Do Terra Magazine
Quando se entenderá o presente e o futuro da agricultura no Brasil?
Rui Daher
Desde 10 de dezembro de 2008, colaboro em Terra Magazine. Entre artigos e postagens, já se foram 600 textos.
Até passar a escrever, exclusivamente sobre a agropecuária e seus desdobramentos como agronegócio, em CartaCapital, era este o meu tema principal no blog. Ultimamente, tenho diversificado.
Aqui, acolá ou alhures, pois eventualmente esses textos são reproduzidos em outros sites ou mídias, honra frequente que me concede o Luís Nassif Online, percebo o quanto ainda é desconhecida e mal-entendida a história e a evolução da agropecuária brasileira.
É como se depois de comprovadas vocação inequívoca e expressão garantida, o debate sobre presente e futuro ficasse restrito à escolha entre agricultura com ares empresariais ou familiares, sem entende-las como complementares, porém com contradições próprias do capitalismo.
Em minha última coluna para CartaCapital, provocado pela polêmica que opõe o crescimento exponencial do uso de sementes transgênicas e seus efeitos ainda contraditórios, procurei, a partir de observações no campo, mostrar que essa é uma roda que se moverá pelos mais explícitos fatores de mercado, enfim, pela lógica do capitalismo.
Ousei citar que assim é, e é mesmo, mas que existem várias formas de amenizar tais confrontos, impedindo que aspectos selvagens do modelo corram livres, leves e soltos.
Uma das soluções propostas é continuar apoiando a agricultura familiar, emprestando a ela os mesmos recursos que consolidaram a agricultura dita empresarial, termo inadequado, porém, bem aceito nesse Fla-Flu.
Para quem se interessar, aqui o link para o artigo em referência:
http://www.cartacapital.com.br/economia/o-presente-e-o-futuro-da-agropecuaria-no-brasil-4840.html
Pois bem, entre os comentários que recebi, certas pérolas ilustram muito bem essa dificuldade de entendimento.
Desenho: a agropecuária deve ser vista como atividade aglutinadora, daí ter-nos feito potência mundial na produção e exportação de vários alimentos, fibras e energia renovável, ao mesmo tempo em que tem garantido segurança alimentar a preços baratos para o mercado interno.
Uma das pérolas que veio do Fla-Flu, de tão equivocada, é ininteligível perceber se serve à direita ou à esquerda:
“A agricultura é o pior lugar em tudo. Querer fazer a população de baixa renda permanecer na agropecuária me soa como ações sadomasoquistas.
Aumento de renda = êxodo rural”.
Entenderam, certo? Saiam todos do campo para a cidade se quiserem aumentar suas rendas. Repercussões? Provavelmente, nenhuma.
Aí, dois desconhecimentos: a situação caótica nos conglomerados urbanos e a frequente confusão entre o que é agricultura familiar e o que são assentamentos mal instalados e assistidos, movimentos reivindicatórios de terras, índios, quilombolas, estes sim, inseridos num processo de promoção de miséria, e que acabam resultando em êxodo rural.
Muitas propriedades, em áreas até acima de 300 hectares, são tocadas por famílias unas ou comunidades delas, em culturas diversificadas, inclusive as de exportação, comercializadas através de tradings e cooperativas.
São famílias, cacete! Andem, viagem, vão lá ver. Têm acesso diferenciado a financiamentos pelo crédito rural, estudam, testam e compram tecnologia e máquinas modernas, acompanham as bolsas internacionais para saberem o momento de vender a produção.
Ou esses digníssimos digitalizadores agropecuários, que pensam somente nas cidades ser possível aumentar renda, acreditam que a agricultura ainda toca suas lavouras contratando esfarrapados jecas para o trabalho?
Não, cara, ele semeia, maneja, trata, passa o dia no trator e, no final da tarde, se ajeita e vai assistir a uma palestra sobre inovações tecnológicas. Tá bom, no final, pode sempre rolar chimarrão, chope, cachaça para acompanhar o churrasco ou a buchada.
Senhores, a agricultura familiar produz quase 80% dos alimentos para consumo interno, usa tecnologia moderna, inclusive de precisão, está mecanizada, estatisticamente, planta e colhe em propriedades médias de 70 a 100 hectares, em mais de 50 culturas e rebanhos.
Sobrevivem, e bem. Da mesma forma que a agropecuária praticada em grandes extensões de área, a familiar sofre quando seus preços de comercialização têm quedas drásticas, suas plantações são atingidas por adversidades climáticas, ou os bancos seguram o crédito.
Também quando um inadvertido Mister Magoo quer que ela vá para a cidade procurar renda.
Ivan Bispo
2 de julho de 2014 12:08 pmAgronegócio familiar
No Brasil em SC temos as menores áreas rurais. E SC é considerado um Estado do agronegócio. Agricultura familiar também é agronegócio. Produz para consumo interno e também para exportação.
Lineu Ignacio
2 de julho de 2014 2:32 pmQuando se entenderá o presente e o futuro da agricultura?, por R
prezado Rui.
Não podemos parar a evolução da raça humana.
iniciamos nossa camionhada na zona feudal e vamos atingir a auto-realização.
A dicotomia agricultura familiar x agricultura empesarial não existe.
Existe a exploração da agricultura familiar contra a agricultura empesarial.
O que existe são conceitos parciais que alimentam o Fla x Flu.
Deixe o agricultor familiar trabalhar.
Não praocurem jogar o pequeno contra o grande.
Rui Daher
2 de julho de 2014 4:09 pmComplementaridade
É justamente o que tenho escrito, mas 90% das opiniões levam ao Fla-Flu. Concordam os que conhecem a realidade de forma presencial. Abraços. Rui