13 de junho de 2026

Pátria é outra coisa, por Rodolfo Walsh

Parafraseando Walsh, escrevo estas linhas com a certeza de ser criticado, mas fiel ao compromisso que assumi há muito tempo
Reprodução vídeo ONU

Pátria é outra coisa

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por Rodolfo Walsh

Rodolfo Walsh encerrou sua histórica ‘Carta Aberta à Junta Militar’ (https://principedelmanicomio.ar/2017/03/26/ahi-lo-guardamos-y-lo-celebramos-en-la-memoria/) dizendo ‘Estes Estas são as reflexões que no primeiro aniversário do seu infeliz governo quis transmitir aos membros daquela Junta, sem esperança de ser ouvido, com a certeza de ser perseguido, mas fiel ao compromisso que assumi há muito tempo de testemunhar em momentos ‘tempos difíceis’, e embora não sejam tempos de perseguição, ainda são tempos difíceis, embora por outras razões, e assumimos o compromisso de testemunhar.

O mundo enfrenta hoje múltiplas situações de violência, com violações dos direitos humanos em todo o lado e declarações altissonantes em que os interesses particulares são colocados à frente dos interesses gerais.

Temos de ser enérgicos e condenar as ações do Hamas, a violência ou o terrorismo nunca poderão ser a forma de defender ideias, mas temos de ser igualmente enérgicos para condenar a reação que faz com que “os justos paguem pelos pecadores” e condena a morte de civis pelos meros fato de habitar o mesmo espaço que os membros do Hamas.

Nada justifica as ações do Hamas, mas o conflito é muito mais complexo do que as ações do Hamas. Nesse sentido, o artigo de Daniel Finn na Jacobin é mais que ilustrativo (https://jacobinlat.com/2023/10/11/estados-unidos-firmo-un-cheque-en-blanco-a-netanyahu/?mc_cid=7f2db35564&mc_eid=235b9ea077).

Longe vão as palavras do representante argentino nas Nações Unidas que há alguns anos afirmou: ‘A Argentina reitera que a única verdadeira solução para o conflito será alcançada com a emergência definitiva de um Estado palestiniano independente, democrático, viável e territorialmente contíguo, que garanta o direito de Israel de viver em condições de paz e segurança” e hoje tudo está subordinado a ações terroristas, e fechamos os olhos à violação dos direitos humanos que, mesmo antes do tão anunciado ataque terrestre, é inegável. O bombardeio de uma escola ou hospital pode ser considerado um dano colateral e não um ato terrorista? A escola era para refugiados das Nações Unidas e o Hospital era claramente identificável. Ou existe terrorismo mau e terrorismo bom?

Mas, além das declarações, devemos analisar as ações específicas que a Argentina realizou após o atentado de 7 de outubro, e são bastante poucas. A declaração de condenação do Hamas, o silêncio face às ações de Israel em resposta, e o estabelecimento de voos operados pelo Estado nacional, isto é, por você e por mim, para ‘repatriar’ de Israel, e não de Gaza, para os argentinos que assim o desejarem.

Além de estar convencido de que a noção de pátria é um termo ultrapassado que tudo o que faz é gerar um coletivo fictício para enfrentar outro coletivo fictício, é-me incompreensível que estes conceitos continuem a ser utilizados em situações como esta.

Minha irmã mora no exterior por decisão própria e, numa situação como a vivida pelos argentinos residentes em Israel, seria ilógico para mim que todos os argentinos, mesmo aqueles que nunca vão embarcar em um avião, paguem para que ela retorne à Argentina. Ela escolheu ficar fora do país e, como adulta, deverá assumir o controle de suas decisões. Ela escolheu morar onde mora e sabia dos riscos e benefícios da sua escolha, não pode ser que ela capitalize os benefícios e socialize as perdas… e ainda por cima tentam nos vender isso como algo humanitário.

Num país onde mais de metade das crianças com menos de 16 anos são pobres, é humanitário trazer um grupo de argentinos de onde escolheram viver porque a situação já não é tão idílica como imaginavam? A sério? Essas são as prioridades?

Não seria mais útil trabalhar a política externa para que situações como as que vivemos hoje não sejam sequer uma hipótese?

Não seria mais produtivo trabalhar para quem decidiu, por opção ou não, apostar no país do que para quem colocou o seu projeto pessoal em primeiro lugar?

Não é mais patriótico contribuir com quem constrói o país do que com quem decidiu construir outro país?

Já dissemos isso, estou convencido de que a noção de pátria é um termo ultrapassado que a única coisa que faz é gerar um grupo fictício para enfrentar outro grupo fictício, mas se se apela a esse patriotismo, como se explica os voos da Aerolíneas Argentinas ? Como se não bastasse, muitos comemoram poder fazê-lo porque têm uma companhia aérea de bandeira… como se essa fosse a sua razão de existir.

A pátria é outra coisa. Como disse Raúl Alfonsín no Fórum Internacional de Mulheres realizado no Centro Cultural San Martín, em 10 de março de 1984, ‘comprometo-me mais uma vez a integrar solidamente essa seiva vigorosa, esse esforço determinado, para fortalecê-los e fortalecê-los superando as desigualdades, barreiras, diferenças e rebaixamentos, enterrando as preocupações e mágoas que ainda permanecem, para que a união seja mais forte e para que a sociedade seja mais digna, para que restabeleçamos o Estado da Constituição e a democracia que são a Pátria tangível, a única Pátria , a verdadeira pátria, a pátria que merecemos’, e isso não se consegue alocando fundos tão necessários no país para que aqueles que decidiram emigrar possam regressar à Argentina… e uma vez que a situação se acalme e silencie as bombas , muitos deles retornam para Israel.

Parafraseando Walsh, escrevo estas linhas com a certeza de ser criticado, mas fiel ao compromisso que assumi há muito tempo de testemunhar nos momentos difíceis, e este é um deles.

‘Reproduza esta informação, divulgue-a pelos meios à sua disposição: à mão, por tipo, por mimeógrafo, oralmente. Envie cópias para seus amigos: nove em cada dez estarão esperando por elas. Milhões querem ser informados. O horror é baseado na incomunicação. Quebre o isolamento. Sinta novamente a satisfação moral de um ato de liberdade. Derrote o terror.

RODOLFO WALSH – AGÊNCIA CLANDESTINA DE NOTÍCIAS

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