13 de junho de 2026

Como explicar a Nazisraelfilia da direita brasileira?, por Luis Felipe Miguel

Ou é uma compulsão para apoiar o racismo e a violência onde quer que se manifestem? Tipo “hay brutalidad, soy a favor”.
Goebbels e Alvim

Como explicar a Nazisraelfilia da direita brasileira?

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por Luis Felipe Miguel

Vocês lembram do Roberto Alvim? Como dramaturgo, certamente não. Mas como secretário da Cultura do governo Bolsonaro, talvez. Foi ele que incorporou um Goebbels num vídeo “patriótico”, que plagiou falas do ministro da Propaganda nazista.

E o Silvinei, o homem que pôs a Polícia Rodoviária Federal a serviço do golpe? Está preso. No celular dele, ali onde as pessoas guardam fotos dos filhos, do animal de estimação, do conje, das férias na praia, foram encontradas galerias dedicadas a Hitler, Mussolini e Bolsonaro.

João Henrique Catan. Quem? Ah, o deputado estadual do Mato Grosso, obviamente bolsonarista, que exibiu o livro de Hitler – Mein Kampf, “minha luta” – da tribuna da assembleia.

O notório olavete que se tornou assessor de Bolsonaro para assuntos internacionais, Filipe Martins, fez sinal supremacista em audiência no Senado. O mesmo olavete que, por mera “coincidência”, colocou, na foto de abertura do seu perfil no Twitter, um verso do poema de Dylan Thomas que abria o manifesto de um neonazista que matou 51 pessoas na Nova Zelândia.

O neonazismo vive um boom no Brasil, graças ao bolsonarismo. No Sul do país, as manifestações em favor do golpismo do então presidente muitas vezes incluíam a saudação nazista.

Não dá para negar: há um laço que liga o bolsonarismo ao neonazismo. De identidade, em muitos casos, mas ao menos de fascinação, em outros.

O antissemitismo, como todos sabemos, está no coração da doutrina nazista. Hitler comandou o extermínio de 6 milhões de judeus. Como explicar, então, o apoio ferrenho que a extrema-direita dá ao Estado de Israel?

Será que é só a vontade de “limpar a barra”? Os acenos ao nazismo tomam a forma de apitos de cachorro e o apoio a Israel seria uma demonstração pública de que “não somos neonazistas”.

Ou é uma compulsão para apoiar o racismo e a violência onde quer que se manifestem? Tipo “hay brutalidad, soy a favor”.

Talvez um espírito de oposição? A extrema-direita se coloca contra tudo que a esquerda defende. Se a esquerda é antinazista, já pinta uma simpatia por Adolf. Como a esquerda apoia a autonomia do povo palestino, então ficam do lado do Estado de Israel.

Explicações mais complexas incluem os evangélicos de direita. Como disse o pastor e teólogo Alexandre Gonçalves à BBC Brasil, eles confundem “o povo de Deus histórico, a nação de Israel do Velho Testamento, com o Estado moderno de Israel, com a política sionista”.

Ou, então, a reconfiguração do tradicionalismo – doutrina que teve influência na formação do nazismo histórico e que recuperou importância graças à ação de seguidores como Steve Bannon ou Olavo de Carvalho – reposicionou o antissemitismo no universo mental da extrema-direita.

Não sei a resposta. Mas é um fenômeno estranho.

Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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