia sim outro também pela máquina genocida sionista,é um certo exagero,talvez,quem sabe,uma contraofensiva.
    De qualquer forma,o declínio dos falcões do norte é uma questão de tempo,e não muito tempo e a matemática explica:são 1,4 bilhões de chineses contra 350 milhões dos falcoeiros,ou seja,é um mercado 4 vezes maior.Além disso,é um mercado que não está maduro e que tem muito a ser desenvolvido. O mesmo,em breve,acontecerá com a Índia,ainda que com maiores dificuldades.
    As guerras que surgem nesse momento,de uma forma ou de outra,atendem aos interesses desses falcoeiros em buscar retardar a ascensão chinesa e asiática como um todo.
    OS falcoeiros fariam muito melhor se voltassem os olhos para a nova classe indigente que surge em seu país no lugar de buscar criar mais indigentes pelo mundo.

  4. Stalingrado

    12 de outubro de 2023 12:17 pm

    Os EUA não são mediadores, são financiadores de Israel e têm vantagem no estado permanente de guerra na região que gera lucros constantes para sua indústria armamentista.

  5. +almeida

    13 de outubro de 2023 1:59 pm

    Penso, em minha imaginação, que quando uma alucinada sensação de poder supremo domina o pensamento, as emoções, o comportamento e as ações do ser humano, eu creio que dificilmente ele aceita ser contestado e/ou, também, não admitirá jamais a perda de qualquer parte desse poder, que considera exclusivo e indivisível. Seja por qualquer razão moral, amoral, financeira, patrimonial, legal, ilegal, justa, injusta, agradável, tirana, violenta, covarde, traiçoeira, usurpadora, coerciva, gananciosa, conciliadora, impositiva ou ditatorial. Imagino de tudo será feito pelos contaminados, com todas as suas forças, para manter e aumentar ainda mais o apego e o poder que lhe domina e já é o seu total controlador. Usará da pressão, da agressão e das várias armas disponíveis para se considerar como o todo poderoso, até chegar o seu fim.
    Assim foi com antigos e poderosos reinados e impérios; com ditaduras e ditadores; com governos e governantes, e assim também continuará sendo com as supostas grandes potências, que se julgam imbatíveis e supremas.
    Onde está o imenso poder dos romanos, dos gregos, dos franceses, dos alemães, dos russos, dos mongóis, dos ingleses, dos bizantinos, etc?
    A grande maioria deles hoje se mostra como um dependente da boa vontade norte-americana, do seu socorro e dos seus favores. Talvez isso possa explicar a vergonhosa submissão que dedicam desequilibradamente ao mesmo.
    Porém, eu entendo que visíveis sinais de decadência (em todos os sentidos) se reproduzem claramente no território norte-americano e algumas desesperadas decisões e ações parece não mais surtir o efeito desejado e a disfarçada preocupação começa sair por baixo do tapete do remendado sonho americano.
    Israel e o Reino Unido, em minha avaliação, serão os primeiros a sentir o gosto amargo do desespero, da condenação e do castigo que poderá ser plenamente justificado por tudo que tenham feito, por tudo que ainda fazem, por tudo que não quiseram ouvir e por tudo que fingem não entender e não dar razão.
    Os demais submissos, possivelmente ficarão muito mais desesperados, a deriva e a espera de um milagre. As satrapias no planeta indicam que podem estar ainda mais decadentes e confirmando que a história, até o momento atual, sempre tem-se repetida.

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