O Modelo Chinês no Documentário “Indústria Americana”
por Jorge Alberto Benitz
Quem tem ainda alguma dúvida de como seria uma hegemonia da China, assista o documentário ganhador do Oscar de 2020, “Indústria Americana”, dos diretores Steven Bognar e Julia Reichert, disponível na Netflix. Eu nunca tive e estranho o fascínio que a China exerce hoje para muitos intelectuais de esquerda, que assim revelam o quanto estão se lixando para valores democráticos e civilizatórios. No tempo da guerra fria dava até para se compreender este fascínio que, por um tempo, envolveu até intelectuais do porte de um Sartre, pois, diante do contexto bipolar ideológico entre a união soviética e os EUA, ela parecia se constituir uma opção melhor. Compreendo a importância dela para um mundo multipolar que transcenda a hegemonia unipolar até então representada pelos EUA, a política econômica deles, com seu cunho nacionalista, onde o Estado e os enclaves capitalistas atuam em consonância visando um resultado melhor para a nação, muito superior ao laissez-faire neoliberal entreguista, cantado em prosa e verso de modo uníssono pelos jornalões, rádios, revistas e noticiários de TV dos coronéis midiáticos. Nunca tive dúvidas porque tomei conhecimento através de leituras, na imprensa de esquerda, sobre o péssimo comportamento dos chineses na África, se aproveitando das condições precárias do trabalho na relação capital/trabalho lá existente.
Voltando, no documentário é mostrado o dia a dia dos trabalhadores americanos e chineses da nova planta, na cidade de Dayton, estado de Ohio, devastada pelo desemprego, que foi ocasionado pelo fechamento de uma unidade fabril da empresa General Motors dez anos antes. Fica- se sabendo por depoimentos dados pelos empregados, ao longo do documentário, que os salários oferecidos pelos chineses, aceitos de imediato dado a situação de desemprego na cidade, representavam valores menores da metade do que recebiam no tempo da GM. Neste ponto, apesar de questionável, não significa comportamento diferente do empresário ocidental que provavelmente faria o mesmo.
Através do acompanhamento da implantação da indústria chinesa, Fuyao, fabricante de vidros automotivos, fica demonstrado o modus operandi dos chineses na relação com trabalhadores. O que se vê é impressionante. Um taylorismo brutal que consegue superar, no quesito atraso na relação empregado/empregador, o já atrasado modelo americano. Uma mistura de medievalismo no trato dos empregados pelos patrões e seus prepostos, com o uso até de slogan bregas e reacionários incitando, com hinos e exortações diárias feitas pelas chefias, uma louvação da empresa e seu dono tornado um objeto de culto quase, senão totalmente, religioso.
Para coroar, eles colocam como inegociável a possibilidade de sindicalização de seus empregados. Algo com este sentido, vindo de um país que se diz comunista, parece impensável. No entanto, é a pura realidade. Tanto que para defender esta tese, aparentemente estapafúrdia, vindo de quem vem, contratam uma consultoria especializada em desconstruir propostas de sindicalizações. Os argumentos que usam para defender esta posição são de uma fragilidade assustadora. São argumentos que nem a extrema direita brucutu ocidental ousaria defender publicamente dado o seu primarismo, sua brutalidade.
Depois de assistir o documentário, ficou mais claro, um fato que se constituiu em uma primeira visada algo paradoxal, a defesa do neoliberalismo feita pela China em reunião em Davos, quando milionários e economistas de outros países do mundo questionaram as bases deste modelo econômico. É a confirmação da famosa metáfora “Chutando a Escada”, expressão do economista coreano Ha-Joon Chang, para demonstrar a hipocrisia dos países que agora defendem um modelo econômico que eles não seguiram para conseguir se transformarem em competitivos. Agora, o neoliberalismo convém a eles, chineses, que surfam melhor do que qualquer outro país a onda do neoliberalismo com seus custos de mão- de- obra baixa e hiperexplorada, com a economia de escala e possibilidade de controlar o câmbio em seu favor, com o modelo econômico sistêmico do Estado entrando em linha com as empresas exportadoras e tendo vantagens enormes em termos de custos comparativos em relação a outros países. O compromisso deles é exclusivamente com seus interesses econômicos com sua nação, o que em si não é condenável, ao contrário. O problema é que para conseguir resultados econômicos, suas metas de faturamento, eles não têm nenhum prurido em atropelar tudo que possa prejudicar seu truculento modelo organizacional de administração. Aviso que, a partir deste ponto vai ter muito spoiler. Por isso, sugiro quem não goste disso, veja o filme primeiro.
O Presidente da empresa, visitando a empresa, se mostra amistoso e diplomático – chega até a falar quando consultado por um empregado seu se na parede do hall de entrada da empresa devia ser colocado um quadro de um artista americano junto de um artista chinês, respondeu, demonstrando certo conhecimento de história e se sentindo como representante de um império conquistador como os romanos “Coloque só o quadro de um artista americano. Façamos como os romanos que, quando dominavam um país administravam os povos conquistados de acordo com a cultura deste, sem impor a sua”.
Amistosidade puramente pragmática, que visava “vender melhor seu peixe”, naquele momento, e evitar animosidade por saber ser isso prejudicial aos seus negócios. A propósito, esta postura logo foi abandonada, com a realidade se impondo, diante de resultados produtivos inferiores e distante do esperado. Refiro-me ao ato de demissão de toda a direção formada por americanos, substituída por executivos chineses seguido de demissões dos que não se enquadravam nos padrões altíssimos de produção da matriz chinesa, nos que reclamavam de falta de segurança devido a insalubridade do trabalho ou mesmo por motivos fúteis, só para mostrar quem manda. Fica- se sabendo através de um diálogo com um trabalhador chinês quando este diz a um trabalhador americano que eles são preguiçosos se comparado com o ritmo da matriz da empresa na China, onde trabalham 12 horas ao invés das 08 horas por dia e folgam somente 2 dias ao mês ao invés da folga de 2 dias semanais.
O coroamento da relação de trabalho quase escravista e do modelo capitalista selvagem se revela nos últimos momentos do documentário, onde o Presidente chinês depois de se mostrar de saco cheio por vir toda a hora resolver problemas nos EUA, circula pela empresa acompanhado por um executivo chinês, entusiasmado, mostrando a ele o interior da empresa, apontando robôs que substituirão empregados “Aqui nesta área demitiremos 4 trabalhadores. Ali mais 2” e assim segue exposição, sem a menor demonstração de preocupação com o destino dos trabalhadores demitidos, desmentindo o discurso que faziam no início da implantação da empresa, quando se diziam interessado s em propiciar empregos e dignidade aos moradores da cidade.
No fundo, no quesito ganancia não diferem dos empresários ocidentais. A diferença é que não tem nenhum constrangimento, sentem- se a vontade, ao revelarem seus desejos e interesses, como o documentário mostra, de explorar ao máximo os trabalhadores, remetendo a relação capital/trabalho para os padrões brutais do século XIX. E se necessário descarta-lo ali adiante via aumento da robotização.
Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.
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